A Bíblia na cultura europeia

Este texto surge a partir de um artigo com o título “A Bíblia, o livro que mudou o mundo ocidental”, publicado em
10 livros que mudaram o mundo (organização de A.I. SANTOS – A.P. JARDIM, da Câmara de Oeiras) (Quasi; Vila Nova de Famalicão 2005) 61-105.

Por  Armindo dos Santos Vaz, carmelita descalço
 
Escrita numa região que fazia a junção do mundo do Oriente com o do Ocidente, a Bíblia estendeu a sua influência de forma determinante para onde se estendeu o cristianismo: o Ocidente.
 
Para se difundir e atravessar os séculos, ela precisou de pessoal e de material. Precisou e precisa sobretudo de um transporte pes
soal: os milhões de leitores que nela beberam, a família, o grupo de reflexão, o convento, a abadia e o mosteiro, a nação, a Igreja, a catequese, a pregação… Mas também precisou e continua a precisar de um meio de transporte material que lhe dê boleia para o futuro: usou manuscritos, o rolo, o papiro, o pergaminho, o códice, o palimpsesto, os fólios monumentais e a miniatura em formato de cabeça de alfinete, os leccionários, o papel, o livro impresso, o pano e a madeira, a pedra e as imagens, o braile e a linguagem de sinais para surdos, e agora o suporte informático, electrónico, em discos compactos e outros.
 
O transporte da Bíblia do passado para o presente era lento. O século xii ainda desconhecia a Bíblia num único grande volume. As letras eram demasiado grandes. Os manuscritos eram volumosos e pesados. Uma Bíblia completa teria sido intransportável e pouco manejável. Uma Bíblia do século xiii raramente pesava menos de cinco quilos. Seriam precisas outras técnicas para tornar uma Bíblia verdadeiramente «portátil». Uma dessas técnicas foi a imprensa.
 
Precisamente no uso da imprensa e de materiais para alargamento da sua influência, a Bíblia guarda a honra de ter marcado uma viragem importante da civilização: a Bíblia latina de Gutenberg é a mais antiga, a mais célebre e a primeira obra de tomo a ser impressa pelo processo de tipos móveis (provavelmente entre o ano 1454/1455 e o 24 de agosto de 1456).
 
Portanto, até ao século xv o texto bíblico foi manuscrito, graças a copistas. Do desenho da caligrafia às iluminuras que acompanhavam os textos, passando pela qualidade dos materiais usados, a Bíblia figurava então entre as obras artísticas de maior vulto.
 
A invenção da imprensa não só veio diminuir o custo de produção como permitiu uma disseminação sem precedentes dos textos bíblicos. A imprensa permitiu uma produção e divulgação que tornou a Bíblia no livro mais vendido em todo o mundo, mas este processo despiu-a da arte que lhe conferia a cópia manuscrita. Esses dados históricos determinaram ainda mais a sua influência e a sua difusão.
 
Particularmente o Novo Testamento teve na cultura do Ocidente uma influência muito superior à de qualquer outro livro da antiguidade. Um testemunho dessa influência pode ver-se no facto de o seu texto no original grego ter chegado até nós numa quantidade de cópias incomparavelmente maior do que a de qualquer outra obra do mundo clássico. Ao todo, conhecem-se e conservam-se 5488 antigos manuscritos gregos com partes, com alguns livros ou com a totalidade do Novo Testamento: é de longe a base textual mais alargada para qualquer corpus de escrita antiga na língua original. Em termos de conservação, o Novo Testamento supera sem comparação muitos outros livros clássicos antigos, que chegaram até nós fragmentários e em raríssimos códices, normalmente posteriores, em muitos séculos, ao texto original. Exceptuando o caso de autores muito populares como Homero e Virgílio, é raro que obras da antiguidade contem mais de meia dúzia de manuscritos anteriores ao fim da Idade Média. Salvo fragmentos, não há manuscritos de clássicos gregos anteriores ao século ix e muito poucos anteriores ao século xii. Aos 5488 manuscritos do Novo Testamento na língua original é preciso acrescentar uns 10 000 manuscritos das diferentes versões antigas, bem como milhares de citações contidas nos escritos dos Padres da Igreja. Esta boa conservação do texto explica a sua influência na sociedade e é resultado dela.
 
A presença decisiva da Bíblia nos países do Ocidente sente-se em múltiplos aspetos da vida, da cultura, da política, das ciências, das artes, da literatura e da linguagem, da mentalidade, da religião, das leis, da moral e da história. Valores fundamentais do direito ocidental são de origem bíblica. A Bíblia dá, abundantemente, forma à nossa identidade histórica, cultural, religiosa e social. “A identidade [europeia], independentemente de qualquer estruturação jurídica de uma unidade política, está nos Evangelhos; para além do pluralismo antropológico e histórico, encontra-se na comunhão da fé. De resto, o profético Canto II [de Os Lusíadas de Camões], quando anuncia que os lusíadas «novos mundos ao mundo vão mostrando», de modo que «por eles, de tudo em fim senhores, / serão dadas na terra leis melhores» (Canto II, xlvi), é de um globalismo cristocêntrico que trata”.
 
Se o deputado europeu Pacheco Pereira, que se diz agnóstico e, portanto, insuspeito de parcialidade neste campo, reconheceu que «é errado identificar a Europa com o modelo da revolução francesa, enquanto a unidade política e cultural da Europa é muito mais um resultado do cristianismo do que qualquer outra coisa», não há dúvida de que a herança e as raízes cristãs da Europa estão enformadas pela Bíblia judeo-cristã.
 
Até se poderia acrescentar a evidência de que, sem a tradição bíblica, a cultura ocidental seria incompreensível e, em conjunto, estaria mais atrasada. “A herança cristã… diz respeito à nossa cultura em geral, a qual se tornou aquilo que é, também e sobretudo porque foi intimamente «trabalhada» e forjada pela mensagem cristã ou, mais genericamente, pela revelação bíblica (Antigo e Novo Testamento)… Grande parte das conquistas da razão moderna – teóricas e práticas, até à organização racional da sociedade, ao liberalismo e à democracia – estão radicadas na tradição hebraico-cristã, e não são pensáveis fora dela”. “Não existe praticamente nó na textura da existência ocidental, da consciência e da consciência de si próprios dos homens e das mulheres ocidentais (e, consequentemente, americanos) que não tenha sido tocado pela herança do hebreu. Isto aplica-se tanto ao positivista, ao teísta e ao agnóstico quanto ao crente. O desafio monoteísta, a definição da nossa humanidade enquanto diálogo com o transcendente, o conceito de um Livro supremo, a noção do direito como algo inextricável em relação aos mandamentos morais, o nosso próprio sentido de História enquanto tempo revestido de propósito, têm origem na singularidade enigmática e na dispersão de Israel… A paixão de Marx pela justiça social e o historicismo messiânico estão em acordo directo com os de Amós ou Jeremias. A estranha pressuposição de Freud de um crime original – o assassínio do pai – espelha eloquentemente o cenário da queda de Adão”.
 
“A Bíblia…, o mais grandioso livro da humanidade, é o livro por excelência em que toda a nossa civilização cristã aprendeu a ler, em que todos nós, povos do Ocidente, haurimos as nossas ideias morais, artísticas e literárias, e donde brotou, como um rio poderoso de águas fecundantes, um inesgotável tesouro de santidade e de génio, desde as catedrais românicas até a O Messias de Haendel, passando pela Capela Sistina”.
 
A Bíblia teve uma função generativa relativamente à cultura ocidental, tornando-se para ela uma espécie de léxico iconográfico e modelo ideológico. Também contribuiu para formar a consciência histórica e crítica do nosso mundo. Quem quer que explore as artes, a civilização e a história dos dois milénios do Ocidente a qualquer nível de profundidade reconhece a Bíblia como chave para as compreender e interpretar.
 
Ninguém tem dúvida de que a Bíblia, na medida em que configurou a visão cristã do mundo, é o livro que mais influência exerceu ao longo dos tempos na criatividade humana e no imaginário ocidentais. De modo especial nas artes e na literatura, ela inspirou particularmente a expressão da beleza, da nobreza, da grandeza da vida humana e das maravilhas da natureza: foi aproveitada para exprimir os sentimentos mais elevados do ser humano e para este se transcender. A Bíblia é um mundo sem fronteiras. Milhares de gerações de pessoas ao longo de séculos a leram, meditaram, veneraram, estudaram, aprenderam de cor, repetiram vezes infinitas. Deu voz à sua oração e poesia ao seu canto, no esplendor e na dor. É um poema que nunca se desgasta.

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