Certa família convidou um bem-sucedido camponês, que gostava
muito de poder ir a um teatro, para ir com eles ver uma peça no melhor teatro
da cidade.
O edifício era grandioso e a encenação era extraordinária.
O homem estava entusiasmado.
À saída, perguntaram-lhe o que ele tinha achado da peça, e
ele disse:
– Para falar verdade, mal descobri do que tratava a peça,
porque fiquei encantado a olhar para o elenco.
Algo semelhante pode acontecer connosco com o Evangelho que
relata a Ascensão de Jesus (Marcos 16, 15-20; Lucas 24, 50-53; e Atos dos Apóstolos 1, 6-11)
Ficamos a olhar para Jesus como um super-herói que passa
pelas nuvens e sobe ao céu.
Talvez nos lembremos de Elias, que foi arrebatado ao céu, e
de outros seres mitológicos.
Na melhor das hipóteses, pensaremos que nós também subiremos
ao céu.
Ou seja, como o bom homem camponês, teremos ficado muito
felizes com a encenação.
Mas será que a mensagem nos move?
No Evangelho, somos enviados a proclamar o evangelho a todo
o mundo.
Mas que Evangelho estamos a comunicar?
No Evangelho, Jesus percebe que aos discípulos ainda lhes falta
fé. Então deixa-nos o Espírito Santo.
Com o Espírito, a fé, mesmo pequena como uma semente, tem
tal força e vitalidade que nos ajuda a desenvolver a capacidade de comunicação:
- com quem está mudo, devido à dor, desilusão, cansaço,
opressão, que foi espancado até ao silêncio
- com quem não sabe exprimir-se por falta de amor-próprio,
está prostrado. Poderemos não conhecer outras línguas, mas o Espírito ajuda-nos
a falar novas línguas, por exemplo, a língua do olhar que acolhe sem julgar, a
língua das mãos que sustentam e dão força ou a língua dos pés que acompanham,
mesmo em silêncio, quando falamos línguas diferentes.
- com quem precisa de expulsar demónios (mentiras, divisões,
etc.).
Jesus deixou como exemplo ter vivido entre nós a fazer o bem
e a instruir com palavras edificantes.
- De que adianta celebrar a festa da Ascensão se pedimos que
sejam erguidos muros para que os migrantes não partilhem do nosso bem-estar?
- Como podemos ir à Eucaristia se não queremos que as
pessoas que são, pensam ou vivem de maneira diferente, “toquem” as nossas vidas
?
- De que adianta falar da Ascensão de Jesus, se não ajudamos
aqueles que são lançados na lama a ter condições que lhes permitam
"ascender" à condição de seres humanos com todos os direitos ?
- De que adianta hoje enfatizarmos a importância de ir
evangelizar outros países se muitas de nossas igrejas estão quase vazias e logo
terão teias de aranha, porque não mudamos tudo o que é necessário para que
possam voltar a ser casas a portas abertas, como eram no passado?
O Evangelho termina dizendo que o Senhor Ressuscitado
cooperou com aqueles que iam anunciar a Boa Nova por meio de milagres/sinais. Hoje,
Jesus continua a enviar-nos, a cooperar e a oferecer-nos sinais. Percebemos esses
sinais ou ainda estamos fascinados a olhar para um espetáculo?
«Temos de higienizar as nossas vidas, eliminando o que nos
esvazia de esperança. Quando nos deixamos dominar pela deceção, pelo pessimismo
ou pela resignação, tornamo-nos incapazes de transformar a vida e renovar a
Igreja.
O filósofo americano Herbert Marcuse disse que «a esperança
só é merecida por aqueles que caminham». Eu diria que a esperança cristã é
conhecida apenas por aqueles que seguem os passos de Jesus. São eles que podem
«proclamar o Evangelho a toda a criação» (Jose Antonio Pagola).
Fernando Félix e Marifé Ramos González (Fé adulta)

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