O Papa Francisco referiu
inúmeras vezes, especialmente por meio da figura de Nossa Senhora de Guadalupe,
a necessidade de não nos tornarmos uma sociedade do ‘desmadre’ [que esquece a
memória da mãe]. O que significa isso?
Leonardo Boff: Um dos temas mais queridos do Papa
Francisco é o da ternura. Ela deve compor o comportamento principal da pastoral
a ponto de falar da urgência de uma revolução da ternura. Já a encíclica Fratelli
tutti fala que há lugar para o amor com ternura para com os pequenos e mais
débeis, aos mais pobres (cf. n.º 194).
A ternura é uma relação doce, suave como a mão que acaricia.
Ela é uma derivação do cuidado essencial, o verdadeiro título da Laudato
Si’: sobre o cuidado da Casa Comum. Todos os seres humanos são portadores
de cuidado e de ternura. Mas ela ganha uma densidade maior nas mulheres. São
elas que cuidam por nove meses a vida que cresce dentro delas. Depois é o
cuidado e a ternura que devotam aos filhos e filhas que os faz crescer sem
medos existenciais.
O Papa Francisco vive pessoalmente este enternecimento
maternal para com os pobres e refugiados, e estende o cuidado à nossa relação
para com a Natureza e a todos os seres tidos como irmãos e irmãs na grande Casa
Comum.
Maria viveu este cuidado ao seu filho que crescia dentro
dela, durante toda a vida até ao pé da cruz. Isso deve ser assumido pelos
seguidores do seu Filho, que foi educado neste cuidado e que mostrou um cuidado
especial para com os doentes e empobrecidos.
Essa atitude deveria ser vivida pela Mãe Igreja,
fora dos burocratismos e ritualismos que se exercem quase mecanicamente sem
envolvimento pessoal.
Leonardo Boff, padre casado, teólogo da Teologia da Libertação, escritor e professor brasileiro, em UNISINOS

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