No dia 4 de outubro, líderes religiosos e
cientistas assinaram um apelo pela política mundial durante a
conferência “Fé e ciência:
rumo à COP26“.
O apelo conjunto foi apresentado pelo Papa Francisco ao presidente designado da COP-26, Hon Alok Sharma, e ao ministro das Relações Exteriores da Itália, Luigi Di Maio.
Entre os signatários, há representantes de alto nível de todas as confissões cristãs, do Islão xiita e sunita, do judaísmo, do hinduísmo, do siquismo, do budismo, do confucionismo, do taoísmo, do zoroastrismo e do jainismo – representando um grande número de líderes religiosos.
UMA SÓ FAMÍLIA NUMA CASA COMUM
Hoje reunimo-nos, em fraternidade humana,
para aumentar a consciência sobre os desafios sem precedentes que nos ameaçam e
à vida na nossa bela casa comum, a Terra.
Como líderes e estudiosos de várias
tradições religiosas, nos unimos num espírito de humildade, responsabilidade,
respeito mútuo e diálogo aberto. Esse diálogo não se limita apenas à troca de
ideias, mas se centra no desejo de caminhar em companhia, reconhecendo nosso
chamado a vivermos em harmonia uns com os outros e com a natureza.
O encontro de hoje é fruto de meses de
intenso diálogo fraterno entre líderes religiosos e cientistas, reunidos em
torno da consciência da necessidade de uma solidariedade ainda mais profunda
diante da pandemia global e da crescente preocupação com a nossa casa comum.
A nossa consciência: a Natureza é um dom
A Natureza é um dom, mas também é uma força
que dá vida, sem a qual não podemos existir. As nossas fés e espiritualidades
ensinam um dever, individual e coletivo, de cuidar da família humana e do
ambiente em que ela vive. Não somos senhores ilimitados do nosso planeta e dos
seus recursos. Somos zeladores do ambiente natural, com a vocação de cuidar
dele para as gerações futuras e a obrigação moral de cooperar na cura do
planeta.
Somos profundamente interdependentes uns em
relação aos outros e com o mundo natural. Essa conexão é a base para a
solidariedade interpessoal e intergeracional, e para a superação do egoísmo. Os
danos ao ambiente são um resultado, em parte, da tendência predatória de ver o
mundo natural como algo a ser explorado sem levar em conta como a sobrevivência
depende da biodiversidade e da manutenção da saúde dos ecossistemas planetários
e locais. As múltiplas crises que a humanidade enfrenta estão a demonstrar as
falhas de tal abordagem; em última análise, elas estão ligadas a uma crise de
valores éticos e espirituais.
A fé e a ciência são pilares essenciais da
civilização humana, com princípios compartilhados e complementaridades. Juntos,
devemos enfrentar as ameaças que afetam a nossa casa comum. Os avisos da
comunidade científica estão a tornar-se cada vez mais nítidos e claros, assim
como a necessidade de passos concretos a serem dados.
Os cientistas dizem que o tempo está a
esgotar-se. As temperaturas globais já subiram ao ponto em que o planeta está
mais quente do que em qualquer outro momento nos últimos 200 000 anos. Estamos
a caminho de um aumento da temperatura de mais de dois graus acima dos níveis
pré-industriais. Não é apenas um problema físico, mas também um desafio moral.
A crise climática afeta a todos nós, mas não envolve a todos nós igualmente,
porque terá efeitos diferentes, mas devastadores, sobre as pessoas em países
industrializados e não industrializados. Em particular, ela afeta os mais
pobres, especialmente as mulheres e as crianças nos países mais vulneráveis,
que são os menos responsáveis por ela.
A humanidade tem o poder de pensar e a
liberdade de escolher. Devemos enfrentar esses desafios usando o conhecimento
da ciência e a sabedoria da religião: saber mais e cuidar mais. Devemos buscar
soluções dentro de nós mesmos, dentro das nossas comunidades e com a natureza,
adotando uma abordagem integral. Devemos pensar em longo prazo pelo bem de toda
a humanidade, agora e no futuro.
Precisamos de expulsar as sementes dos conflitos:
ganância, indiferença, ignorância, medo, injustiça, insegurança e violência.
Devemos enfocar-nos especialmente naqueles que estão à margem. Precisamos de agir
juntos para nos inspirar e energizar uns aos outros. Precisamos viver em paz
uns com os outros e com a Natureza. Agora é a hora de agir de forma
transformadora como uma resposta comum. À medida que a pandemia da Covid se
intensifica, o ano de 2021 apresenta um desafio vital para transformar essa
crise em oportunidade para repensar o mundo que queremos para nós mesmos e para
os nossos filhos. O cuidado deve estar no centro dessa conversão, em todos os
níveis.
O nosso apelo: a necessidade de uma maior
ambição na COP-26
Precisamos de um marco de esperança e
coragem.
Mas também precisamos mudar a narrativa do
desenvolvimento e adotar um novo tipo de economia: que coloque a dignidade
humana no seu centro e que seja inclusiva; que seja ecologicamente amigável,
cuide do ambiente e não o explore; baseada não no crescimento sem fim e nos
desejos que proliferam, mas no suporte à vida; que promova a virtude da
suficiência e condene a maldade do excesso; que não seja apenas
tecnologicamente orientada, mas também moral e ética.
Agora é a hora de uma ação urgente, radical
e responsável. Transformar a situação atual requer que a comunidade
internacional aja com maior ambição e equidade, em todos os aspetos das suas
políticas e estratégias.
As mudanças climáticas são uma ameaça
grave. No interesse da justiça e da equidade, defendemos ações climáticas
comuns, mas diferenciadas, em todos os níveis, desde mudanças comportamentais
individuais até processos de tomada de decisão política de alto nível.
O mundo é chamado a alcançar as emissões
líquidas zero de carbono o mais rápido possível, com os países mais ricos a assumir
a liderança na redução das suas próprias emissões e no financiamento da redução
das emissões das nações mais pobres. É importante que todos os governos adotem
uma trajetória que limite o aumento da temperatura média global a 1,5°C acima
dos níveis pré-industriais. Para alcançar essas metas do Acordo de Paris, a
Cúpula da COP-26 deve propor ações ambiciosas de curto prazo por parte de todas
as nações com responsabilidades diferenciadas. Há também uma necessidade
urgente de realizar ações para cumprir os seus compromissos de médio e longo
prazo.
Imploramos às nações com maior
responsabilidade e capacidade atual que: intensifiquem sua ação climática a
nível nacional; cumpram as promessas existentes de fornecer apoio financeiro
substancial aos países vulneráveis; concordem sobre novas metas que lhes
permitam se tornar resilientes ao clima, assim como se adaptem e enfrentem as
mudanças climáticas, com as suas perdas e danos, o que já é uma realidade para
muitos países.
Acompanharemos as nações na busca de
proteção e investimento nos grupos marginalizados e das populações vulneráveis
dentro das suas próprias fronteiras, que, por muito tempo, têm suportado fardos
desproporcionais e têm estado nas linhas de frente da pobreza, da poluição e da
pandemia. Os direitos dos Povos Indígenas e das comunidades locais devem
receber uma atenção especial, protegendo-os de interesses económicos
predatórios. Eles têm sido os zeladores da Terra por milénios. Devemos
escutá-los e estar dispostos a sermos guiados pela sua sabedoria.
Apelamos aos governos para que aumentem as
suas ambições e a sua cooperação internacional para: favorecer uma transição
para energias limpas; adotar práticas sustentáveis de uso da terra, incluindo a
prevenção do desmatamento, a restauração de florestas e a conservação da
biodiversidade; transformar os sistemas alimentares para se tornarem
ecologicamente amigáveis e respeitadores das culturas locais; acabar com a fome;
e promover estilos de vida e padrões de consumo e produção sustentáveis.
Pedimos que sejam plenamente levados em
consideração os efeitos sobre a força de trabalho da transição para uma
economia de energia limpa. A prioridade deve ser dada à criação de empregos
decentes para todos, particularmente aqueles em setores dependentes dos
combustíveis fósseis. Pedimos para que seja garantida uma transição justa,
efetiva e inclusiva para baixas emissões de gases do efeito estufa e um
desenvolvimento resiliente ao clima. Ao mesmo tempo, pedimos que considerem as
consequências sociais e económicas de curto e longo prazo, e adotem uma
abordagem equilibrada que combine o cuidado com as gerações futuras e a
garantia de que ninguém será privado do seu pão de cada dia em nosso tempo
próprio.
Apelamos às instituições financeiras,
bancos e investidores para que adotem financiamentos responsáveis para
investimentos que tenham impactos positivos sobre as pessoas e o planeta.
Apelamos às organizações da sociedade civil
e a todos para enfrentar esses desafios com coragem e num espírito de
colaboração.
Paralelamente, pedimos aos líderes
participantes da COP-26 que garantam que não haja mais perda de biodiversidade
e que todos os ecossistemas terrestres e aquáticos sejam restaurados,
protegidos e manejados de forma sustentável.
A fim de alcançar esses objetivos, um
grande desafio educacional está diante de nós. Os governos não podem lidar com
mudanças tão ambiciosas sozinhos. Precisamos que toda a sociedade – a família,
as instituições religiosas, as escolas e universidades, as nossas empresas e
sistemas financeiros – se envolva num processo transparente e colaborativo,
garantindo que todas as vozes sejam valorizadas e que todas as pessoas estejam
representadas na tomada de decisões, incluindo as mais afetadas, especialmente
as mulheres e aquelas comunidades cujas vozes são frequentemente ignoradas ou
desvalorizadas.
É aqui que nós, líderes e instituições
religiosos, podemos dar uma importante contribuição. A humanidade deve repensar
suas perspetivas e valores, rejeitando o consumismo e a cultura do descarte
generalizada, e abraçar uma cultura do cuidado e da cooperação.
Conscientizar o público é indispensável
para a mudança de rumo necessária.
O nosso compromisso e nossa criatividade
Os seguidores das tradições religiosas têm
um papel crucial a desempenhar no enfrentamento da crise da nossa casa comum.
Comprometemo-nos a tomar medidas muito mais sérias. Os jovens estão a exigir
que escutemos as descobertas científicas e que nós, seus anciãos, façamos muito
mais.
Em primeiro lugar, comprometemo-nos a
fomentar a transformação educacional e cultural que é crucial para sustentar
todas as outras ações. Ressaltamos a importância de:
- Aprofundar os nossos esforços para
provocar uma mudança de coração entre os membros das nossas tradições na forma
como nos relacionamos com a terra e com as outras pessoas (“conversão
ecológica”). Lembraremos as nossas comunidades que cuidar da Terra e dos outros
é um princípio fundamental de todas as nossas tradições. Reconhecendo os sinais
da harmonia divina presente no mundo natural, vamos esforçar-nos para
incorporar essa sensibilidade ecológica de forma mais consciente nas nossas
práticas.
- Encorajar as nossas instituições
educacionais e culturais a darem prioridade nos seus programas a intuições científicas
relevantes, a fortalecerem a educação ecológica integral e a ajudarem os
estudantes e as suas famílias a relacionarem-se com a Natureza e com os outros
com novos olhos. Além da transmissão de informações e de conhecimento técnico,
queremos incutir virtudes enraizadas profundamente para sustentar a necessária
transformação ecológica.
- Participar ativa e apropriadamente do
debate público e político sobre questões ambientais, compartilhando as nossas perspetivas
religiosas, morais e espirituais, e fortalecendo as vozes dos mais fracos, dos
jovens e de quem muitas vezes é ignorado, como os Povos Indígenas. Ressaltamos
a importância de reformular os debates ambientais, deixando de serem apenas
sobre questões técnicas para incluir questões morais.
- Envolver ativamente as nossas
congregações e instituições com os seus vizinhos na construção de comunidades
sustentáveis, resilientes e justas, criando e desenvolvendo recursos para a
cooperação local, por exemplo na agricultura restaurativa de pequena escala e
em cooperativas de energia renovável.
Em segundo lugar, destacamos a importância
de realizar ações ambientais de longo alcance dentro das nossas próprias
instituições e comunidades, informadas pela ciência e baseadas na sabedoria
religiosa. Ao mesmo tempo que apelamos para os governos e para as organizações
internacionais, para que sejam ambiciosos, também reconhecemos o importante
papel que desempenhamos. Queremos enfatizar a importância de:
- Apoiar ações para reduzir as emissões de
carbono, alcançar a neutralidade de carbono, promover a redução do risco de
desastres, melhorar a gestão dos resíduos, conservar a água e a energia,
desenvolver energia renovável, fornecer espaços verdes abertos, conservar as
áreas costeiras, evitar o desmatamento e restaurar as florestas. Muitas dessas
ações exigem parcerias com as comunidades agrícolas e pesqueiras, especialmente
os pequenos agricultores e famílias, a quem apoiaremos.
- Trabalhar para fazer planos ousados para
alcançar a sustentabilidade plena nos nossos edifícios, terrenos, veículos e
outras propriedades, juntando-nos à corrida global para salvar o nosso planeta.
- Encorajar as nossas comunidades a
adotarem estilos de vida simples e sustentáveis dentro de casa, de modo a
reduzir a nossa pegada de carbono coletiva.
- Esforçar-nos para alinhar os nossos
investimentos financeiros com padrões ambiental e socialmente responsáveis,
garantindo uma maior responsabilidade e transparência, já que a tendência de se
afastar dos investimentos em combustíveis fósseis rumo a investimentos em
energias renováveis e agricultura restaurativa está a tornar-se cada vez mais
difundida. Encorajamos as partes interessadas dos setores público e privado a
fazerem o mesmo.
- Avaliar todos os bens que adquirimos e os
serviços que contratamos com as mesmas lentes éticas, evitando que dois padrões
morais distintos sejam aplicados ao setor empresarial e ao restante da vida
social. Por exemplo, aumentaremos a conscientização nas nossas comunidades de
fé sobre a necessidade de examinar as nossas escolhas bancárias, de seguros e
de investimento, para corrigi-las de acordo com os valores que proclamamos
aqui.
A nossa esperança: um tempo de graça, uma
oportunidade que não podemos desperdiçar
Estamos atualmente num momento de
oportunidade e de verdade. Rezamos para que a nossa família humana possa unir-se
para salvar a nossa casa comum antes que seja tarde de mais. As gerações
futuras nunca nos perdoarão se desperdiçarmos esta oportunidade preciosa.
Herdamos um jardim: não devemos deixar um deserto para os nossos filhos.
Os cientistas alertaram-nos que pode faltar
apenas uma década para restaurar o planeta.
Imploramos à comunidade internacional,
reunida na COP-26, para que tome medidas rápidas, responsáveis e compartilhadas
para salvaguardar, restaurar e curar a nossa humanidade ferida e a casa
confiada à nossa administração.
Apelamos a todos neste planeta para que se
juntem a nós nesta jornada comum, sabendo bem que o que podemos alcançar
depende não apenas de oportunidades e recursos, mas também de esperança,
coragem, solidariedade e boa vontade.
Numa época repleta de divisão e desespero,
olhamos com esperança e unidade para o futuro. Procuramos servir as pessoas do
mundo, particularmente os pobres e as gerações futuras, encorajando uma visão
profética e uma ação criativa, respeitosa e corajosa pelo bem da Terra, a nossa
casa comum.

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