Rumo à «solução criativa» do presbiterado casado

Os católicos na Alemanha continuam, a todo vapor, o Caminho Sinodal em todo o país. Esta assembleia permanente de clérigos e batizados não ordenados está a abrir discussões sobre questões que podem afetar diretamente a estrutura e o paradigma anacrónico atual da Igreja.
 
Há, por exemplo, apelos para a ordenação presbiteral de homens casados (não a abolição total do celibato, como alguns alegam). Alguns tradicionalistas da Igreja (e aqueles que são meramente nostálgicos) condenaram a ideia como herética, dizendo que é uma violação da doutrina e tradição católica. Disparate total! O clero casado faz parte da nossa tradição mais antiga. A Igreja Católica sempre teve padres casados, uma prática que as suas comunidades orientais nunca quebraram. E houve até bispos casados por muitos séculos. Vários papas (começando com São Pedro!) também eram legitimamente casados até o final do primeiro milénio. Um dos mais notáveis foi Adriano II (867-872), cuja esposa e filha continuaram a morar com ele no Palácio de Latrão depois que ele foi eleito bispo de Roma.
 
O restabelecimento de presbíteros casados – e eventualmente de bispos casados – é apenas uma questão de tempo. E a admissão de mulheres às ordens sagradas vai acontecer um dia.
 
Os limites dos candidatos celibatários do sexo masculino
É na área de governo e ministério da Igreja que a implosão da Igreja é mais flagrante. O episcopado celibatário, totalmente masculino, recusou-se a encarar seriamente o declínio constante e alarmante das vocações para o presbiterado. Em vez disso, os bispos recorreram à ordenação de qualquer homem que prometesse ser obediente à autoridade da Igreja e observar o celibato. Desta maneira, eles reduziram drasticamente os padrões de perspicácia intelectual, psicológica e pessoal entre os candidatos elegíveis. Isso levou a um desastre após outro. E uma das consequências mais catastróficas foi que isso forneceu um grupo ainda mais exíguo de talentos para selecionar homens para o cargo de bispo (supervisor).
 
Não admira que o Papa Francisco se recuse a permitir que bispos como o cardeal Reinhard Marx renunciem e que muitas dioceses ao redor do mundo estejam atualmente sem bispo ou sendo guiadas por alguém que já passou da idade de aposentadoria. Quem são os homens aptos a substituí-los? Na verdade, as qualidades teológicas e pastorais de muitos dos bispos atualmente em exercício são embaraçosamente fracas.
 
«Neste mundo em rápida mudança, leve Deus na viagem»
O mundo está a mudar hoje num ritmo mais rápido do que em qualquer outro momento da história humana. As mulheres estão rapidamente a constituir-se como parceiras iguais aos homens em quase todas as profissões e num número cada vez maior de países.
 
Isso forçará a Igreja a reavaliar as suas estruturas e ensinamentos sexistas e misóginos, nem que seja para evitar tornar-se uma pequena seita exclusivamente masculina.
 
O objetivo do Papa Francisco parece ser ajudar todos os cristãos – não só os católicos –, a navegar nesta contínua e colossal transição com grande agilidade espiritual/religiosa. A sua insistência em que a Igreja se concentre principalmente na pregação e na vivência do kerigma – esse credo básico de que Cristo ressuscitou – é como se dissesse: «Ninguém sabe para onde está a ir toda esta mudança, mas certifiquemo-nos de levar Deus na viagem.»
 
Em vez disso, outros líderes da Igreja ocupam-se a sustentar as mesmas velhas estruturas que estão a desmoronar.
 
Se o todo é maior do que as suas partes, a Igreja não se fragmentará mais se uma parte dela decidir reviver a antiga tradição dos padres casados – ou ordenar mulheres diáconos ou encontrar outras soluções pastorais/doutrinárias para problemas específicos. A questão mais importante é que essas soluções «criativas» – como Francisco gosta de as chamar – não se desviem do kerigma – o cerne essencial da fé cristã. E esse será o lugar onde a reconstrução irá começar, uma vez que o atual edifício da Igreja finalmente desabe... como, certamente, algum dia acontecerá.
 
Robert Mickens, em La Croix

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