Livro cuja leitura recomendamos: «História das vestes litúrgicas: forma, imagem e função». Um resumo

A reforma litúrgica desejada e promovida pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), renovou não apenas a língua, os cânticos, a organização do altar, o púlpito, a forma da assembleia, o panorama iconográfico, sonoro e luminoso, mas também as vestes litúrgicas.
 
As normas e as disposições relativas às vestes estão presentes nos novos livros rituais. São disposições essenciais, no entanto, escassamente incisivas, pouco conhecidas e apreciadas, respeitadas ao pé da letra, mas sem nenhuma convicção.
 
As autoridades eclesiásticas muito aplicadas em outros setores como a arquitetura e a arte para o culto, não dedicaram uma atenção especial às vestes litúrgicas enquanto tais e às influência da reforma litúrgica sobre elas. Além disso, em essência, a reforma em andamento parece ainda desprovida de raízes culturais sólidas e de propostas de formação. Nenhuma pesquisa histórica, teológica e ritual; nenhum ensinamento, nenhum centro de planeamento e documentação se mostram visíveis e ativos.
 
Diante disso, Sara Piccolo Paci, consultora de história do vestuário, especialista em alfaiataria e professora de História do Vestuário e da Moda e de Etnografia em vários Institutos, entre os quais o Polimoda de Florença, o Fashion Institute of Tecnology de Nova York e a Università degli Studi de Florença – deseja refletir sobre esse tema. Mesmo parecendo de importância menor em relação a outros assuntos litúrgicos, parece chegar rapidamente ao cerne de inúmeras questões, como a relação entre dignidade do corpo e aparência, entre função e símbolo, entre expressão de espiritualidade ou poder.
 
Essa é a proposta do seu livro: História das vestes litúrgicas: forma, imagem e função (Loyola, 2021, 448 p.). Estruturando a obra em duas partes principais, a autora busca aprofundar particularmente a relação entre homem e corpo, entre corpo e sociedade, entre corpo e vestir.
 
Análise do conteúdo do livro, por capítulos
Na primeira parte (capítulos I-IV), a autora, busca oferecer uma breve síntese da evolução do conceito de corpo na sociedade ocidental em relação ao problema do vestuário e, em especial do “vestir sacro”. Paci traz primeiramente uma pesquisa sobre a origem de um vestuário litúrgico no mundo cristão, em relação tanto às vestes sacras das religiões precedentes quanto às novas exigências próprias do cristianismo. Por isso, a autora analisa brevemente a importância da imagem no mundo mediterrâneo da Antiguidade Tardia e nos seus desdobramentos como expressão de poder e propaganda.
 
Encontramos nas páginas do primeiro capítulo uma reflexão sobre as relações entre vestuário litúrgico, prescrições bíblicas sobre o vestuário sacerdotal hebraico e as roupas comuns romanas (cf. pp. 27-67). A autora observa que, em relação à roupa, em todo mundo antigo, longe de ser um asséptico, casual ou fantasioso, possuía uma vasta e complexa rede de significados e mecanismos sociais aptos a tomar as formas do vestir num complexo sistema de comunicação, também, e talvez, sobretudo, no âmbito do sagrado: assim que teve a oportunidade, também o clero cristão aproveitou e desenvolveu as possibilidades oferecidas pelo vestuário, considerando-as iguais a outras formas de comunicação visual, como a arte, por exemplo.
 
No segundo (p. 69-90) e terceiro (p. 91-143) capítulos, a autora buscou dar relevância especial à percepção da imagem-veste no mundo medieval, sobretudo na exegese bíblica, acompanhando a consciência do simbolismo do vestir em muitos dos grandes pensadores medievais.
 
Especificamente no segundo capítulo, Paci destaca que no mundo romano a imagem era uma realidade indispensável para a vida social (a imagem era complemento da Palavra): não apenas as divindades eram representadas por imagens, mas toda a literatura está repleta de textos fortemente evocativos de imagens. Além disso, a própria representação do imperador se torna instrumento de comunicação nas esculturas que, reproduzindo e algumas vezes idealizando seus traços físicos.
 
No âmbito civil e politico, a atenção à expressão visual e auditiva dos conceitos havia sido enfatizada desde os primórdios da arte oratória: gestualidade, roupas apropriadas e uso habilidoso da voz.
 
O mundo cristão tornou-se herdeiro dessa consciência política da imagem. A tradição cristã viu na imagem o complemento natural da palavra, a ponto de, no decorrer do tempo, desenvolver múltiplos mecanismos de interação, entre imagem, ideologia e simbolismo. Considerando a importância que a imagem e a representação tiveram na história da Igreja e da civilização europeia, a autora analisa se houve atenção e cuidado análogos também na transmissão da imagem e dos significados relacionados com as vestes litúrgicas destacando que com muita frequência tanto roupas de uso quotidiano como vestes litúrgicas são citadas e se tornam motivo de reflexão espiritual e pragmática.
 
Nas reflexões do terceiro capítulo, Paci considerando o significado simbólico na exegese bíblica dos Santos Padres (leitura alegórico-espiritual) mostra que nas reflexões dos Santos Padres, assim como nos relatos hagiográficos medievais permaneceram as considerações bíblicas referentes às vestes, indumentárias e tecidos relacionados a três campos principais: de um lado, sem as roupas as pessoas são indefesas, quase sem esperança; em outro aspecto, por meio do vestuário, elas manifestam a sua posição na sociedade; e as roupas tornam evidentes as relações entre as pessoas e/ou entre elas e Deus.
 
Os séculos mais recentes, da Contrarreforma ao Concílio Vaticano II, são analisados no capítulo IV (p. 145-179) por suas substanciais assonâncias sobre o valor atribuído à imagem, pública e pessoal, como expressão principal do indivíduo, do Estado e das Instituições.
 
Em relação ao Concílio Vaticano II, a autora destaca que este modificou a posição da Igreja diante da liturgia, das imagens e das roupas, afirmando que a arte deve ser livre para se expressar com as formas, os estilos e as metodologias mais adequadas segundo a evolução dos tempos, sem prejuízo apenas do principio de que o artista que trabalha para a Igreja deve dotar-se de uma séria informação religiosa, mas permanecendo livre para seguir ou não as iconografias tradicionais e de se expressar também com módulos não usuais, desde que contribuam para a relação de proveitosos enriquecimento espiritual entre homem/mulher e Deus. Paci destaca que no pós concílio há uma semelhança entre as escolhas inovadoras da liturgia depois do Concílio Vaticano II e as da moda: ambas oscilam entre tradições e inovações, usos modernos e retorno aos usos antigos.
 
Nos capítulos V (p. 181-225) e VI (p. 227-270) encontramos uma breve visão de conjunto do tecido, nas suas partes tanto materiais como simbólicas, em busca do distinto valor dado aos produtos têxteis nas épocas anteriores à industrialização: materiais, tipologias e motivos decorativos nos têxteis litúrgicos com uma breve descrição de alguns dos tipos mais difundidos: árvore, cordeiro, águia, castelo, pomba, coroa, cruz, fênix, cravo, lírio, trigo, grifo, hortus conclusus, leão, romã, pavão, rosa, roda, estrela, tulipa, pássaros, uva. Paci apresenta também uma sucinta análise do mundo da cor, tanto nas modalidades práticas de tingimento como no seu uso simbólico e litúrgico.
 
Na segunda parte (capítulos VIII-X), intitulada: História e evolução das vestes litúrgicas, Paci faz uma análise de cada um dos paramentos litúrgicos, subdivididos por grupos temáticos, oferecendo uma série de fontes dos autores mais representativos ou particularmente significativos, as possíveis interpretações etimológicas, o simbolismo, uma breve história do objeto e, por fim, as características morfológicas.
 
O capítulo VII (p. 273-322) apresenta uma apreciação das insígnias litúrgicas: anel (p. 273-277), toucado (p. 278-282), mitra (p. 282-290), tiara (p. 290—295), variações de toucados (p. 295-296), cruz peitoral (p. 296-300), manípulo (p. 300-302), pálio (p. 302-310), báculo (p. 310316), estola (p. 316-322).
 
No capítulo VIII (p. 323-362) traz um olhar específico para as vestes litúrgicas: túnica e afins (p. 331-333), casula, paenula, planeta (p. 333-346), dalmática (p. 347), tunicela (p. 354-356), pluvial, capa (p. 356-362).
 
No capítulo IX (p. 363-378) abordam-se as subvestes litúrgicas: alva (p. 363-370), amito (p. 370-375), cota ou sobrepeliz (p. 375376), roquete (p. 377-378).
 
No décimo capítulo (p. 379-402) analisa os acessórios litúrgicos: cíngulo (p. 379-380), luvas (p. 381-382), racional (p. 386-392), sandálias (p. 392-399), véu umeral ou véu de ombros (p. 400-403).
 
 
Estamos perante um texto original, primoroso e bem documentado. Sara Piccolo Paci apresenta uma pesquisa original, abordando a complexa matéria das vestes litúrgicas à luz de disciplinas diversas como a história da moda, a história da arte e a antropologia. O livro foi escrito originalmente na Itália, em 2008.
 
Nas palavras do Monsenhor Giacarlo Santi, responsável pelo Museu Diocesano de Milão, esta obra constitui uma absoluta novidade, preenche uma lacuna capaz de imprimir uma orientação específica à reforma litúrgica no campo do vestuário. É preciso reconhecer que, passados mais de cinquenta anos desde o fim do Concílio Vaticano II, no que se refere às vestes litúrgicas, a situação está a evoluir, mas é pouco animadora: o caminho percorrido mostra-se curto e tortuoso, com mais sombras que luzes, escassamente documentado e, portanto, pouco conhecido ou conhecido apenas em linhas gerais. Além disso, em essência, a reforma em andamento parece ainda desprovida de raízes culturais sólidas e de propostas de formação: nenhuma pesquisa histórica, teológica e ritual.
 
Por sua vez, o Prof. Dr. Gabriel Frade ao prefaciar a edição brasileira diz tratar-dr de uma obra impar, já que Sara Piccolo Paci faz uso abundante e sábio das fontes antigas, trazendo uma luz particular sobre a rica história do vestuário litúrgico e sua simbologia.
 
Frade destaca que a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II estabeleceu princípios que influenciaram também a confecção dos paramentos em geral, dando inicio a um processo de revisão nesse campo. Coerentemente, os documentos da reforma instavam a não abri mãos da elegante beleza e nobre simplicidade, de modo que logo apareceram experiências muito positivas no âmbito das vestes litúrgicas. Contudo, é preciso dizer que durante a aplicação desses princípios nem sempre o que se viu foi o elemento positivo. Muitas vezes se apresentou um panorama não muito animador, fruto de pouco fundamento seguido por muitas incompreensões que, frequentemente, redundaram em abusos litúrgicos deploráveis. Mais recentemente, na contramão desses abusos, houve a presença de grandes retrocessos que denotam uma tentativa de retorno de modelos que não se coadunam com a realidade da nossa sociedade.
 
Que esta obra desperte o interesse e estimule o diálogo entre historiadores da moda, historiadores das artes e liturgistas e favoreça uma sólida formação dos fiéis, particularmente dos presbíteros, religiosos, seminaristas – contribuindo para a beleza da ação sagrada condizente com os nossos tempos.
 
Eliseu Wisniewski, 
presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos),

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