Temos de começar com as palavras
do Evangelho: «Mas chega a hora (já estamos nela) em que os verdadeiros
adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque assim quer o Pai que
sejam os que o adoram» (Evangelho de São João).
Jesus ensina que o templo de Deus
é, em primeiro lugar, o coração do homem que acolheu a sua palavra. Falando de
si e do Pai, diz: «Viremos a ele, e faremos morada nele» (João 14, 23).
O apóstolo Paulo escreve aos
cristãos: «Não sabeis que sois santuário de Deus?» (1 Coríntios 3, 16).
Portanto, o crente é templo novo
de Deus.
Mas o lugar da presença de Deus e
de Cristo também se encontra «onde estão dois ou três reunidos em meu nome»
(Mateus 18, 20).
O Concílio Vaticano II chama a
família de «igreja doméstica» (Lumen Gentium, 11), ou seja, um pequeno
templo de Deus, precisamente porque, graças ao sacramento do matrimónio, é, por
excelência, o lugar no qual «dois ou três» estão reunidos em seu nome.
Porquê, então, os cristãos dão
tanta importância à igreja, se cada um de nós pode adorar o Pai em espírito e
verdade no seu próprio coração ou na sua própria casa? Por que é obrigatório ir
à igreja todos os domingos?
A resposta é que Jesus não nos
salva separadamente; veio para formar um povo, uma comunidade de pessoas, em
comunhão com Ele e entre si.
O que é a casa para uma família, é a igreja
para a família de Deus. Não há família sem uma casa.
Um dos filmes do neo-realismo italiano que ainda recordo é «O teto» («Il tetto»), escrito por Cesare Zavattini e dirigido por Vittorio De Sica. Dois jovens, pobres e enamorados, casam-se, mas não têm uma casa. Nos arredores de Roma, após a II Guerra Mundial, inventam um sistema para construir uma, lutando contra o tempo e a lei (se a construção não chega até o teto, à noite será demolida). Quando no final terminam o teto, estão certos de que têm uma casa e uma intimidade própria e se abraçam felizes; são uma família.
Vi esta história repetir-se em
muitos bairros, em povoados e aldeias, que não tinham uma igreja própria e
tiveram de construir uma por sua conta. A solidariedade, o entusiasmo, a
alegria de trabalhar juntos com o presbítero para dar à comunidade um lugar de
culto e de encontro são histórias que valeriam a pena levar às telas como no
filme de De Sica...
Um fenómeno doloroso: o abandono em massa
da participação na igreja
As estatísticas sobre a prática religiosa são para fazer chorar. Isto não quer dizer que quem não vai à igreja necessariamente perdeu a fé; não, o que acontece é que se substitui a religião instituída por Cristo pela chamada religião «a la carte». Nos Estados Unidos dizem pick and choose («pegue e escolha»). Como no supermercado. Deixando a metáfora de lado, cada um forma sua própria ideia de Deus, da oração e fica tranquilo.
Esquece-se, deste modo, que Deus
se revelou em Cristo, que Cristo pregou um Evangelho, que fundou uma ekklesia,
ou seja, uma assembleia de chamados, que instituiu os sacramentos, como sinais
e transmissores da sua presença e da sua salvação. Ignorar tudo isto para criar
a própria imagem de Deus. Verifica-se o que dizia o filósofo Feuerbach: «Já não
é Deus quem cria o homem à sua imagem, mas o homem cria um deus à sua imagem.
Mas é um Deus que não salva!»
Religião de práticas exteriores e íntimas
Certamente, uma realidade conformada só por práticas exteriores não serve de nada; Jesus se opõe a ela em todo o Evangelho. Mas não há oposição entre a religião dos sinais e dos sacramentos e a íntima, pessoal; entre o rito e o espírito. Os grandes génios religiosos (pensemos em Agostinho, Pascal, Kierkegaard, Manzoni) eram homens de uma interioridade profunda e sumamente pessoal e, ao mesmo tempo, estavam integrados em uma comunidade, iam à sua igreja, eram «praticantes».
Nas Confissões (VIII, 2), Santo Agostinho
narra como acontece a conversão do grande orador e filósofo romano Victorino.
Ao converter-se à verdade do cristianismo, Victorino dizia ao sacerdote
Simpliciano:
– Agora sou cristão.
Simpliciano respondia-lhe:
– Não creio até ver-te na igreja de Cristo.
– Então, são as paredes que nos tornam cristãos?
E o tema ficou no ar. Mas um dia Victorino leu no Evangelho a palavra de Cristo: «Quem se envergonha de mim e de minhas palavras, desse se envergonhará o Filho do homem.» Compreendeu que o respeito humano, o medo do que pudessem dizer os seus colegas, o impedia de ir à igreja. Foi visitar Simpliciano e disse-lhe:
– Vamos à igreja, quero tornar-me cristão.
Creio que esta história tem algo a dizer hoje a mais de uma pessoa de cultura.
Padre Raniero Cantalamessa, OFM, pregador
da casa pontifícia
Um dos filmes do neo-realismo italiano que ainda recordo é «O teto» («Il tetto»), escrito por Cesare Zavattini e dirigido por Vittorio De Sica. Dois jovens, pobres e enamorados, casam-se, mas não têm uma casa. Nos arredores de Roma, após a II Guerra Mundial, inventam um sistema para construir uma, lutando contra o tempo e a lei (se a construção não chega até o teto, à noite será demolida). Quando no final terminam o teto, estão certos de que têm uma casa e uma intimidade própria e se abraçam felizes; são uma família.
As estatísticas sobre a prática religiosa são para fazer chorar. Isto não quer dizer que quem não vai à igreja necessariamente perdeu a fé; não, o que acontece é que se substitui a religião instituída por Cristo pela chamada religião «a la carte». Nos Estados Unidos dizem pick and choose («pegue e escolha»). Como no supermercado. Deixando a metáfora de lado, cada um forma sua própria ideia de Deus, da oração e fica tranquilo.
Certamente, uma realidade conformada só por práticas exteriores não serve de nada; Jesus se opõe a ela em todo o Evangelho. Mas não há oposição entre a religião dos sinais e dos sacramentos e a íntima, pessoal; entre o rito e o espírito. Os grandes génios religiosos (pensemos em Agostinho, Pascal, Kierkegaard, Manzoni) eram homens de uma interioridade profunda e sumamente pessoal e, ao mesmo tempo, estavam integrados em uma comunidade, iam à sua igreja, eram «praticantes».
– Agora sou cristão.
Simpliciano respondia-lhe:
– Não creio até ver-te na igreja de Cristo.
– Então, são as paredes que nos tornam cristãos?
E o tema ficou no ar. Mas um dia Victorino leu no Evangelho a palavra de Cristo: «Quem se envergonha de mim e de minhas palavras, desse se envergonhará o Filho do homem.» Compreendeu que o respeito humano, o medo do que pudessem dizer os seus colegas, o impedia de ir à igreja. Foi visitar Simpliciano e disse-lhe:
– Vamos à igreja, quero tornar-me cristão.
Creio que esta história tem algo a dizer hoje a mais de uma pessoa de cultura.

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