As figuras bíblicas de Eva e de Maria influenciaram os Padres (os teólogos dos primeiros séculos) da Igreja em relação à mulher na sua pessoa e na sua missão: Eva, juntamente com Adão, disse não ao Senhor, de modo que, pela desobediência, o pecado e a morte entraram no mundo. Maria foi concebida sem o pecado original. E ela disse sim ao plano de salvação de Deus, de modo que o Senhor Jesus Cristo pôde entrar na realidade humana, em vista da redenção de todos.
É bom que se tenha em consideração que é impossível negar o contexto cultural, histórico que se formou tal visão. A visão de Eva era mais de inferioridade, pelo pecado, mas em Maria era de uma visão superior, de vida eterna, vida de graça porque Maria viveu sem o pecado original, gerando na carne o Filho de Deus, por obra do Espírito Santo (cfr. Mt 1,20)[ Cfr. Maria Grazia Mara, Donna. In: Nuovo Dizionario Patristico e di Antichità Cristiane, A-E, diretto da Angelo Di Berardino.Marietti, Genova-Milano, 2006, pg. 1504-1505]. Essas ideias influenciaram a vida dos padres na sua doutrina a respeito da mulher nos primeiros séculos do cristianismo.
Desobediência de morte e concepção da alegria
São Justino de Roma, teólogo do século II, disse que as duas mulheres foram diferentes em relação à atitude de vida com o Senhor. Eva, quando era virgem e incorrupta, tendo recebido a palavra da serpente, deu à luz à desobediência e a morte.
Maria concebeu fé e alegria[Cfr. Justino de Roma, Diálogo com Trifão, 100,5. Paulus, SP, 1995, pg. 265], porque dela nasceu por obra do Espírito Santo, o Filho de Deus (cfr. Mt 1,20).
A diferença entre as duas mulheres
Santo Ireneu, bispo de Lião, dos séculos II e III, afirmou a diferença entre as duas mulheres em relação ao Senhor e à sua Palavra. Enquanto Maria, a Virgem obediente, disse que ela era a serva do Senhor, e que se fizesse-se nela segunda a sua palavra (cfr. Lc 1,38), em contraste, Eva desobedeceu quando ainda era virgem. Se Eva pela sua desobediência se tornou para si e para todo o género humano causa de morte, Maria, pela sua obediência, tornou-se para si e para todo o género humano, causa da salvação[Cfr. Ireneu de Lião, III, 22,4. Paulus, SP, 1995, pgs. 351-352].
Santo Ireneu analisou as atitudes das duas mulheres em relação às ordens do Senhor. Enquanto Eva foi seduzida pelas palavras de um tentador e se afastou de Deus, transgredindo a sua palavra, Maria recebeu a boa-nova pela boca de um anjo e trouxe Deus em seu seio, sendo obediente à sua palavra. Se uma deixou-se seduzir de modo a desobedecer a Deus, a outra obedeceu a Deus, para que, da virgem Eva, a Virgem Maria se tornasse advogada [Cfr. Idem, V,19,1, pg. 569].
A mulher, Eva, companheira de Adão
Santo Irineu também colocou o ponto na criação da mulher em que Deus decidiu dar-lhe uma auxiliar para o homem, porque não era bom que ele ficasse sozinho para que o pudesse corresponder (cfr. Gn 2,18). O facto era que entre todos os viventes não foi encontrado um ajudante igual, similar a Adão. Deus fez a mulher com matéria retirada de junto do coração do homem. Depois, conduziu Eva até Adão, de modo que ele pôde exclamar que a mulher era osso dos seus ossos e carne da sua carne (cfr. Gn 2,23) [Cfr. Irineu de Lyon, Demonstração da pregação apostólica, 13. Paulus, SP, 2014, pg. 80].
As mulheres glorificam a Deus
São João Crisóstomo afirmou que as mulheres glorificam a Deus no corpo, na alma com as coisas que fazem no lar e na comunidade. Na verdade não existe mulher que não queira ser amada. De modo que o homem ame a sua mulher! Deus criou-a bonita, para ser admirada, e não para ser ofendida pelo homem. Deus a fez bonita para aumentar nos homens os tesouros da honestidade de modo que a mulher deva ser respeitada, amada, na família e nos ambientes diversos [Cfr. Giovanni Crisostomo, Omelie sulla prima lettera a Timoteo, 4,3. In: La teologia dei padri, v. 1. Città Nuova Editrice, Roma, 1981, pg. 270-271].
A conduta virtuosa da mulher atrai o marido à piedade
São João Crisóstomo ainda disse que o amor da mulher cristã pela casa e pelo marido afasta toda a discórdia. Se o marido for pagão, em breve ele vai deixar-se ser convencido; se é cristão, vai tornar-se melhor. São João diz que a mulher que ama a casa é sábia, faz economia. A mulher que é virtuosa, a pregação apostólica adquire gloria graças a ela e às suas boas obras. Ela conquista os homens maus e não crentes, pela vida das suas virtudes, atraindo-os à piedade com o próprio comportamento [Cfr. Giovanni Crisostomo, Omelie sulla lettera a Tito, 4,2. In: Idem, v. 3, pgs. 352-353].
São João viu a importância da mulher no campo doméstico, civil e espiritual. A mulher carrega sobre si uma parte da organização civil, o cuidado doméstico. Sem ela, a vida política não poderia subsistir, porque se no governo da casa ela põe ordem, o será também na parte política. E o mesmo se aplica na vida espiritual, muitas delas ajudam na organização das comunidades, enquanto outras foram martirizadas [Cfr. Giovanni Crisostomo, Omelie sulla seconda lettera a Timoteo, 10,3. In: Idem, pg. 350].
A criação da mulher
São João Damasceno, monge e presbítero, nos séculos VII e VIII, afirmou que a criação da mulher por Deus como imagem e semelhança de Deus (cfr. Gn 1,26) possibilitou a conservação do género humano. Ela é colaboradora ao lado do homem da obra da criação. Deus criou a mulher, semelhante ao homem. Desta forma, pela presença da mulher, se conserva através da geração o género humano. No início deve-se falar de criação, não de geração, porque a criação é aquela antes da formação do ser humano que veio através da intervenção direta e pessoal de Deus. A geração constitui aquela sucessão por meio do qual, após a sentença de morte, somos gerados um ao outro [Cfr. Giovanni Damasceno, Esposizione della fede ortodossa, 2,30. In: Idem, pg. 186].
Eva penitente
Tertuliano, teólogo dos século II e III, disse que toda a mulher carrega em si a Eva penitente por causa do pecado, porque, conjuntamente com o homem, desobedeceram a Deus. Eles levaram o género humano ao pecado, mas Jesus Cristo redimiu a humanidade, morreu pelos pecados de todas as pessoas e deu-nos vida nova neste mundo e um dia na eternidade [Cfr. Tertulliano, L´abbigliamento delle donne, 1,1, v. 3. In: Idem, pg. 357].
A mulher cristã
São Gregório de Nazianzo, bispo de Constantinopla, no século IV, tinha presente a mulher cristã, pessoa de fé no Senhor Jesus Cristo. Ela aconselha o marido para uma vida em comunhão, porque a sabedoria da mulher está em vista da vida matrimonial. O vinculo conjugal tornou os dois, mulher e homem, tudo em comum na vida. Os dois vivem o amor de Deus na família e na comunidade [Cfr. Gregorio di Nazianzo, Letterametrica ad Olimpia. In: Idem, pg. 354].
Vital Corbellini, bispo de Marabá, arquidiocese de Belém do Pará, em Vatican News

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