«São José sabe, como esposo, pai e educador, qual é a sua missão que importa cumprir. Está sempre presente quando se faz necessária a sua presença» – entrevista com Leonardo Boff (6)

Porquê, nos Evangelhos e demais livros do Segundo Testamento, não se ouve a voz de José? Como podemos interpretar o silêncio de José?
Leonardo Boff: O silêncio de José não é nenhum mutismo de quem não tem nada a dizer. É um operário que fala pelas mãos e pelo exemplo (justo). Nem é absentismo de um alienado que não capta o que está a suceder com ele. Ele sabe, como esposo, pai e educador, qual é a sua missão que importa cumprir. Está sempre presente quando se faz necessária a sua presença: na gravidez, no parto, na escolha do nome do bebé, na hora do batismo judaico (circuncisão), na fuga para o Egito, na definição do lugar onde morar, Nazaré, na iniciação de Jesus nas tradições religiosas do seu povo, indo ao templo aos 12 anos do menino.
 
Estas ações expressam-se mais por gestos do que por palavras. Paul Claudel, que amava muito São José, por causa do seu silêncio, escreveu em 1934 a um amigo: «O silêncio é o pai da Palavra. Aí em Nazaré há somente três pessoas muito pobres que simplesmente se amam. São aqueles que irão mudar o rosto da Terra.»
 
O silêncio de José representa o nosso quotidiano. Grande parte da nossa vida acontece no seio da família e no trabalho. Logicamente há palavras demais. Mas quando temos de ouvir o outro silenciamos. Quando trabalhamos não conversamos nem discutimos. O trabalho só será bem feito quando nos concentramos, silenciosamente. Possuímos também o nosso mundo interior, os nossos sonhos, as nossas perguntas e preocupações. É silenciando que vemos melhor e escutamos o apelo do coração, e que nascem visões que dão sentido à vida e nos alimentam a esperança. Não foi diferente com o pai e trabalhador José.
 
Mas há uma razão mais profunda que cabe à teologia investigar. O Pai eterno é o mistério absoluto para o qual não há palavras. Ele não fala. Quem fala é o Filho. Mas o inefável expressa-se pelo mais profundo que existe em nós que é, segundo psicólogos como C. G. Jung, o inconsciente universal. A sua forma preferida de comunicação é por meio dos sonhos e dos Grandes Sonhos. Este os teve José de Nazaré.

Leonardo Boff, padre casado, teólogo da Teologia da Libertação, escritor e professor brasileiro, em UNISINOS

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