«O Papa Francisco está a criar um grande e indispensável fórum para que todas as vozes sejam ouvidas através do processo de discernimento»
O impulso do
Papa Francisco à sinodalidade abriu ainda mais um processo que irá permitir a
desconstrução de uma há muito desatualizada e anacrónica estrutura monárquica da
Igreja, escreve Robert
Mickens, em La Croix
Há quase nove anos, conversei com um grupo cívico em Cleveland,
Ohio, sobre a "implosão do Vaticano" e, como resultado, o longo e
gradual colapso da estrutura monárquica de governo e de ministério da Igreja Católica.
Argumentei que, como a última monarquia absoluta no Ocidente (e em
quase qualquer outro lugar do mundo), a organização da Igreja Romana se tornou
um anacronismo.
Fazia sentido quando as monarquias eram uma característica
fundamental da sociedade humana. Mas agora não. Este modelo ultrapassado da
estrutura da Igreja Católica já não encarna a realidade da experiência vivida
pelos crentes, a impressionante maioria dos quais vive em sociedades que se estão
a tornar cada vez mais, e em graus variados, democracias participativas e
representativas.
Uma Igreja onde as decisões mais importantes são tomadas quase
exclusivamente por um clero celibatário e onde aos bispos é dada pouca ou
nenhuma responsabilidade, é insustentável num mundo onde as sociedades
patriarcais e monárquicas – a contragosto, mas de forma constante – estão a ceder
direitos e deveres àqueles que não fazem parte da nobreza, do clero ou de um
gênero específico.
A minha palestra em novembro de 2012 aconteceu no auge do chamado
escândalo VatiLeaks. Por mais de um
ano, o vazamento de documentos sensíveis do Vaticano e de papéis privados do
Papa Bento XVI causou profundo embaraço ao ainda reinante papa alemão e aos
seus principais assessores – em especial a Tarcisio Bertone SDB, o Cardeal Secretário
de Estado na época.
O Papa
Francisco apressa um colapso inevitável
Apesar do kairós – o momento especial, providencial – que muitos católicos acreditam que temos experimentado desde a eleição do primeiro papa jesuíta, a Igreja continua a implodir.
De certa forma, Francisco parece estar deliberadamente a apressar o
seu inevitável colapso ao implementar os princípios e métodos descritos na Evangelii gaudium (EG), a sua visão e
projeto para a renovação e reforma da Igreja.
Mudando
estruturas e mentalidades por meio da sinodalidade
Estamos a falar do desmoronamento da atual estrutura governamental e organizacional, que continua a refletir certas caraterísticas do Império Romano mais do que refletir o modelo organizacional de vida eclesial que se encontra no Novo Testamento ou foi experimentado nos primeiros dois séculos da Igreja Cristã.
Francisco está efetivamente a lançar as bases para a
"desconstrução" do modelo atual, plantando pacientemente as sementes
para a conversão estrutural da Igreja ao "batizar" e empregar quatro
princípios sociológicos fundamentais (EG 222-237):
– O tempo é maior que o espaço
– A unidade prevalece sobre o conflito
– As realidades são mais importantes do que as ideias
– O todo é maior do que as partes
Em última análise, o objetivo do papa é fazer com que as estruturas
e a mentalidade da Igreja reflitam mais o Evangelho e a pessoa de Jesus Cristo,
e libertá-la de um sistema codificado de regras e ideias filosóficas ainda
profundamente ligadas à cultura do antigo mundo greco-romano.
Por meio do processo de sinodalidade, Francisco está a abrir
espaços de diálogo e discussão que envolvem todo o Santo Povo de Deus e não
apenas os clérigos homens.
Ele não está a democratizar a Igreja, mas está a criar um grande e indispensável fórum para que todas as vozes sejam ouvidas através do clássico, mas muitas vezes esquecido, processo de discernimento.
Abrindo espaço
para as mulheres
As duas assembleias do Sínodo dos Bispos – uma sobre os jovens e a fé (2018) e outra sobre a região amazónica (2019), abriram novas questões, ainda que não explicitamente, sobre a sustentabilidade do atual paradigma da estrutura governamental e ministerial da Igreja Romana.
A partir dessas reuniões, o papa, agora com 84 anos, nomeou uma
religiosa como uma das principais responsáveis pelo secretariado do Sínodo.
Aparentemente, ele irá permitir que ela vote nas assembleias sinodais. Quem
poderia imaginar? Não estamos a falar apenas de uma pessoa leiga – mas de uma
mulher leiga (sim, com votos religiosos) – a votar numa assembleia de bispos
católicos.
Este é apenas o início de um processo que provavelmente abrirá
ainda mais as posições-chave de tomada de decisão às mulheres no governo e no
ministério da Igreja.
Já vemos movimentos nessa direção. Os bispos católicos da Áustria,
em junho de 2021, convidaram 14 funcionárias de várias dioceses para a
assembleia plenária da Conferência Episcopal Nacional. E um bispo da Suíça, em
maio, nomeou cinco leigos – entre eles duas mulheres – como seus representantes
pessoais para substituir os padres que haviam sido seus vigários episcopais.
Apesar do kairós – o momento especial, providencial – que muitos católicos acreditam que temos experimentado desde a eleição do primeiro papa jesuíta, a Igreja continua a implodir.
Estamos a falar do desmoronamento da atual estrutura governamental e organizacional, que continua a refletir certas caraterísticas do Império Romano mais do que refletir o modelo organizacional de vida eclesial que se encontra no Novo Testamento ou foi experimentado nos primeiros dois séculos da Igreja Cristã.
– O tempo é maior que o espaço
– A unidade prevalece sobre o conflito
– As realidades são mais importantes do que as ideias
– O todo é maior do que as partes
Ele não está a democratizar a Igreja, mas está a criar um grande e indispensável fórum para que todas as vozes sejam ouvidas através do clássico, mas muitas vezes esquecido, processo de discernimento.
As duas assembleias do Sínodo dos Bispos – uma sobre os jovens e a fé (2018) e outra sobre a região amazónica (2019), abriram novas questões, ainda que não explicitamente, sobre a sustentabilidade do atual paradigma da estrutura governamental e ministerial da Igreja Romana.

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