«Se
tem ciúmes, é porque gosta de mim»
É urgente mostrar aos adolescentes que agressividade não é amor.
Existe tanta violência no namoro como no casamento: 25% dos jovens já foram vítimas. Os mais novos começam a agredir-se cada vez mais cedo. E o maior problema, nota a investigadora Carla Machado, é que a maioria encara com normalidade que dois namorados se agridam. «O que acontece é que os adolescentes, embora reprovem a violência em abstracto, depois encontram justificações e desculpam a violência em situações específicas, como os ciúmes ou a infidelidade», explica a investigadora.
Violência
não é só murros e pontapés
«A violência mais comum é a emocional (insultos, humilhações, ameaças, tentativas de controlo) e a pequena violência física (bofetadas, empurrões)», nota Carla Machado.
Claro que a agressividade não surge do nada: vivemos num mundo onde é muito mais normal resolver-se os conflitos ao murro e ao pontapé (literal ou figurado...) do que pelo diálogo. «Contudo, não quer dizer que todos os jovens que vivenciaram essa situação se tornem violentos... Há vários fatores de possível compensação dessa influência», confirma Carla Machado.
Agressivos(as)
Apesar do muito que se progrediu em termos de condição feminina, as raparigas ainda são educadas para a docilidade. No entanto, uma das grandes diferenças entre a violência nas relações adultas e nos adolescentes é que as raparigas mais novas também são agressivas nas suas relações amorosas. «É verdade que as raparigas parecem sofrer mais a influência de um certo discurso sobre o amor e o romance muito idealizado, que acredita que o "verdadeiro amor" sobrevive a tudo e que vão ser capazes de mudar um parceiro abusivo. Claro que isto as pode levar a tolerar, desculpar e permanecer mais tempo em relações abusivas."
«Estamos numa fase em que há uma
elevada violência contra as mulheres adultas, mas entre os adolescentes esta é
bi-unívoca, ou seja, são agressivos uns com os outros», confirma Maria Neto
Leitão, professora na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra e coordenadora
de um projecto absolutamente inovador nesta área: Usar e Ser Laço Branco. «Se
eu já sentia, da minha experiência, que a violência tinha um enorme peso da vida
das mulheres, apercebi-me de que era um problema tão grave que exigia prevenção
entre as mais novas. É urgente que elas tomem consciência de que estão a viver
situações de violência e não as validem como relações de amor.»
O projecto forma estudantes voluntários na área da violência no namoro e depois leva às escolas secundárias encenações do tema, como forma de pôr os alunos a discutir. «Concluímos que a única forma que os mais novos conhecem de comunicarem é através da violência. E aí também o nosso projecto é inovador: tentamos mostrar-lhes o que é uma relação violenta, que ninguém tem o direito de ser violento sobre o outro, e que isso não é uma forma de nos relacionarmos com ninguém e muito menos com um namorado, a pessoa que nos devia dar mais apoio e carinho.»
Mais
vale mal acompanhada que só
Os grandes problemas são culturais: por exemplo, o namoro valoriza as raparigas. «Sem dúvida», confirma Maria Neto. «Continua uma forma de afirmação social. Nas secundárias tentamos mostrar-lhes que não têm de ter um namorado para se sentirem valorizadas. Mas é uma tarefa muito difícil. Elas preferem ter um mau namorado a não ter namorado nenhum!»
O projecto Usar e Ser Laço Branco
pretende não apenas mostrar mas dar soluções. «Violência não, mas então o que é
que sim? Eles têm um vazio afetivo, um vazio de modelos. São violentos porque
não sabem como resolver as situações. Então, vamos dar-lhes esses modelos: como
aprender a resolver um conflito de modo não-agressivo, como respeitar os
direitos dos outros, como declarar uma situação que não me satisfaz. São
aprendizagens que desenvolvemos com os estudantes para eles perceberem que há
outras formas de nos relacionarmos que não sejam violentas. E também como forma
de prevenção: para que, quando arranjem um namorado, não permitam que essas
situações aconteçam."
Não
é fácil ser rapaz
«Os homens também são vítimas disto tudo, e estas não são relações dentro das quais eles se sintam bem», defende a professora Maria Neto Leitão. «Socialmente, são obrigados a desempenhar um papel que não os satisfaz, mas não têm outro! Eles comportam-se da maneira que acham que lhes é exigida. Tentamos no nosso projeto mostrar aos rapazes que, para serem homens, não têm de ser violentos. E ao recusar a violência, serão mais felizes. O problema é que mesmo as mulheres esperam deles que sejam violentos. É fundamental apresentar novos modelos de masculinidade aos jovens, ou eles vão continuar a pensar que não ser isto é ser homossexual. E no contexto de homofobia em que vivemos, eles preferem tudo menos ser homossexual!»
O que
os pais podem fazer
«Podem, antes de mais, transmitir muito claramente, no seu discurso e comportamento, que a violência é inaceitável, em qualquer circunstância e qualquer que seja a desculpa», defende Carla Machado. «Podem educar os filhos para serem assertivos (não agressivos) e terem consciência dos seus direitos. Podem enfatizar a ideia de que o respeito faz parte integrante do amor. E que o amor não implica anulação nem fusão com o outro.»
«O aprender a construir relações
afetivas positivas vem desde a relação que construímos com os pais, desde a
forma como nos pegavam, seguravam, lidavam com o nosso corpo», explica Maria
Neto Leitão.
É urgente mostrar aos adolescentes que agressividade não é amor.
Existe tanta violência no namoro como no casamento: 25% dos jovens já foram vítimas. Os mais novos começam a agredir-se cada vez mais cedo. E o maior problema, nota a investigadora Carla Machado, é que a maioria encara com normalidade que dois namorados se agridam. «O que acontece é que os adolescentes, embora reprovem a violência em abstracto, depois encontram justificações e desculpam a violência em situações específicas, como os ciúmes ou a infidelidade», explica a investigadora.
«A violência mais comum é a emocional (insultos, humilhações, ameaças, tentativas de controlo) e a pequena violência física (bofetadas, empurrões)», nota Carla Machado.
Claro que a agressividade não surge do nada: vivemos num mundo onde é muito mais normal resolver-se os conflitos ao murro e ao pontapé (literal ou figurado...) do que pelo diálogo. «Contudo, não quer dizer que todos os jovens que vivenciaram essa situação se tornem violentos... Há vários fatores de possível compensação dessa influência», confirma Carla Machado.
Apesar do muito que se progrediu em termos de condição feminina, as raparigas ainda são educadas para a docilidade. No entanto, uma das grandes diferenças entre a violência nas relações adultas e nos adolescentes é que as raparigas mais novas também são agressivas nas suas relações amorosas. «É verdade que as raparigas parecem sofrer mais a influência de um certo discurso sobre o amor e o romance muito idealizado, que acredita que o "verdadeiro amor" sobrevive a tudo e que vão ser capazes de mudar um parceiro abusivo. Claro que isto as pode levar a tolerar, desculpar e permanecer mais tempo em relações abusivas."
O projecto forma estudantes voluntários na área da violência no namoro e depois leva às escolas secundárias encenações do tema, como forma de pôr os alunos a discutir. «Concluímos que a única forma que os mais novos conhecem de comunicarem é através da violência. E aí também o nosso projecto é inovador: tentamos mostrar-lhes o que é uma relação violenta, que ninguém tem o direito de ser violento sobre o outro, e que isso não é uma forma de nos relacionarmos com ninguém e muito menos com um namorado, a pessoa que nos devia dar mais apoio e carinho.»
Os grandes problemas são culturais: por exemplo, o namoro valoriza as raparigas. «Sem dúvida», confirma Maria Neto. «Continua uma forma de afirmação social. Nas secundárias tentamos mostrar-lhes que não têm de ter um namorado para se sentirem valorizadas. Mas é uma tarefa muito difícil. Elas preferem ter um mau namorado a não ter namorado nenhum!»
«Os homens também são vítimas disto tudo, e estas não são relações dentro das quais eles se sintam bem», defende a professora Maria Neto Leitão. «Socialmente, são obrigados a desempenhar um papel que não os satisfaz, mas não têm outro! Eles comportam-se da maneira que acham que lhes é exigida. Tentamos no nosso projeto mostrar aos rapazes que, para serem homens, não têm de ser violentos. E ao recusar a violência, serão mais felizes. O problema é que mesmo as mulheres esperam deles que sejam violentos. É fundamental apresentar novos modelos de masculinidade aos jovens, ou eles vão continuar a pensar que não ser isto é ser homossexual. E no contexto de homofobia em que vivemos, eles preferem tudo menos ser homossexual!»
«Podem, antes de mais, transmitir muito claramente, no seu discurso e comportamento, que a violência é inaceitável, em qualquer circunstância e qualquer que seja a desculpa», defende Carla Machado. «Podem educar os filhos para serem assertivos (não agressivos) e terem consciência dos seus direitos. Podem enfatizar a ideia de que o respeito faz parte integrante do amor. E que o amor não implica anulação nem fusão com o outro.»
Catarina Fonseca, em revista
ACTIVA

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