Do partir do pão à missa — uma análise dos textos da Bíblia

Estas reflexões sobre textos bíblicos têm o objetivo de melhor entender a origem da Eucaristia e a sua evolução na Igreja Católica. Elas referem-se a estudos de teólogos recentes
[1] segundo os quais, inspirada pelas práticas e representações dos sacrifícios do Antigo Testamento, a Igreja Católica passou progressivamente da partição de pão para a missa. De facto, mesmo que ela não tenha adotado de forma idêntica as suas práticas e ritos, inspira-se no seu espírito e valores. Deveriam ser complementadas por pesquisas históricas sobre a liturgia.
 
Antoine Duprez, em Garrigues et Sentiers. Tradução: Luisa Rabolini
 
Do Primeiro ao Segundo Testamento
Os sacrifícios do Antigo Testamento e o seu ritual são minuciosamente descritos nos livros do Levítico e dos Números. Esses textos revelam em parte a natureza da religião do Antigo Testamento[2]; são animados por uma lógica comum: Deus é o Totalmente Outro, o Santo, Inacessível que não pode ser visto sem morrer. Manifesta-se num local sagrado, a Tenda do Encontro e, mais tarde, no Templo, no centro de manifestações como raios e trovões destinados a despertar o terror no povo rebelde e impuro; somente os sacerdotes da tribo de Levi, descendentes de Arão, separados do todo do povo, podem se aproximar dele. A sua principal missão é oferecer sacrifícios e garantir ritos litúrgicos e as leis de pureza e impureza. Por isso, eles viverão inteiramente do culto e para o culto. Quanto ao povo rebelde, ele vive à parte, em um estado de impureza ritual, principalmente as mulheres, por causa das suas "impurezas" menstruais[3].
 
É toda essa religião, com o seu caráter sagrado, os seus ritos baseados na separação "puro/impuro" que Jesus rejeitará: ele próprio não é sacerdote nem escriba, o que lhe tira toda a autoridade no âmbito institucional religioso. Embora ele provavelmente tenha frequentado as seitas batistas, logo se separou delas, assim como das comunidades essénias, muito legalistas. O seu Deus e a sua mensagem também diferem daqueles batistas, cujo Deus da cólera que vem fazer justiça não é o Deus de ternura para os "pequeninos" que Jesus anuncia.
 
Jesus é um profeta itinerante. Anuncia a vinda iminente do reino de Deus, no qual as noções de puro e impuro são substituídas pela pureza de coração e pela generosidade para com os irmãos, especialmente os mais pobres...
 
Não pertence à estirpe sacerdotal, mas à estirpe dos profetas que anunciam o Reino de Deus sem querer instituir uma nova religião. Toda a sua atitude e o seu ensinamento proclamam que não há alimento, nem animal, nem, muito menos, pessoa que seja pura ou impura. O amor do Pai é dirigido a todos os seres humanos. Estreita relações privilegiadas com "impuros", mulheres, cobradores de impostos, pessoas doentes...
 
Há um eco indireto dessa pregação de Jesus na sua aparição em frente ao Sinédrio, onde ele é acusado de querer destruir o templo, e especialmente no julgamento de Estêvão que será acusado pelos escribas e anciãos de reivindicar que Jesus, aquele nazareno, destruiria aquele lugar e "subverteria os costumes que Moisés nos transmitiu" (Atos 6,14), o que incluía os ritos e o pessoal do templo.
 
O livro dos Atos dos Apóstolos narra o tsunami mental que a primeira comunidade cristã vive, especialmente por ocasião do encontro de Pedro e Cornélio (Atos 10). Pedro ouve aquela revelação inacreditável: «Nenhum alimento e, com mais razão, nenhuma pessoa é impura.» O amor do Pai, através do Espírito, é dirigido a todos os homens. A narrativa precisa ser repetida cinco vezes para que essa verdade extraordinária ("Deus não faz exceção entre as pessoas") seja aceite por Pedro e pela primeira comunidade. Sob a pressão dos judaizantes, Pedro logo recuará. Paulo terá de repreendê-lo severamente, censurando-o por trair uma experiência cristã fundamental.
 
A Última Ceia de Jesus
Qual era a intenção de Jesus ao partilhar a Ceia? Nenhum exegeta sério pode responder a essa pergunta com certeza. Mas falar sobre a "instituição da Eucaristia" já orienta inconscientemente no sentido da prática atual da Eucaristia, após séculos de disputas e definições dogmáticas. Embora essa última refeição tenha sido próxima da Páscoa judaica, vários exegetas pensam que a última Ceia de Jesus não fosse uma refeição pascoal «porque não há alusões à liturgia pascoal, não há menção a cordeiro ou ervas amargas que devem ser servidas naquela ocasião; não há nenhum chamamento ritual à saída do Egito»[4].
 
Além disso, como a refeição pascoal era a refeição mais importante do ano para as famílias judias, seria impensável que os grandes sacerdotes passassem a noite a condenar Jesus. Portanto, é uma refeição de despedida, certamente uma refeição solene que talvez não fosse reservada somente aos apóstolos. Para a partição do pão, o celebrante, muitas vezes o chefe da família, transmitia a bênção de Deus aos convidados. Disso decorre o escândalo para os escribas e fariseus, quando Jesus partilhava o pão com publicanos e pecadores. 
 
As palavras exatas de Jesus não podem ser reconstituídas, tanto que foram retomadas e enriquecidas pelas liturgias eucarísticas das várias comunidades cristãs das quais elas estão na origem. Mas, de acordo com J.P. Meier, o logion de Marcos 14, 25 («Em verdade vos digo que nunca mais voltarei a beber do fruto da videira até o dia em que o beber, novo, no reino de Deus») permite remontar a uma palavra autêntica de Jesus, pronunciada durante a última refeição. A sua convicção é baseada na pluralidade de fontes e, sobretudo, no critério da descontinuidade. «Não tem nada a ver com cristologia, soteriologia e escatologia da primeira geração cristã»[5].
 
Jesus anuncia a sua morte próxima. É a sua última refeição de festa; a próxima será no Reino de Deus. Ele está ciente do fracasso: aqueles a quem ele havia anunciado o amor do Pai rejeitaram-no e estão prestes a suprimi-lo. No entanto, ele mantém um sentimento indefectível de confiança no Pai. «Ele está convencido de que a sua causa seja a causa de Deus e que, consequentemente, apesar da sua morte e do seu fracasso pessoal, Deus acabará por justificar a sua causa e o seu profeta, acolhendo-o no seu reino e fazendo-o sentar-se no banquete final onde beberá novamente o vinho da festa. A profecia em Marcos 14, 25 é, portanto, um último grito de esperança de Jesus, no qual ele expressa a sua confiança em Deus que fará vir o seu reino, apesar da morte de Jesus. Afinal, o que está no centro da fé e do pensamento de Jesus não é ele mesmo, mas o triunfo final de Deus, quando virá exercer a sua soberania sobre a sua criação e o seu povo rebelde. Ou seja, o que é central é o reino de Deus»[6].
 
Naquele logion, Meier observa que Jesus não se atribui nenhum título messiânico nem qualquer papel no triunfo final do reino. Não é ele quem salva os outros da morte, mas é ele quem precisa de ser arrebatado da morte, por Deus. Meier não encontra relação entre a morte de Jesus e a vinda do reino, nenhuma alusão ao caráter de sacrifício expiatório da morte de Jesus e muito menos de afirmações explícitas da sua ressurreição e da sua exaltação ou parúsia. «Jesus não é apenas o mediador que permite que outros acessem ao banquete escatológico, mas nada indica que ele se beneficiará de um lugar especial naquele banquete, mesmo como convidado. O seu lugar é simplesmente à mesa festiva para beber vinho, ele é salvo, nada mais, nada menos. A dimensão comunitária ou eclesiológica também está ausente do logion; nenhuma referência particular é feita aos discípulos e à sua relação com Jesus... É um conforto que Jesus dirige a si mesmo e não aos seus discípulos... Jesus aguardava ansiosamente a vinda futura de Deus e continuou a esperá-la até ao final da sua vida"[7].
 
Não causa surpresa que Mateus tenha modificado aquela palavra não cristológica substituindo «o reino de Deus» por «o reino de meu Pai», acrescentando «convosco» (Mt 26, 29) para o vinho novo e, assim, mostrar o vínculo entre Jesus e os seus discípulos. Meier lembra o perigo do anacronismo ao emprestar a Jesus e à comunidade primitiva algumas representações teológicas que são nossas. Jesus foi o profeta do Reino que Deus instauraria em breve e que já estava presente na pessoa de Jesus, com as suas palavras e os seus gestos de acolhimento e cura para todos os homens, especialmente os mais pobres, os excluídos e as pessoas doentes. Nesse contexto, a Ceia é a última refeição de um condenado que partilha essa última refeição com os seus amigos. Lembra todas as refeições consumidas juntos, bem como as refeições bíblicas da aliança, e anuncia o banquete escatológico. Pedindo aos seus amigos que se lembrem dele, pede que partilhem a sua fé no amor do Pai, na vinda do Reino. Ele incentiva a continuarem o que ele começou e o que eles começaram com ele: anunciar e celebrar as Boas Novas do Evangelho, servindo os irmãos, até a doação da própria vida. Apesar da situação desesperadora, ele conserva toda a sua confiança no Pai, dele e deles.
 
A memória da última ceia do Senhor nas primeiras comunidades cristãs, depois entre os católicos
Com a ressurreição, os discípulos manterão a experiência de uma presença inaudita de Jesus, especificamente durante uma refeição. Então, o memorial da Ceia se tornará um momento alto da presença do Ressuscitado. Paulo coloca a ênfase não tanto no anúncio das Boas Novas do Reino e nos gestos e palavras de Jesus, quanto sobre o próprio mensageiro: «Jesus Cristo é o Senhor», mensagem universal de salvação para todos.
 
A Eucaristia parece ter sido um dos lugares onde uma evolução foi mais elaborada com a retoma da teologia judaica do sacrifício e do ritual do templo. A teologia católica eucarística centrou-se amplamente no sacrifício sob a influência dos ritos do Antigo Testamento e das liturgias sacrificiais judaicas[8]. Ao longo dos séculos, os teólogos tentaram definir essa presença na Eucaristia com o risco de materializá-la em conceitos explícitos. O quarto concílio de Latrão (1215), depois o concílio de Trento (1545-1563), definiram o dogma da transubstanciação. A presença real nas espécies eucarísticas do pão e do vinho, consagradas apenas por um padre, ele mesmo consagrado, agente in persona Christi, tornou-se um desafio importante por ocasião do cisma de Lutero. A insistência sobre a materialidade das coisas foi feita, certamente, às custas daquela sobre a presença de Cristo que atua dentro da comunidade cristã viva, graças ao Espírito do amor de Deus e do amor dos irmãos.
 
Essa abordagem sobre a dinâmica da interpretação levanta a questão da lacuna existente entre os textos do Evangelho, as nossas representações teológicas atuais e as nossas práticas litúrgicas. É normal e aceitável que a humanidade de todas as épocas tente entender e interpretar o que recebe de tradições anteriores, de acordo com as representações e a cultura da sua época, desde que permaneça ciente disso. O problema que surge, constatando essa lacuna, é: E depois? É progresso ou desvio? Onde está a verdade de um texto do evangelho? É relativa ou absoluta? São perguntas desafiadoras…
 
[1] Referências: [1] J.Moingt, L'Esprit du Christianisme, Paris, 2019; J.-S. Spong, Jésus pour le XXIe siècle, Karthala, 2015. 
[2] O plano do Levítico é o revelador perfeito da antiga religião: descreve o ritual dos sacrifícios (Lv.1-7), a investidura dos sacerdotes descendentes da tribo de Levi (Lev 8- 10) essencialmente encarregados do ritual dos sacrifícios, e faz observar as regras do puro e do impuro (11.15). O início do livro de Números (1.5) segue a mesma lógica: o censo do povo, com uma parte especial para os Levitas consagrados exclusivamente a Deus - seu papel durante o Êxodo será unicamente de tratar da Tenda do Encontro (Nm 1- 4) No capítulo 5, é dada a ordem de excluir do povo todos os impuros e culpados, porque, como Deus é santo, o povo deve ser santo, ritualmente falando. 
[3] Um exemplo impressionante: as regras relativas à oblação do ciúme (Nm 5,11s) em caso de suspeita de infidelidade da mulher ao marido. O inverso não será mencionado. 
[4] J.A. Pagola, Approche historique, Cerf, 2012, p.337. 
[5] J.P. Meier, Un certain juif Jésus, t. 2, p. 257. Meier está convencido da historicidade dessas palavras: Para ele provavelmente foram pronunciadas por Jesus durante a última ceia. Raros são os logion aos quais se dedica tão claramente por critérios de descontinuidade que podem surpreender. Portanto, suas conclusões merecem ser amplamente citadas: “Marcos 14,25 reflete concepções cristológicas, soteriológicas, escatológicas (ou sua surpreendente ausência) que são incompatíveis com quase todas as correntes da tradição cristã primitiva, mas que fazem perfeitamente sentido na boca do Jesus. histórico". 
[6] J.-P. Meier op. cit., p. 256. 
[7] J.-P. Meier op. cit., p. 257.
[8] Cf J. Moingt, L'Esprit du Christianisme, p. et J.-S. Spong, Jésus pour XXIe siècle. Esse autor mostra a importância da liturgia judaica para a compreensão de Jesus: Jesus é a nova Páscoa, e o cordeiro sacrificado dessa maneira é feito no Yom Kipur.

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