«Quando as mulheres da Igreja quiserem, a Igreja deixará de ser sexista em vinte e quatro horas»

As dúvidas da irmã Teresa Forcades, freira de clausura, não são profanas. De 55 anos, é teóloga de renome internacional e enfermeira. Formou-se em medicina interna em Buffalo, Nova Iorque (Estados Unidos). Tem um doutoramento em saúde pública e outro em teologia fundamental em Barcelona (Espanha). Mestre em Divindade por Harvard, ensinou Teologia da Trindade e Teologia de Género na Humboldt-Universität em Berlim (Alemanha).

A sua opinião conta nas comunidades científica e eclesiástica. O Vaticano não concorda totalmente com algumas das suas declarações, nomeadamente sobre o direito ao aborto e a legitimidade das uniões homossexuais, mas reconhece-lhe competências.

Deu uma entrevista ao Corriere.it, de que selecionámos:

Será possível quebrar o telhado de vidro também na Igreja?
Na Igreja, o teto é de concreto — ri. Mas na sociedade extra-eclesiástica, muitas coisas mudaram. No meu caso, encontrei um espaço de crescimento que não teria encontrado em outro lugar. O sexismo está nas universidades, nos hospitais: eu mesma, como freira, percebi como obedecia aos estereótipos de género. Mas quando as mulheres da Igreja quiserem, a Igreja deixará de ser sexista em vinte e quatro horas. Porque construímos o patriarcado juntos, homens e mulheres. Muitas mulheres ainda pensam que seu melhor trabalho é cuidar, cuidar dos outros, dos homens. E a Igreja enfatiza esse papel. Mas em um mosteiro feminino não há homens para cuidar. Cuidamos uns dos outros.

Simone Weil encontra Deus na beleza. E onde você vê a beleza?
Para mim, a beleza está muitas vezes num pormenor: o pequeno gesto de uma irmã do mosteiro, que morreu há cem anos, há pouco. Ela moveu o pescoço um pouco para a direita para ouvir quem falava com ela. Ele ofereceu seu ouvido ao interlocutor. Foi um pequeno gesto, a epítome da beleza. Para mim, a beleza é a figura de Jesus, segurando a cruz no meio da multidão, em uma pintura de Pieter Bruegel, o Velho. Em um mundo de mentiras e injustiças, a verdade desaparece. A beleza, por outro lado, brilha em contraste, como o belo rosto de uma menina em um bairro degradado. Ou como as notas de um violino em um campo de concentração.

Comentários