«A Santa Sé foi a última a ser conquistada para a devoção de São José» – entrevista com Leonardo Boff (7)
Que narrativa se constituiu
de São José até o decreto Quemadmodum Deus, assinado em 8 de dezembro de 1870 por Pio IX, em que torna José
Esposo de Maria e Padroeiro da Igreja Católica? E o que muda na história
contada acerca de José depois desse decreto?
Leonardo Boff: De modo geral, São José nunca teve
centralidade na Igreja latina. Quase tudo se concentrava em Jesus e em Maria.
Somente no século viii se começou
certo culto a São José. Só a partir dos anos 800 aparecem os primeiros sermões,
pois a Igreja não sabia o que fazer com alguém que não dissera nenhuma palavra
e tivera somente sonhos. Só em 1870 foi proclamado patrono da Igreja Universal
– não pelo Papa Pio IX, mas por um decreto da Congregação dos Ritos.
Pio XII proclamou o dia primeiro de maio o dia de São José,
o trabalhador. Mas foi somente o Papa João XXIII que introduziu o seu nome no
cânone da missa: «São José, Esposo de Maria.»
O verdadeiro culto a São José, seja como trabalhador ou
patrono da boa morte, foi por séculos venerado pelo povo. Conheciam os
apócrifos, cheios de detalhes da vida quotidiana de Jesus, que inspiraram os
artistas renascentistas e até hoje em dia, como entre outros A história de
José, o carpinteiro e Diálogos de Jesus, Maria e José.
São José, por causa da devoção popular, dá nome a pessoas,
ruas, de edifícios, de escolas e de várias congregações religiosas,
especialmente dos Josefinos, que levam pelo mundo seu nome.
Comenta, entretanto, um dos maiores conhecedores da
Josefologia, dos estudos sobre São José: «A Santa Sé foi a última a ser
conquistada para a devoção de São José.»
Leonardo Boff, padre casado, teólogo da Teologia da Libertação, escritor e professor brasileiro, em UNISINOS

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