Não esperem de mim fórmulas pastorais para este tempo. Eu
nem sei se há alguma... e de qualquer forma eu certamente não as tenho. Vou
propor algumas reflexões, desenvolvendo três ideias: esta é a hora da mudança,
da escuta e do discernimento, é a hora da missão, e a hora da Igreja em saída (Evangelii
gaudium 20), escreve Gabriele Ferrari, presbítro, em Settimana News. Tradução: Luisa Rabolini
É a hora da mudança e da
conversão
A pandemia marcou um antes e um depois na história, fixando
quase uma fronteira a partir da qual entramos numa nova fase, que requer novas
atenções, hábitos e exigências. Isso a um nível pessoal, mas também a um nível
de Igreja.
Abriu-se um tempo novo que nos obriga a olhar para a frente
e ao mesmo tempo nos proíbe de voltar ao passado, de refazer o que foi feito
até agora. Infelizmente, essa é a tentação do momento presente. Mas é uma
operação sem futuro e contra o Espírito. “Não vos lembreis das coisas
passadas”, dizia o profeta aos israelitas que voltavam do exílio, “não pensem
mais nas coisas antigas! Eis que faço uma coisa nova, agora sairá à luz;
porventura não a percebeis" (Is 43,19).
Infelizmente, muitos cristãos e também muitos padres, em
parte por medo das novidades e em parte por preguiça mental, tendem a restaurar
o passado sem refletir que essa é uma operação impossível e sem futuro. De facto,
o que esvaziou as nossas assembleias litúrgicas não foi a pandemia e nem mesmo
a perda da importância da fé e da religião aos olhos de muitas pessoas, são factos
que a pandemia apenas evidenciou ou, no máximo, acelerou: factos irreversíveis
que devemos levar em conta.
Por isso, o Papa Francisco – muito antes da pandemia – pediu
a toda a Igreja «uma conversão pastoral e missionária que não pode deixar as
coisas como estão» (Evangelii gaudium, n. 25).
As igrejas estão a esvaziar-se; matrimónios e batismos
tornam-se raros... só os funerais resistem! Sessenta por cento dos jovens de
hoje já não são praticantes, porque consideram a religião inútil e declaram que
vivem bem mesmo sem Deus e, outro sintoma preocupante, as pessoas que estão com
quarenta anos estão a abandonar a prática cristã.
Não bastam esses sinais para crer que é hora de mudar de
rumo e marcha e estabelecer um novo curso pastoral? "O tempo da
cristandade acabou", disse o papa sem rodeios à Cúria romana em 21 de
dezembro de 2019.
É hora do discernimento
Justamente porque é a hora de mudar, devemos buscar
criativamente e ousadamente novos caminhos pastorais para tirar a Igreja da
situação de exculturação em que está. Se quisermos continuar ou retomar a
transmissão da fé, precisamos de encontrar novos caminhos.
Mas para mudar de maneira autêntica e inteligente, é preciso
parar e colocar-se à escuta «do que o Espírito diz às Igrejas» (cf. Ap 2-3). O
convite dirigido às sete Igrejas do Apocalipse para um tempo de crise é válido
também para este momento histórico. Nenhum cristão – muito menos um conselho
pastoral – pode dispensar a escuta do Espírito.
Fiéis à tradição não são os que repetem o que sempre foi
feito, mas apenas os que tendem o ouvido e o coração ao que o Espírito Santo
que dizer para as comunidades.
É hora de discernir o que Deus quer que entendamos por meio
dos acontecimentos da história e das expectativas das pessoas que estão
desorientadas e com medo por causa dessa crise sanitária que chega depois de
três outras crises que se sucederam neste início de século. Principalmente, não
é hora de fazer, mas de escutar.
O que, em geral, as pessoas esperam da Igreja hoje? Mesmo quem
já não frequenta a Igreja espera atenção para os seus problemas concretos, ou
seja, proximidade feita de novas relações, uma palavra de esperança e de
confiança que o ajude a resistir nesse momento crítico.
Nunca como agora é preciso que funcionem os conselhos
pastorais das comunidades eclesiais, não só porque os sacerdotes são poucos e
os leigos devem empenhar-se, mas porque esses conselhos são lugares de escuta e
de procura onde todos os fiéis exercem o seu sacerdócio, a missão de participar
na vida da Igreja que vem do batismo.
O conselho pastoral, antes de ser um lugar de organização da
comunidade, é um lugar de identificação das verdadeiras urgências pastorais,
que não são primeiramente aquelas para o interior da Igreja (por exemplo, a
celebração das missas, os programas da catequese, a celebração das festas e as
atividades da terceira idade, as procissões e as peregrinações ou as festas da
cidade etc., que são objetivos em vista e a favor dos "nossos", isto
é, dos que frequentam a igreja).
Um conselho pastoral deve preocupar-se com os
"nossos" mas também, e talvez mais, com os "outros", para
identificar formas de tornar-se próximos de "todos", para promover as
boas relações com todos, para integrar e fazer interagir as pessoas, para
desenvolver a solidariedade, não só daqueles que frequentam a Igreja, mas de
todos, com particular atenção aos "outros" para alcançar a todos, o
mais rapidamente possível, com o anúncio do Reino de Deus que é a fraternidade
e a amizade social, a justiça, a paz e a esperança que Jesus nos trouxe com o
Evangelho, como explica o Papa Francisco com a encíclica Fratelli tutti.
Um conselho pastoral faz o discernimento ouvindo a história
e confrontando-a com a Palavra de Deus e, assim, já põe em prática aquela
mentalidade sinodal tão cara ao papa e para a qual está preparando um Sínodo da
Igreja universal.
Para isso, serão convidados a trabalhar em assembleias
sinodais decanais e tudo isso trará o povo de Deus de volta ao protagonismo,
até agora pouco conhecido e reconhecido, hoje ainda mais obscurecido pelas
celebrações em streaming onde o centro e único protagonista da liturgia
e da Igreja parece ser (pelo menos na perceção imediata) o padre celebrante
diante de um povo que assiste às celebrações: não foi essa uma perigosa regressão
pré-conciliar?
É a hora da missão, da
“Igreja em saída”
Por esses motivos, a pastoral após a pandemia deverá
caracterizar-se – já o deveria ter sido antes – pela sua natureza missionária,
não no sentido comum da ação dos missionários para outras terras, mas pela
tensão de retomar o primeiro anúncio da Palavra dirigido a todos para oferecer
novamente o ABC do Evangelho.
A Igreja ainda deve ouvir o "ide por todo o mundo"
para oferecer a todos a Palavra e o Sacramento, mas nessa precisa sequência,
isto é, primeiro a Palavra e depois os sacramentos, precedendo o anúncio por
uma abordagem feita de simpatia e de empatia, caracterizado pela hospitalidade
e pela gratuidade.
Todos nós sabemos o que é hospitalidade: quem nos hospeda
faz de tudo para nos oferecer o melhor que têm e, no final, nem sonha ... em
nos pedir a conta. Tudo é grátis! É assim que deve ser a nossa pastoral, se
queremos que as pessoas se apaixonem por Jesus e pelo Evangelho e venham
procurá-lo, como diz Marcos no relato da viagem de Jesus para Cafarnaum: «À
noitinha, depois do sol-pôr... a cidade inteira estava reunida junto à porta»
(Mc 1, 33).
Aos que se aproximam de nós, talvez pela primeira vez, por
favor, não vamos pedir imediatamente que se empenhem, que voltem à missa
dominical, que se juntem às nossas associações. Em primeiro lugar, vamos
acolhê-los, perguntar-lhes como estão, o que precisam, se têm trabalho, se os
filhos encontram vaga na escola ... Mas também tratemos de ir procurá-los, se
possível, em sua casa. Foi dito com uma simpática imagem que não vamos trazer
as pessoas de volta à igreja tocando os sinos, mas as campainhas das casas. E
isso não é tarefa só do pároco! É também nossa ...
Procuramos construir relações pessoais com as pessoas,
conhecendo os recém-chegados e os que raramente são vistos na igreja, visitando
as famílias de forma gratuita e cordial: «Que queres que te faça?», pergunta
Jesus (Mc 10,51): esta deve ser a preocupação do pastor e da comunidade antes
de qualquer oferta possível das nossas propostas pastorais.
Para pensar numa nova abordagem pastoral, será bom sair de
uma conceção pastoral, litúrgica e mais em geral espiritual, baseada quase
exclusivamente na Missa e no edifício sagrado. A celebração eucarística – que
fique bem claro – não é apenas importante, é fundamental, porque é fonte e cume
da vida cristã.
Porém, sobretudo neste nosso tempo muitas vezes indiferente
à fé, a mera celebração da Missa, repetida de maneira quase mecânica, proposta
com obstinação e por vezes pedida como única ação litúrgica mesmo nos dias de
semana, não só evidencia um perigoso défice de criatividade pastoral, mas deixa
pouco espaço para o encontro, a escuta e, portanto, para a formação dos fiéis.
Será necessário inventar novas formas de oferecer a Palavra,
como por exemplo, a preparação comunitária da homilia, a leitura orante da
Palavra de Deus, feita com a comunidade, a Liturgia das Horas com o povo, e
assim por diante, tudo em tempos e modos acessíveis às pessoas e aos seus
compromissos de trabalho ...
E não vamos limitar-nos a cuidar da formação da infância e
juventude, esquecendo os adultos que permaneceram por tempo de mais à margem da
proposta pastoral.
Por fim, como o pastor poderá encontrar tempo para conversar
com as pessoas se tiver que correr de uma igreja a outra para celebrar a
Eucaristia que todos desejam em sua casa e em horários que lhes convém? Aqui
estão outras razões para mudar a pastoral atual.
A pastoral será missionária se abrir as portas da comunidade
para deixar os fiéis saírem e enviá-los ao mundo para compartilhar o testemunho
de sua fé com todos, por meio de relações de amizade e de fraternidade, sem
pretender que os que encontramos peçam... imediatamente os sacramentos.
Não vamos mais fundar, por favor, a nossa pastoral nos
"grandes" números do passado, mas no "pequeno rebanho" (cf.
Lc 12,32), o que não significa um grupo insignificante de fiéis, nem mesmo um
"grupo eleito"(!), mas numa minoria criativa, de pessoas convencidas
da sua vocação batismal, que será o fermento de comunhão, fraternidade e
solidariedade no coração da massa.
Talvez surjam na região pequenas comunidades, em torno de
famílias individuais ou grupos de amigos, dos quais o Evangelho se difunde não
por propaganda, mas por contágio ou irradiação, isto é, graças à qualidade de
vida cristã e das relações.
Hoje, todos, mesmo os chamados "nossos", já não
escutam mais os sermões ("A nossa palavra está gasta", já foi dito
com autoridade) e, menos ainda, as palavras normativas, ainda que procedam da
autoridade suprema da Igreja, mas todos buscam relações autênticas.
Toda essa mudança não pode realizar-se "dentro" da
forma, do modelo e do estilo atuais de Igreja, de paróquia e de pastoral que
corre o risco, para além das intenções, de ser excludente.
Não é suficiente que as pessoas venham à igreja. Isso
poderia ter sido o suficiente no passado, quando ir à igreja era a expressão
dominical ou festiva de algo que já se vivia nas casas e nos bairros.
Hoje as pessoas das nossas assembleias dominicais,
especialmente as urbanas (mas logo será assim em toda parte), muitas vezes não
se conhecem entre si ou têm um vínculo fraco ou desgastado e se assemelham a
turistas solitários e ocasionais.
Uma "Igreja em saída", segundo Francisco, são
aqueles cristãos que saem da celebração eucarística para "fazer
Igreja" nos lugares da vida.
Não basta organizar as formas do anúncio e da pastoral,
simplesmente criando ocasiões de encontro a realizar-se no edifício eclesial
para as quais convidar os "outros". Em vez disso, a comunidade se
desloca da igreja, lugar tradicional das assembleias, para criar "redes de
relações" entre as pessoas, para dar vida a experiências de amizade, de
oração comum e de partilha, "descentralizando-se" para reativar de
alguma forma aqueles ‘pequenos vilarejos’ de relações primárias que hoje estão
desaparecendo, mas das quais hoje se sente novamente a necessidade.
São algumas ideias para recolocar em movimento a pastoral.
Texto fantástico. Mostra a importância do Conselho Pastoral que não hexiste ou não funciona adequadamente em muitas paróquias. Só em conjunto, unindo esforços e remando todos juntos e na mesma direção poderemos ser porfíquos.
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