Precisamos de abolir os seminários! Desmantelar o clericalismo e ser uma comunidade de fé presente e eficaz no mundo de hoje

«A necessidade de abolir os seminários e de encontrar outros caminhos para a formação dos padres nasce da mudança de época em que estamos e da necessidade de uma nova evangelização», diz 
Gilberto Borghi, em Vino Nuovo. Ele é teólogo, filósofo e psicopedagogo clínico italiano, formador na cooperativa educativa Kaleidos: www.cooperativakaleidos.it

Precisamos de abolir os seminários, sim! A necessidade de se pôr as mãos nos seminários não nasce apenas de problemas de distorção sexual dos padres, que, no máximo, são um efeito, e não uma causa, mas é muito mais antiga.

Trento tomou a decisão de instituir os seminários
Em 1563, quando o Concílio de Trento tomou a decisão de instituir os seminários, como lugares dedicados à formação dos futuros padres, queria obter o aumento da taxa cultural média dos sacerdotes e uma maior profundidade e uniformidade espiritual deles.

Estávamos num momento histórico muito importante para a Igreja. A pervasividade cultural do cristianismo era total na Europa, mas era necessário reagir aos movimentos protestantes para salvaguardar a reta doutrina. 

Não havia habitante da Europa que não fosse chamado a tomar partido, e nisso demonstra-se como o cristianismo tinha um papel cultural, social e político absolutamente primordial em comparação com qualquer outra visão do sentido da vida. 

A fé cristã era a referência social principal, mesmo que, com a chegada da modernidade, ela deixe de ser tão evidente quanto na Idade Média e deva, de algum modo, credenciar-se diante da razão, que lentamente se torna cada vez mais o verdadeiro motor da vida humana.

Por isso, fazia sentido pegar um jovem durante cinco anos e fazê-lo viver nas regras da instituição do seminário, fortemente reconhecida pela própria sociedade, para que ali ele pudesse formar uma densidade cultural e espiritual a ponto de poder dar resposta precisamente a esta dupla necessidade: reacreditar a fé aos olhos da razão e restabelecer a reta doutrina.

Terminados esses cinco anos, ele encontrava-se na mesma sociedade de cinco anos antes e entrava nela com uma posição bem clara, reconhecida não só eclesialmente, mas também socialmente: ser o guia dos fiéis na reta justa e no caminho espiritual.

O que resultou disso, sabemos como foi. Pelo menos três efeitos devem ser enfatizados.

Primeiro. Ao longo dos quatro séculos seguintes, o seminário tornou-se um lugar de “garantia” de sobrevivência económica para muitíssimos filhos de famílias que não tinham outras possibilidades, que, por isso, ingressavam nele por motivações não totalmente vocacionais.

Segundo. Ao mesmo tempo, não desapareceu o hábito das famílias poderosas de pôr as mãos na Igreja para a tornar num instrumento do seu poder social e político, acabando por “desviar” os objetivos eclesiais.

Alguém poderá dizer: distorções aceitáveis, que, diante dos grandes números de seminaristas daqueles quatro séculos, permitiram igualmente que os melhores aumentassem efetivamente a sua própria taxa cultural e aprofundassem a sua espiritualidade. Sim, é verdade, gerando também grandes santos.

Mas são distorções que, graças a Deus, acabaram por volta do fim dos anos 1960, quando a sociedade europeia começou a mudar profundamente de rosto e de condição económica, e os seminários de repente ficaram quase vazios. Dali em diante, o seminário era cada vez menos reconhecido socialmente, mas continuava a sê-lo eclesialmente. Mas, depois de meados dos anos 1980, a Igreja perdeu gradualmente o seu papel único de referência no nível do sentido da vida, e a sociedade começou a mudar drástica e velozmente.

Diante disso, por sua vez, o seminário permaneceu praticamente o mesmo, e isso continua a perpetuaro um terceiro efeito, já presente no início e que ainda persiste: os futuros padres são educados para a diferença e a separação em relação aos fiéis comuns e, especialmente, a pensarem em si mesmos como guias (muitas vezes: um homem sozinho no comando), por isso, num nível de poder mais alto do que o dos fiéis. De facto, essa é a estrutura do poder da comunidade de fé, totalmente nas mãos do padre, que está na base do drama atual do clericalismo e da insignificância dos leigos.

A crise das vocações sacerdotais é obra de Deus
Há algum tempo, eu penso que a crise das vocações sacerdotais na Europa e nos Estados Unidos é obra de Deus, e não da falta de resposta dos homens (como pensa a maior parte da hierarquia), nem mesmo do diabo (como muitos católicos ultraconservadores defendem). Talvez Deus esteja a tentar nos mandar um sinal para desmantelar o clericalismo e para repensar como podemos ser uma comunidade de fé que saiba estar presente e ser eficaz no mundo de hoje.

Na lógica tridentina, fazia sentido construir os seminários assim como eles são, mas hoje já não faz. Porque hoje o cristianismo deixou de ser a referência principal para o sentido da vida dos europeus. Isso pode desagradar-nos, mas não se pode negar. Porque um seminarista, depois de cinco anos, volta a uma sociedade diferente da anterior, e o seu papel de guia eclesial é quase sempre dissonante em relação a comunidades eclesiais que muitas vezes não são comunidades, esvaziadas da fé e habitadas por pessoas que desfrutam de modo cada vez mais individualizado do “serviço religioso”.

Por isso, não é possível continuar a pensar que um padre tem um lugar reconhecível na sociedade atual e que a comunidade eclesial é um lugar efetivo de vida cristã em que ele possa sentir-se reconhecido. Hoje, a comunidade não deve ser guiada, mas refundada, porque a fé deve credenciar-se não tanto em relação à razão, mas em relação ao mercado da felicidade e às dimensões emocionais e corporais, sobre as quais quase não há mais nenhum “percurso” educativo dentro dos seminários.

Então, isolamento, intelectualização e o facto de se sentir um guia são dimensões que, para um seminarista hoje, são contraproducentes. O isolamento vai fazer com que ele se sinta sozinho; a intelectualização vai levá-lo a não encontrar canais de comunicação com aqueles poucos fiéis que ainda o poderão seguir; o facto de se sentir um guia acabará por ser o modo mais difundido para obter compensações humanas inevitáveis.

E este é o quarto efeito com o qual temos de fazer conta. Os seminários de hoje, a partir de meados dos anos 1980, correm cada vez mais o risco de ser lugares de “refúgio” ou de “compensações” para distorções humanas que não encontram outra saída na experiência do indivíduo. Em particular, das sexuais ou das envolvidas na gestão do poder e do dinheiro.

Acho que agora está bastante claro que clericalismo, forma de vida comunitária e formação dos padres estão intimamente conectados entre si. A necessidade de abolir os seminários e de encontrar outros caminhos para a formação dos padres nasce da mudança de época em que estamos e da necessidade de uma nova evangelização, já anunciada há muito tempo, mas que cada vez mais custa a ganhar corpo, porque uma das maiores resistências ainda está, precisamente, nos seminários.

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