«São José, mais do que patrono da Igreja universal, é o patrono da Igreja doméstica» – entrevista com Leonardo Boff (8)

São José é uma das figuras mais presentes na piedade popular. Como analisa essa devoção?
Leonardo Boff: Na Igreja oficial são os papas, bispos e padres que detêm a palavra e possuem visibilidade. São José, oficialmente, é quase invisível. Mas existe um poderoso cristianismo popular, quotidiano e anónimo do qual poucos tomam nota. Nele vive a grande maioria dos cristãos, que tomam a sério o Evangelho e o seguimento de Jesus. São José, pelo seu anonimato e silêncio, insere-se dentro desse mundo humilde/humilhado que é das grandes maiorias.
 
Mais do que patrono da Igreja universal é o patrono da Igreja doméstica, dos irmãos e irmãs menores de Jesus. Ele é representante da “gente boa”, da “gente humilde”, sepultados no seu dia a dia cinzento, ganhando a vida com muito trabalho e suor e levando honradamente as suas famílias pelos caminhos da honradez, da solidariedade e do amor. Orientam-se mais pelo sentimento profundo de Deus que por doutrinas teológicas sobre Deus. Para eles, como para José, Deus não é um problema, mas uma luz poderosa para os problemas.
 
Foi num ambiente assim popular que cresceu e se educou Jesus. E o povo inconscientemente na sua fé intuitiva captou essa singularidade, de que não fala, mas sempre acompanha os fiéis nas suas dificuldades e nas suas festas.

Leonardo Boff, padre casado, teólogo da Teologia da Libertação, escritor e professor brasileiro, em UNISINOS

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