Nos próximos dias, cada diocese católica do mundo inteiro vai receber, por parte da Secretaria do Sínodo dos Bispos, um convite no sentido de se organizar uma recolha de opiniões, por parte do ‘Povo de Deus’, entre outubro de 2021 e abril 2022, acerca do andamento atual da igreja católica.
Ao apoiar a iniciativa, o Papa Francisco insiste: «Não se trata só de ouvir as pessoas que assistem regularmente às missas, mas de escutar o ‘Povo de Deus’, além de fronteiras.»
O processo do Sínodo em Portugal
O Conselho Permanente da Conferência Portuguesa, reunido em Fátima, abordou o Sínodo convocado pelo Papa Francisco, que se iniciará já em outubro e culminará em outubro de 2023.
A Santa Sé publicou o documento preparatório e propõe um vade-mécum metodológico (terá versão em português brevemente) para o Sínodo dos Bispos, que pode ser definido, em termos gerais, como uma assembleia de representantes dos episcopados católicos de todo o mundo, a que se juntam peritos e outros convidados, com a tarefa ajudar o Papa no governo da Igreja.
O Sínodo é iniciado em 9 e 10 de outubro em Roma e, no dia 17, será assinalado em todas as dioceses do mundo.
De acordo com as indicações da Santa Sé, cada bispo diocesano deve nomear uma pessoa de contacto e uma Equipa Sinodal para coordenar e dinamizar o processo.
Até finais de março de 2022, cada diocese fará uma reunião pré-sinodal, centrada na celebração da Eucaristia, apresentando nessa altura a síntese preparada de 10 páginas a enviar ao Secretariado-Geral da CEP; a partir das sínteses diocesanas, um grupo nomeado pela CEP fará a síntese final, também de dez páginas, a ser enviada em abril 2022 à Secretaria-Geral do Sínodo (Santa Sé).
A CEP promove uma reunião pré-sinodal, de 25 a 28 de abril de 2022, coincidindo com a sua Assembleia Plenária de primavera, inteiramente dedicada a este tema.
O princípio da Sinodalidade tem de remar contra corrente
por Eduardo Hoornaert (e.hoornaert@yahoo.com.br)
O pressuposto da sinodalidade, a iniciativa mais marcante do pontificado de Francisco, é nada menos que revolucionário: passar do princípio hierárquico vertical ao princípio dialogal horizontal.
Isso, dentro da igreja católica, é deveras revolucionário. E é normal que apareça muita resistência. Penso que estamos apenas no início de uma movimentação.
Por enquanto, não devemos esperar muito dessa iniciativa do papa, por um motivo muito simples:
- A igreja católica carrega um peso muito pesado.
- Já no século III, com a divulgação do texto ‘Traditio Apostolica’ pelo então bispo de Roma, Hipólito, entre 215 e 218, (bem antes de Constantino que fez dos Bispos Príncipes – NdR), o original princípio fraternal e dialogal do cristianismo foi ‘oficialmente’ substituído pelo princípio hierárquico autoritário.
- Aí começou uma evolução que se estende até hoje.
Essa mudança radical de rumo – a do princípio hierárquico autoritário – encontrou resistência ao longo dos séculos, mas ela firmou-se, pois corresponde a anseios de grandeza e poder por parte da nova corporação que ela criou: o clero.
Por conseguinte, para entrar de pé direito na sinodalidade, há de cultivar-se o espírito de indignação, que pode eventualmente ser alimentado por um estudo aplicado do passado da igreja católica.
Esse estudo mostra, de modo convincente, que:
- ao longo de séculos, a igreja católica acumulou erros gigantescos, que costumam ficar tão enraizados no seu modo de ser que muitos nem os percebem como erros.
Nesse sentido, aconselho a leitura dos livros de José Comblin, principalmente os publicados a partir de 1982. Em todos eles passa esse espírito de indignação (aliás, nisso reside exatamente a dificuldade em ler esse teólogo).
Sem essa indignação (sinal de amor), não acredito que a empreitada do Papa Francisco possa levar a algum resultado positivo.
Eis o desafio que a sinodalidade enfrenta.
Um caminho árduo, mas possível.
Haverá resistência não explicitada, haverá silenciamento.
A igreja católica, como toda organização poderosa, é mestra na arte do silenciamento.
Em vez de combater, deixar cair no silenciamento, no esquecimento.

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