Estas reflexões sobre textos bíblicos têm o
objetivo de melhor entender a origem da Eucaristia e a sua evolução na Igreja
Católica. Elas referem-se a estudos de teólogos recentes[1] segundo
os quais, inspirada pelas práticas e representações dos sacrifícios do Antigo
Testamento, a Igreja Católica passou progressivamente da partição de pão para a
missa. De facto, mesmo que ela não tenha adotado de forma idêntica as suas
práticas e ritos, inspira-se no seu espírito e valores. Deveriam ser
complementadas por pesquisas históricas sobre a liturgia.
Do Primeiro ao
Segundo Testamento
Os sacrifícios do Antigo Testamento e o seu ritual são minuciosamente descritos nos livros do Levítico e dos Números. Esses textos revelam em parte a natureza da religião do Antigo Testamento[2]; são animados por uma lógica comum: Deus é o Totalmente Outro, o Santo, Inacessível que não pode ser visto sem morrer. Manifesta-se num local sagrado, a Tenda do Encontro e, mais tarde, no Templo, no centro de manifestações como raios e trovões destinados a despertar o terror no povo rebelde e impuro; somente os sacerdotes da tribo de Levi, descendentes de Arão, separados do todo do povo, podem se aproximar dele. A sua principal missão é oferecer sacrifícios e garantir ritos litúrgicos e as leis de pureza e impureza. Por isso, eles viverão inteiramente do culto e para o culto. Quanto ao povo rebelde, ele vive à parte, em um estado de impureza ritual, principalmente as mulheres, por causa das suas "impurezas" menstruais[3].
É toda essa religião, com o seu caráter sagrado, os
seus ritos baseados na separação "puro/impuro" que Jesus rejeitará:
ele próprio não é sacerdote nem escriba, o que lhe tira toda a autoridade no
âmbito institucional religioso. Embora ele provavelmente tenha frequentado as
seitas batistas, logo se separou delas, assim como das comunidades essénias,
muito legalistas. O seu Deus e a sua mensagem também diferem daqueles batistas,
cujo Deus da cólera que vem fazer justiça não é o Deus de ternura para os
"pequeninos" que Jesus anuncia.
Jesus é um profeta itinerante. Anuncia a vinda
iminente do reino de Deus, no qual as noções de puro e impuro são substituídas
pela pureza de coração e pela generosidade para com os irmãos, especialmente os
mais pobres...
Não pertence à estirpe sacerdotal, mas à estirpe
dos profetas que anunciam o Reino de Deus sem querer instituir uma nova
religião. Toda a sua atitude e o seu ensinamento proclamam que não há alimento,
nem animal, nem, muito menos, pessoa que seja pura ou impura. O amor do Pai é
dirigido a todos os seres humanos. Estreita relações privilegiadas com
"impuros", mulheres, cobradores de impostos, pessoas doentes...
Há um eco indireto dessa pregação de Jesus na sua
aparição em frente ao Sinédrio, onde ele é acusado de querer destruir o templo,
e especialmente no julgamento de Estêvão que será acusado pelos escribas e
anciãos de reivindicar que Jesus, aquele nazareno, destruiria aquele lugar e
"subverteria os costumes que Moisés nos transmitiu" (Atos 6,14), o
que incluía os ritos e o pessoal do templo.
O livro dos Atos dos Apóstolos narra o tsunami
mental que a primeira comunidade cristã vive, especialmente por ocasião do
encontro de Pedro e Cornélio (Atos 10). Pedro ouve aquela revelação
inacreditável: «Nenhum alimento e, com mais razão, nenhuma pessoa é impura.» O
amor do Pai, através do Espírito, é dirigido a todos os homens. A narrativa
precisa ser repetida cinco vezes para que essa verdade extraordinária
("Deus não faz exceção entre as pessoas") seja aceite por Pedro e
pela primeira comunidade. Sob a pressão dos judaizantes, Pedro logo recuará.
Paulo terá de repreendê-lo severamente, censurando-o por trair uma experiência
cristã fundamental.
A Última Ceia de
Jesus
Qual era a intenção de Jesus ao partilhar a Ceia? Nenhum exegeta sério pode responder a essa pergunta com certeza. Mas falar sobre a "instituição da Eucaristia" já orienta inconscientemente no sentido da prática atual da Eucaristia, após séculos de disputas e definições dogmáticas. Embora essa última refeição tenha sido próxima da Páscoa judaica, vários exegetas pensam que a última Ceia de Jesus não fosse uma refeição pascoal «porque não há alusões à liturgia pascoal, não há menção a cordeiro ou ervas amargas que devem ser servidas naquela ocasião; não há nenhum chamamento ritual à saída do Egito»[4].
Além disso, como a refeição pascoal era a refeição
mais importante do ano para as famílias judias, seria impensável que os grandes
sacerdotes passassem a noite a condenar Jesus. Portanto, é uma refeição de
despedida, certamente uma refeição solene que talvez não fosse reservada
somente aos apóstolos. Para a partição do pão, o celebrante, muitas vezes o
chefe da família, transmitia a bênção de Deus aos convidados. Disso decorre o
escândalo para os escribas e fariseus, quando Jesus partilhava o pão com
publicanos e pecadores.
As palavras exatas de Jesus não podem ser
reconstituídas, tanto que foram retomadas e enriquecidas pelas liturgias
eucarísticas das várias comunidades cristãs das quais elas estão na origem.
Mas, de acordo com J.P. Meier, o logion de Marcos 14, 25 («Em verdade
vos digo que nunca mais voltarei a beber do fruto da videira até o dia em que o
beber, novo, no reino de Deus») permite remontar a uma palavra autêntica de
Jesus, pronunciada durante a última refeição. A sua convicção é baseada na
pluralidade de fontes e, sobretudo, no critério da descontinuidade. «Não tem
nada a ver com cristologia, soteriologia e escatologia da primeira geração
cristã»[5].
Jesus anuncia a sua morte próxima. É a sua última
refeição de festa; a próxima será no Reino de Deus. Ele está ciente do fracasso:
aqueles a quem ele havia anunciado o amor do Pai rejeitaram-no e estão prestes
a suprimi-lo. No entanto, ele mantém um sentimento indefectível de confiança no
Pai. «Ele está convencido de que a sua causa seja a causa de Deus e que,
consequentemente, apesar da sua morte e do seu fracasso pessoal, Deus acabará por
justificar a sua causa e o seu profeta, acolhendo-o no seu reino e fazendo-o
sentar-se no banquete final onde beberá novamente o vinho da festa. A profecia
em Marcos 14, 25 é, portanto, um último grito de esperança de Jesus, no qual
ele expressa a sua confiança em Deus que fará vir o seu reino, apesar da morte
de Jesus. Afinal, o que está no centro da fé e do pensamento de Jesus não é ele
mesmo, mas o triunfo final de Deus, quando virá exercer a sua soberania sobre a
sua criação e o seu povo rebelde. Ou seja, o que é central é o reino de Deus»[6].
Naquele logion, Meier observa que Jesus não
se atribui nenhum título messiânico nem qualquer papel no triunfo final do
reino. Não é ele quem salva os outros da morte, mas é ele quem precisa de ser
arrebatado da morte, por Deus. Meier não encontra relação entre a morte de
Jesus e a vinda do reino, nenhuma alusão ao caráter de sacrifício expiatório da
morte de Jesus e muito menos de afirmações explícitas da sua ressurreição e da
sua exaltação ou parúsia. «Jesus não é apenas o mediador que permite que outros
acessem ao banquete escatológico, mas nada indica que ele se beneficiará de um
lugar especial naquele banquete, mesmo como convidado. O seu lugar é
simplesmente à mesa festiva para beber vinho, ele é salvo, nada mais, nada
menos. A dimensão comunitária ou eclesiológica também está ausente do logion;
nenhuma referência particular é feita aos discípulos e à sua relação com
Jesus... É um conforto que Jesus dirige a si mesmo e não aos seus discípulos...
Jesus aguardava ansiosamente a vinda futura de Deus e continuou a esperá-la até
ao final da sua vida"[7].
Não causa surpresa que Mateus tenha modificado
aquela palavra não cristológica substituindo «o reino de Deus» por «o reino de
meu Pai», acrescentando «convosco» (Mt 26, 29) para o vinho novo e, assim,
mostrar o vínculo entre Jesus e os seus discípulos. Meier lembra o perigo do
anacronismo ao emprestar a Jesus e à comunidade primitiva algumas
representações teológicas que são nossas. Jesus foi o profeta do Reino que Deus
instauraria em breve e que já estava presente na pessoa de Jesus, com as suas
palavras e os seus gestos de acolhimento e cura para todos os homens,
especialmente os mais pobres, os excluídos e as pessoas doentes. Nesse
contexto, a Ceia é a última refeição de um condenado que partilha essa última
refeição com os seus amigos. Lembra todas as refeições consumidas juntos, bem
como as refeições bíblicas da aliança, e anuncia o banquete escatológico.
Pedindo aos seus amigos que se lembrem dele, pede que partilhem a sua fé no
amor do Pai, na vinda do Reino. Ele incentiva a continuarem o que ele começou e
o que eles começaram com ele: anunciar e celebrar as Boas Novas do Evangelho,
servindo os irmãos, até a doação da própria vida. Apesar da situação
desesperadora, ele conserva toda a sua confiança no Pai, dele e deles.
A memória da última
ceia do Senhor nas primeiras comunidades cristãs, depois entre os católicos
Com a ressurreição, os discípulos manterão a experiência de uma presença inaudita de Jesus, especificamente durante uma refeição. Então, o memorial da Ceia se tornará um momento alto da presença do Ressuscitado. Paulo coloca a ênfase não tanto no anúncio das Boas Novas do Reino e nos gestos e palavras de Jesus, quanto sobre o próprio mensageiro: «Jesus Cristo é o Senhor», mensagem universal de salvação para todos.
A Eucaristia parece ter sido um dos lugares onde
uma evolução foi mais elaborada com a retoma da teologia judaica do sacrifício
e do ritual do templo. A teologia católica eucarística centrou-se amplamente no
sacrifício sob a influência dos ritos do Antigo Testamento e das liturgias
sacrificiais judaicas[8]. Ao longo dos séculos, os teólogos tentaram
definir essa presença na Eucaristia com o risco de materializá-la em conceitos
explícitos. O quarto concílio de Latrão (1215), depois o concílio de Trento
(1545-1563), definiram o dogma da transubstanciação. A presença real nas
espécies eucarísticas do pão e do vinho, consagradas apenas por um padre, ele
mesmo consagrado, agente in persona Christi, tornou-se um desafio
importante por ocasião do cisma de Lutero. A insistência sobre a materialidade
das coisas foi feita, certamente, às custas daquela sobre a presença de Cristo
que atua dentro da comunidade cristã viva, graças ao Espírito do amor de Deus e
do amor dos irmãos.
Essa abordagem sobre a dinâmica da interpretação
levanta a questão da lacuna existente entre os textos do Evangelho, as nossas
representações teológicas atuais e as nossas práticas litúrgicas. É normal e
aceitável que a humanidade de todas as épocas tente entender e interpretar o
que recebe de tradições anteriores, de acordo com as representações e a cultura
da sua época, desde que permaneça ciente disso. O problema que surge,
constatando essa lacuna, é: E depois? É progresso ou desvio? Onde está a
verdade de um texto do evangelho? É relativa ou absoluta? São perguntas
desafiadoras…
[1] Referências: [1] J.Moingt, L'Esprit du
Christianisme, Paris, 2019; J.-S. Spong, Jésus pour le XXIe siècle, Karthala,
2015.
[2] O plano do Levítico é o revelador perfeito da antiga religião: descreve o ritual dos sacrifícios (Lv.1-7), a investidura dos sacerdotes descendentes da tribo de Levi (Lev 8- 10) essencialmente encarregados do ritual dos sacrifícios, e faz observar as regras do puro e do impuro (11.15). O início do livro de Números (1.5) segue a mesma lógica: o censo do povo, com uma parte especial para os Levitas consagrados exclusivamente a Deus - seu papel durante o Êxodo será unicamente de tratar da Tenda do Encontro (Nm 1- 4) No capítulo 5, é dada a ordem de excluir do povo todos os impuros e culpados, porque, como Deus é santo, o povo deve ser santo, ritualmente falando.
[3] Um exemplo impressionante: as regras relativas à oblação do ciúme (Nm 5,11s) em caso de suspeita de infidelidade da mulher ao marido. O inverso não será mencionado.
[4] J.A. Pagola, Approche historique, Cerf, 2012, p.337.
[5] J.P. Meier, Un certain juif Jésus, t. 2, p. 257. Meier está convencido da historicidade dessas palavras: Para ele provavelmente foram pronunciadas por Jesus durante a última ceia. Raros são os logion aos quais se dedica tão claramente por critérios de descontinuidade que podem surpreender. Portanto, suas conclusões merecem ser amplamente citadas: “Marcos 14,25 reflete concepções cristológicas, soteriológicas, escatológicas (ou sua surpreendente ausência) que são incompatíveis com quase todas as correntes da tradição cristã primitiva, mas que fazem perfeitamente sentido na boca do Jesus. histórico".
[6] J.-P. Meier op. cit., p. 256.
[7] J.-P. Meier op. cit., p. 257.
[8] Cf J. Moingt, L'Esprit du Christianisme, p. et J.-S. Spong, Jésus pour XXIe siècle. Esse autor mostra a importância da liturgia judaica para a compreensão de Jesus: Jesus é a nova Páscoa, e o cordeiro sacrificado dessa maneira é feito no Yom Kipur.
Antoine Duprez, em Garrigues et Sentiers. Tradução:
Luisa Rabolini
Os sacrifícios do Antigo Testamento e o seu ritual são minuciosamente descritos nos livros do Levítico e dos Números. Esses textos revelam em parte a natureza da religião do Antigo Testamento[2]; são animados por uma lógica comum: Deus é o Totalmente Outro, o Santo, Inacessível que não pode ser visto sem morrer. Manifesta-se num local sagrado, a Tenda do Encontro e, mais tarde, no Templo, no centro de manifestações como raios e trovões destinados a despertar o terror no povo rebelde e impuro; somente os sacerdotes da tribo de Levi, descendentes de Arão, separados do todo do povo, podem se aproximar dele. A sua principal missão é oferecer sacrifícios e garantir ritos litúrgicos e as leis de pureza e impureza. Por isso, eles viverão inteiramente do culto e para o culto. Quanto ao povo rebelde, ele vive à parte, em um estado de impureza ritual, principalmente as mulheres, por causa das suas "impurezas" menstruais[3].
Qual era a intenção de Jesus ao partilhar a Ceia? Nenhum exegeta sério pode responder a essa pergunta com certeza. Mas falar sobre a "instituição da Eucaristia" já orienta inconscientemente no sentido da prática atual da Eucaristia, após séculos de disputas e definições dogmáticas. Embora essa última refeição tenha sido próxima da Páscoa judaica, vários exegetas pensam que a última Ceia de Jesus não fosse uma refeição pascoal «porque não há alusões à liturgia pascoal, não há menção a cordeiro ou ervas amargas que devem ser servidas naquela ocasião; não há nenhum chamamento ritual à saída do Egito»[4].
Com a ressurreição, os discípulos manterão a experiência de uma presença inaudita de Jesus, especificamente durante uma refeição. Então, o memorial da Ceia se tornará um momento alto da presença do Ressuscitado. Paulo coloca a ênfase não tanto no anúncio das Boas Novas do Reino e nos gestos e palavras de Jesus, quanto sobre o próprio mensageiro: «Jesus Cristo é o Senhor», mensagem universal de salvação para todos.
[2] O plano do Levítico é o revelador perfeito da antiga religião: descreve o ritual dos sacrifícios (Lv.1-7), a investidura dos sacerdotes descendentes da tribo de Levi (Lev 8- 10) essencialmente encarregados do ritual dos sacrifícios, e faz observar as regras do puro e do impuro (11.15). O início do livro de Números (1.5) segue a mesma lógica: o censo do povo, com uma parte especial para os Levitas consagrados exclusivamente a Deus - seu papel durante o Êxodo será unicamente de tratar da Tenda do Encontro (Nm 1- 4) No capítulo 5, é dada a ordem de excluir do povo todos os impuros e culpados, porque, como Deus é santo, o povo deve ser santo, ritualmente falando.
[3] Um exemplo impressionante: as regras relativas à oblação do ciúme (Nm 5,11s) em caso de suspeita de infidelidade da mulher ao marido. O inverso não será mencionado.
[4] J.A. Pagola, Approche historique, Cerf, 2012, p.337.
[5] J.P. Meier, Un certain juif Jésus, t. 2, p. 257. Meier está convencido da historicidade dessas palavras: Para ele provavelmente foram pronunciadas por Jesus durante a última ceia. Raros são os logion aos quais se dedica tão claramente por critérios de descontinuidade que podem surpreender. Portanto, suas conclusões merecem ser amplamente citadas: “Marcos 14,25 reflete concepções cristológicas, soteriológicas, escatológicas (ou sua surpreendente ausência) que são incompatíveis com quase todas as correntes da tradição cristã primitiva, mas que fazem perfeitamente sentido na boca do Jesus. histórico".
[6] J.-P. Meier op. cit., p. 256.
[7] J.-P. Meier op. cit., p. 257.
[8] Cf J. Moingt, L'Esprit du Christianisme, p. et J.-S. Spong, Jésus pour XXIe siècle. Esse autor mostra a importância da liturgia judaica para a compreensão de Jesus: Jesus é a nova Páscoa, e o cordeiro sacrificado dessa maneira é feito no Yom Kipur.

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