À primeira vista, existem alguns pontos em comum nas
declarações de felicidade feitas por pessoas em todo o mundo. Um estudo de 2016 — Definições de Felicidade entre as Nações: A Primazia da Harmonia Interior e da Conexão Relacional — envolvendo 2799 adultos revelou que, nos doze países examinados, a definição de
felicidade do ponto de vista psicológico como “estado interior, sentimento ou
atitude” foi preponderante sobre as demais. Em particular, as pessoas
declararam que para elas ser feliz significa alcançar "harmonia
interior".
Um conceito difícil de
compreender
Harmonia interior pode parecer um conceito universal, mas
pode ter significados muito diferentes dependendo do local. Por exemplo, os
dinamarqueses costumam descrever a harmonia interior como higiene, o que
corresponde àquela sensação de atmosfera calorosa e acolhedora, combinada com
um agradável convívio.
Ao mesmo tempo, descobri que os americanos tendem a definir
harmonia interior como a satisfação das suas paixões por meio das suas
habilidades, geralmente no local de trabalho.
Não é preciso dizer, portanto, que as definições
psicológicas falham em compreender precisamente o conceito de felicidade. E a
partir daqui, as diferenças entre os vários estados aumentam cada vez mais. A
mesma pesquisa de 2016, por exemplo, mostrou que 49 por cento dos americanos
focam explicitamente nas relações familiares ao definir a felicidade, enquanto
os europeus do sul e os sul-americanos costumam pensar nisso como um estado
individual: apenas 22 por cento dos portugueses, 18 por cento dos mexicanos e
10 % dos argentinos mencionaram a família ao definir o seu conceito de
felicidade.
Palavras que usamos para
falar sobre felicidade têm conotações diferentes em diferentes idiomas
Dois especialistas japoneses, num artigo de 2012 no
International Journal of Wellbeing, destacaram uma importante diferença
cultural entre a definição de felicidade na cultura asiática e a definição que
ela dá na cultura ocidental. No Ocidente, conforme apontam os estudiosos, a
felicidade pode ser definida como “um estado de euforia semelhante à excitação
e, ao mesmo tempo, uma sensação de realização pessoal”. Ao mesmo tempo, na
Ásia, "a felicidade consiste em sentir um estado de forte calma".
Em países muito grandes, também pode ser muito complexo
comparar com precisão os dados de diferentes áreas. Por exemplo, existem
grandes diferenças entre a definição do conceito de felicidade de um indiano do
norte e um do sul da Índia. A pesquisa realizada nos Estados Unidos mostra que
existem diferenças consideráveis de caráter entre as pessoas de várias regiões. Por exemplo, aqueles que vivem nas áreas do Meio-Atlântico e Nordeste têm uma
tendência a mostrar maior ansiedade de apego nos relacionamentos — «Aguardo
notícias tuas» — enquanto nos estados ocidentais há uma tendência de mostrar
uma tendência a evitar apegos pessoais. — «Até à próxima».
Diferenças relevantes
Até as palavras que usamos para falar sobre felicidade têm
conotações diferentes em diferentes idiomas.
Nos germânicos, o termo felicidade tem a sua raiz em
palavras relacionadas com sorte ou um destino benevolente; o termo felicidade
vem de hap , uma palavra do inglês médio que significa «sorte». Por
outro lado, no que diz respeito às línguas neolatinas, a raiz encontra-se no
latim felicitas, que na Roma antiga não devia apenas estar ligado à boa
sorte, mas também ao crescimento, à fertilidade e à prosperidade.
Podemos, portanto, concluir que as diferenças entre as
culturas na definição de felicidade são bastante significativas, que é
impossível dizer em termos absolutos que um país é mais feliz do que outro e
que, portanto, uma classificação unificada dos países mais felizes do mundo faz
pouco sentido.
A felicidade pode ser definida e medida de muitas maneiras
diferentes. Talvez, por alguma definição, a Finlândia seja realmente o país
mais feliz; mas certamente não o será se observado de outro ponto de vista. A
felicidade deve ser classificada dentro dos países, em vez de compará-los.
Quatro modelos
Um método bastante prático de abordar esse tipo de trabalho
é fazer uma distinção entre duas maneiras pelas quais a felicidade pode ser
observada.
A primeira forma considera a expressão interna ou externa de
felicidade — o que significa comparar a introspeção e o relacionamento com os
outros.
O segundo método concentra-se nas relações ou objetivos
interpessoais, ou seja, se a pessoa se orienta para os outros ou para objetivos
práticos. Obtemos assim quatro modelos principais de bem-estar, baseados em
pesquisas feitas em todo o mundo por meio de levantamentos.
1 – A felicidade vem de ter ótimos relacionamentos com as
pessoas de quem gostamos. É uma combinação de foco externo e relacional; neste
caso, as amizades e a família são as principais fontes de felicidade. Os
Estados Unidos são um bom exemplo de país que se encaixa nesse modelo.
2 – A felicidade vem de um alto grau de consciência. Este
modelo assenta na combinação do enfoque interior e daquele assente nas relações
interpessoais e é o modelo que corresponde às pessoas com um carácter
fortemente espiritual, filosófico ou religioso, especialmente àquelas que dão
grande importância à vida comunitária. O sul da Índia é a pátria de muitas pessoas
que seguem esse modelo.
3 – Felicidade é fazer o que se ama, geralmente com outras
pessoas. Essa linha de pensamento surge da combinação de uma tendência de
confiar em dados e objetivos externos — ou seja, para se envolver em atividades
de trabalho ou lazer muito gratificantes. Este é o estilo de vida das pessoas
que querem dizer: «O meu trabalho é a minha vida» ou «Adoro jogar golfe ou com
os amigos». Encontra-se muitas pessoas que se identificam com este modelo nos
países nórdicos e na Europa central.
4 – A felicidade simplesmente vem de estar bem. Nesse
modelo, por outro lado, há uma combinação de foco interno e objetivos. É o
modelo de pessoas que dão prioridade absoluta às experiências das quais podem
derivar sentimentos positivos, sejam experiências feitas sozinhas ou em
conjunto com outras pessoas. É uma boa maneira de verificar seu nível de
bem-estar se, ao se imaginar feliz, pensar em assistir à Netflix ou beber um
vinho. Este é o modelo mais popular na América do Sul, na região do
Mediterrâneo e na África do Sul.
Obviamente, esta classificação não é exaustiva e haverá
muitas pessoas e países que não serão capazes de se enquadrar claramente em uma
dessas categorias; qualquer conceção de felicidade, na verdade, poderia ser
derivada de uma combinação desses modelos. No entanto, é preciso dizer que
essas definições nos dão um ponto de partida para entender a grande variedade
de conceitos de bem-estar que podem ser encontrados no mundo — e também aqueles
que cada um de nós tem em mente e no coração.
Arthur C.
Brooks, em The Atlantic

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