Batizados e batizadas em Cristo. Uma igualdade radical entre homens e mulheres

Batismo do centurião Cornélio e de toda a sua família

A parede do fundo do salão de honra do Palazzo dei Diamanti em Ferrara, Itália, é caracterizada por um afresco de grandes dimensões (destacado e reproduzido na tela). A sua localização original era o refeitório do convento agostiniano de Santo Andrea. A obra, que data da terceira década do século XVI, é da autoria de Benvenuto Tisi da Garofalo; o autor do complexo programa iconográfico permanece desconhecido. O conteúdo da pintura é resumido pela expressão “Triunfo da Igreja cristã sobre a Sinagoga judaica”. Um quadro de tema semelhante, realizado pelo próprio Garofalo, está conservado no Hermitage em São Petersburgo.
 
No centro da representação há um crucifixo, e seis braços emergem das pontas da cruz [trata-se da chamada cruz branquial]. Cada braço desempenha uma função específica; em particular, um dos dois no alto à direita coroa a Igreja, enquanto um daqueles à esquerda atinge a sinagoga no coração.

A obra expressa visualmente uma teologia da substituição de tipo "económico" [o substitucionismo económico diz que o desígnio de Deus na história da salvação prevê a passagem de Israel, grupo delimitado etnicamente, para a Igreja, grupo universal e inclusivo definido em base espiritual. Geralmente, o primeiro exemplo dessa visão costuma ser atribuída a Melitão de Sardi]. Uma "economia" (a do Antigo Testamento) terminou porque outra (a do Novo) começou. Aqueles que permaneceram apegados à fase anterior (a Sinagoga) são atingidos no coração [afirmar que os judeus sempre ficaram no Antigo Testamento é uma modalidade típica em que se apresenta o antijudaísmo cristão].
 
Na teologia da substituição, o novo é pensado com base no antigo. A expressão "Igreja novo Israel" contém em si um componente substitutivo e imitativo. Em particular, na obra de Garofalo é necessário comparar o que está representado à esquerda do crucifixo com o que está à sua direita. De um lado, há um sacrifício feito por Aarão, um bode expiatório e uma circuncisão; do outro, um sacrifício eucarístico, uma confissão auricular e um batismo; os três sacramentos são, portanto, interpretados a partir de antigos modelos que eles substituem; trata-se de uma correlação que compromete o sentido autêntico a atribuir ao novo.
 
O sentido igualitário do batismo
Batismo nova circuncisão? Se o corte na carne é um sinal da aliança (cf. Gn 17, 9-14), a água não poderia apresentar-se como sinal da nova aliança? Um trecho da carta aos Colossenses (cf. 2, 11) fala da circuncisão de Cristo realizada por meio do despojamento, não realizado por mãos humanas, do corpo da carne. Trata-se evidentemente de uma retomada cristológica do tema da "circuncisão do coração" presente em Deuteronómio (10, 16 e sobretudo 30, 6) e em Jeremias (4, 4).
 
Não há rito específico correspondente ao ditado. Se por causa da presença anatómica do prepúcio, o rito da circuncisão é apenas de relevância masculina, a circuncisão do coração diz respeito a todos os judeus, homens ou mulheres. Na expressão "circuncisão do coração" é o segundo termo que é mais qualificante.
Em Colossenses não há referência ao batismo como uma nova circuncisão que substitui a anterior. O "despojamento do corpo da carne" em Cristo (isto é, tornar-se nova criatura), porém, diz respeito a todos os crentes, sejam homens ou mulheres.
O mesmo se aplicou ao rito do batismo que, desde o início, era administrado tanto a homens como a mulheres.
 
Se nas primeiras comunidades de crentes em Jesus Cristo, um tema muito debatido foi o de batizar ou não os incircuncisos, a este respeito, os Atos dos Apóstolos atribuem um papel estratégico ao batismo do gentio Cornélio realizado por Pedro (cf. Atos 10, 1 – 11, 18), sendo importante destacar que na documentação que chegou até nós, nunca tenha sido levantada a questão de se as mulheres também deveriam ser batizadas ou não.
 
No que diz respeito aos três pares, explicitamente ligados ao batismo, segundo o qual em Cristo não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher (cf. Gl 3,28), apenas se atestam debates a respeito do primeiro.
 
Características peculiares do batismo, visto como participação na morte e ressurreição de Jesus Cristo (cf. Rm 6, 4), é que é administrado uma vez por todas, deve necessariamente ser recebido por intermédio de outros, e não está vinculado aos ritos de purificação, que são realizados pelo próprio sujeito e várias vezes.
 
As origens do batismo
Os Evangelhos falam do batismo de João; a este respeito, não é explicitamente declarado que tenha sido administrado apenas a homens; pelo contrário, a sua dimensão coletiva – «vieram a ele de toda a Judeia e todos os habitantes de Jerusalém» (Mc 1, 5) sugere que também as mulheres estivessem presentes.
 
Do ponto de vista histórico, em relação ao nascimento do batismo realizado em nome de Jesus Cristo (cf. At 19, 1-7), ainda há muitos componentes a serem esclarecidos.
 
Do que não há dúvidas é que as mulheres sempre foram batizadas (cf. Atos 16, 4-5).
 
Este decisivo dado constitui uma realidade colocada para sempre no fundamento do sacerdócio universal dos fiéis. Qualquer discurso dedicado tanto à participação de toda a comunidade dos crentes na vida da Igreja (inclusive na sua modalidade sinodal) quanto aos ministérios abertos (ou preclusos) às mulheres deve partir da radical igualdade batismal de todos e todas em Cristo.
 
Piero Stefani,
filósofo, biblista, especialista em judaísmo e diálogo judaico-cristão,
em Il Regno. Tradução: Luisa Rabolini.

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