Os discípulos de Emaús como parábola do exercício do ministério presbiteral no nosso tempo - reflexão do presbítero Timothy Radcliffe, OP
Esta reflexão do presbítero Timothy Radcliffe, OP, superior da Ordem dos
Pregadores (Dominicanos) de 1992 a 2001, sobre o exercício do
ministério presbiteral no nosso tempo, foi proferida durante uma jornada
de três dias de formação do clero da Diocese de Bolonha, na Itália. O
texto foi publicado em Settimana News. A tradução é de Moisés
Sbardelotto.
Não é fácil ser padre
Este é um momento difícil para ser padre:
O povo de Deus está profundamente escandalizado com a crise
dos abusos sexuais.
Muitos jovens acham que a Igreja está fora do mundo, que é
contra as mulheres e os homossexuais. Eles sentem que não temos ideia da sua
vida. Podemos parecer irrelevantes, como uma máquina de escrever na era dos
laptops. E muitos jovens estão abandonando a Igreja. Renunciaram a ela.
Já aconteceu algo semelhante
Existe uma história que fala de uma situação desse tipo, que
é a nossa história. Dois discípulos desiludidos estão em viagem para Emaús logo
depois da Páscoa. Eles esperavam que Jesus seria aquele que viria para redimir
Israel, mas ele fracassou. Havia relatos de algumas mulheres que diziam que
Jesus havia ressuscitado dos mortos, mas os apóstolos os haviam liquidado como
“tolices” (Lc 24,11). Eram apenas mulheres! Portanto, eles perderam a fé e a
esperança. Abandonaram a comunidade dos discípulos em Jerusalém e voltaram para
casa. Eles se renderam. São exatamente como muitas pessoas hoje. Como podemos
ir ao encontro delas? Como faz isso Jesus?
Do que estão a falar?
Os dois discípulos estão a tentar dar um sentido ao fracasso
das suas esperanças quando encontram esse desconhecido. Jesus não diz que eles
estão errados e que ele ressuscitou. Ele não lhes diz que devem acreditar. Ele
lhes pergunta: “Do que vocês estão falando?” (cf. Lc 24,17). Começa a partir
deles. Eles são convidados a expressar a sua perplexidade e a sua decepção, a
sua raiva. Ele não fala antes de escutar. Portanto, a nossa pregação começa
ouvindo aquilo que as pessoas trazem em seu coração, o que é exatamente aquilo
que eu não estou fazendo hoje!
E as primeiras palavras deles a Jesus são: “Tu és o único
estrangeiro em Jerusalém que não sabe quais são as coisas que aconteceu aqui
nestes dias” (Lc 24,18). São exatamente como muitos jovens italianos e
ingleses: “Vocês, sacerdotes e religiosos, não têm ideia do que estamos
passando”. Muitos católicos desiludidos pensam que não temos ideia das suas
lutas ou do que significa ser uma jovem com um bebê indesejado a caminho, ou
ser gay e solitário, e se sentir rejeitado pela Igreja.
Essa sensação de não ser entendido se agravou durante esta
pandemia, na qual se perdem os modos normais de compartilhar a vida do nosso
povo. Depois de mais de um ano com o vírus, muitas pessoas, até mesmo
sacerdotes, também se sentem sozinhas, esquecidas e incompreendidas.
Então, como nós, sacerdotes, abrimo-nos aos seus mundos, com
a dor e alegria deles, os seus sonhos e os seus medos? Pessoalmente, acho útil
ouvir as músicas e assistir aos filmes de que os jovens gostam. Esse é o mundo
deles, e eu tenho que entrar nele. Por exemplo, uma série de TV muito popular
na Grã-Bretanha se chamava “Normal People”. É sobre um casal de jovens
estudantes irlandeses que se apaixonam. Há muito sexo e nenhuma menção à Igreja
ou à religião. Os jovens simplesmente presumem que um velho padre como eu não
pode se interessar por um programa desses. Mas, se é aqui onde eles se
encontram, é aqui onde eu devo me aventurar.
Ao aproximarem-se do povoado para onde iam...
Notem que eles estão indo na direção errada, fugindo da
comunidade dos apóstolos em Jerusalém. Jesus não bloqueia o caminho deles, nem
lhes diz para voltarem atrás. Eles farão isso livremente quando os tempos
estiverem maduros. Em vez disso, ele caminha com eles.
O ministério mais doloroso de um sacerdote é caminhar com as
pessoas quando elas se afastam da Igreja e rejeitam os seus ensinamentos. Santa
Teresa de Lisieux dizia que a sua vocação era a de se sentar à mesa com os
incrédulos e beber do seu cálice amargo. O Papa Francisco disse que a Igreja é
chamada a sair de si mesma e a “ir às periferias, não só geograficamente, mas
também às periferias existenciais: o mistério do pecado, da dor, da injustiça,
da ignorância e da indiferença à religião, das correntes intelectuais e de toda
miséria” [1].
A arte da conversa
Um dos meus amigos mais próximos abandonou a Ordem
Dominicana antes da ordenação. Depois, ele abandonou a Igreja e perdeu a fé em
Deus. Nós nos encontramos a cada dois meses para comer e beber alguma coisa.
Compartilhamos aquilo que estamos fazendo, as nossas esperanças e os nossos
sonhos. Muitas das suas convicções são agora contrárias às minhas. Ele luta
pela eutanásia voluntária. Isso é profundamente doloroso para mim. Mas eu não
tenho que romper com ele.
Primeiro, porque ele é um amigo, e as amizades deveriam ser
para sempre. Mas, em segundo lugar, porque, se eu compartilhar a viagem dele a
Emaús, longe da Igreja, talvez um dia ele volte atrás e volte para casa.
Frequentemente, não quero ouvir as suas novas convicções, mas, se é disso que
ele fala pela estrada enquanto caminha, então é isso que eu devo ouvir.
O desconhecido se junta a eles em uma conversa. Jesus era um
homem da conversa, principalmente com as pessoas difíceis! Pensem naquela
extraordinária conversa com a mulher samaritana junto ao poço. Ele realmente
não devia estar lá! Ela lhe responde: “Como é que você, judeu, pede de beber a
mim, uma mulher da Samaria?” (cf. Jo 4,9).
Portanto, a primeira pergunta que eu gostaria de fazer aos
sacerdotes é esta: com quem devemos falar enquanto caminhamos pela estrada?
Quem é para nós a mulher sozinha junto ao poço? Quem são as pessoas que fogem
da Igreja com quem podemos caminhar?
Então, Jesus expõe as Escrituras. “E, começando por Moisés e
por todos os profetas, interpretou a eles em todas as Escrituras as coisas que
lhe diziam respeito” (Lc 24,27). Não é que Jesus primeiro ouve e depois prega,
provavelmente longamente! As Escrituras são o diálogo de Deus com a humanidade.
Na Verbum Domini, o Papa Bento XVI escreve: “A novidade da revelação bíblica
consiste no fato de Deus se dar a conhecer no diálogo, que deseja ter conosco”
(VD 6).
Cada homilia é uma contribuição ao diálogo da comunidade com
Deus e entre si. Portanto, o principal testemunho da nossa fé, especialmente
como pregadores, é nos envolvermos em uma conversa. Alguém poderá objetar que,
antes de tudo, devemos proclamar a nossa fé, caso contrário cairemos no
relativismo. Mas a conversa é o único modo de anunciar Jesus, que é o diálogo
da Palavra de Deus com a humanidade. Qualquer outro modo corre o risco de cair
na ideologia. Todo o Evangelho de João é uma conversa após a outra.
Portanto, no centro da vocação do sacerdote está a arte da
conversa. Ele deve ser alguém que gosta de conversar com as outras pessoas,
principalmente se não concordam com ele. Ele precisa de confiança para falar e
de humildade para escutar. Isso é particularmente difícil na nossa sociedade,
que está perdendo a arte de interagir com pessoas que pensam de forma
diferente.
Os algoritmos do Google e do Facebook nos guiam ao encontro
com pessoas que pensam como nós. A sociedade ocidental está se tornando
tribalizada. Vivemos em câmaras de eco de pessoas que pensam da mesma forma. As
melhores conversas abraçam e se deleitam com a diferença.
Viver em vários lugares
A história da viagem rumo a Emaús envolve uma diferença
interessante. Jesus está em dois lugares ao mesmo tempo. Está em Jerusalém, o
lugar da ressurreição. Lá, ele se mostrará aos apóstolos e compartilhará uma
refeição com eles. Ele está no centro da comunidade apostólica. Mas também está
com os discípulos que estão decepcionados e fogem para Emaús. Jesus está tanto
no centro quanto na margem.
Nós também devemos viver em ambos os lugares. Dizia-se que
São Domingos estava “in medio ecclesiae”, no meio da Igreja. Pensamos com a
Igreja. A Igreja é a nossa casa. Porém, também somos pessoas que estão nas
periferias, nas palavras do Papa Francisco. Nós nos identificamos com quem se
interroga e com quem duvida. Nós assumimos as suas perguntas. Devemos estar em
Jerusalém e na estrada para Emaús.
O Pe. Tony Philpot, diretor espiritual do English College de
Roma, foi a uma conferência realizada em Cambridge pelo então cardeal
Ratzinger. Foi uma conferência maravilhosa e inteligente, mas distante da vida
dos seus paroquianos. Ele se sentiu dilacerado. E escreveu: “É incômodo ocupar
o espaço entre a rocha e o martelo. É incômodo pertencer ao mundo da ortodoxia,
mas gastar tanto do meu tempo e das minhas energias com os não ortodoxos e, de
fato, pertencer também ao mundo deles. Aos homens que se preparam para o
sacerdócio como padres diocesanos, gostaria de dizer que esse coração dividido
é a dor característica da sua vocação, e, se experimentam a dor, é sinal de que
serão bons sacerdotes” [2].
Os sacerdotes, portanto, são chamados a viver na tensão
entre as convicções da Igreja e as questões do mundo. Nenhum de nós conseguirá
encontrar o equilíbrio perfeitamente correto. Alguns de nós serão mais
naturalmente pessoas da instituição da Igreja e terão uma adesão instintiva ao
magistério. Outros encontram o seu ministério nas periferias, identificando-se
com as pessoas nas margens, com os estranhos. Alguns são Pedro, a rocha, outros
são Tomé, o duvidoso.
Ser hóspedes
Alguns de nós serão por temperamento mais conservadores, e outros,
progressistas. Porém, cada um deve valorizar a vocação do outro. Não deve haver
rivalidade. Alguns são corações e estômagos do corpo de Cristo, que mantêm todo
o organismo vivo. Outros são mãos que se estendem e exploram o mundo exterior,
testando os limites, a pele do corpo. Todos são necessários, e ninguém deve ser
desprezado. A polarização entre conservadores e progressistas deveria ser
totalmente estranha ao catolicismo.
Nós precisamos uns dos outros. Nunca somos padres
solitários, cada um com a sua vocação privada. Juntos como presbitério, cada um
com o seu papel diferente, facilitamos o complexo diálogo entre a Igreja e a
Palavra, o Evangelho e a realidade secular, Jerusalém e Emaús.
Chegamos agora à grande ironia dessa história, tão típica
dos Evangelhos. Eles dizem a Jesus: “Fica conosco, porque é tarde, e o dia já
passou” (cf. Lc 24,29). Essas pessoas irrequietas, fugindo da Igreja, convidam
o Senhor do Sábado para repousar com elas. Oferecem a Deus uma refeição e um
leito para a noite. Ele é convidado a se recostar com eles à mesa, para ficar
tranquilo.
Pregamos aceitando a hospitalidade. Quando Jesus envia os
discípulos para pregar, ele diz que eles não devem levar nada com eles, “e em
qualquer casa em que vocês entrarem, permaneçam aí, até vocês se partirem do
lugar” (cf. Lc 9,4). Jesus está à porta e bate, e, se alguém abrir a porta e o
deixar entrar, ele permanecerá com ele (cf. Ap 3,20).
Portanto, o nosso ministério sacerdotal inclui a aceitação
da hospitalidade, como eu digo aos meus irmãos em Oxford quando saio para
jantar de novo! O dominicano francês Marie-Dominique Chenu era o avô do
Concílio Vaticano II. Mesmo aos 80 anos, na maioria das noites, ele saía para
ver amigos, artistas ou para ouvir políticos ou líderes sindicais. Esse grande
pregador aprendeu a arte de ser hóspede nas casas e nas instituições de outras
pessoas. Ele compartilhava a sua comida, as suas ideias, os seus sonhos, as
suas esperanças. Tarde da noite, nós o encontrávamos no refeitório para uma
última cerveja, e ele perguntava: “O que você aprendeu hoje? Na mesa de quem
você se sentou?”.
Então, devemos ter a coragem de aceitar o convite para
descansar com os jovens, ou artistas, ou trabalhadores, ou industriários.
Apenas para desfrutar a companhia deles, para sentir prazer por estar com eles.
“Fica conosco, pois já é tarde, e a noite vem chegando” (cf.
Lc 24,29). Se quisermos que eles se sintam em casa na Igreja, devemos estar em
casa com eles.
Chegamos aqui ao grande ápice: “Quando estava recostado com
eles, tomou o pão, deu graças, o partiu e deu a eles. Então, os olhos deles se
abriram, e eles o reconheceram, e ele desapareceu da frente deles” (cf. Lc
24,30-31).
O gesto de esperança
Esse é o gesto que Jesus fez durante a Última Ceia, o
momento do desespero mais total. Na noite antes de morrer, ele fez um gesto de
esperança. Judas o havia traído, Pedro logo o renegaria, e a maioria dos
discípulos fugiria. Quando tudo o que parecia acontecer eram torturas,
humilhações e morte, ele deu um sinal de esperança, que repetimos todos os
dias.
Só comecei a entender isso um pouco quando visitei Ruanda
pela primeira vez em 1993. O genocídio havia apenas começado. Tínhamos
planejado viajar de carro para o norte do país para visitar as freiras
dominicanas. O embaixador belga veio e nos disse que devíamos ficar em casa,
porque todo o país estava em chamas.
Mas éramos jovens e tolos, em vez de agora que sou velho e
tolo! Atravessamos um país que estava cheio de soldados do Exército e de
rebeldes em conflito. O pior momento foi visitar um hospital cheio de crianças
que haviam perdido os seus membros nos combates ou por causa das minas
terrestres. Uma criança pequenina havia perdido ambas as pernas, um braço e um
olho. Seu pai se sentou ao lado do leito e chorou. Eu também saí para a mata
para chorar.
Quando chegamos às freiras dominicanas, eu sabia que devia
dizer alguma coisa. Mas o que eu podia dizer diante de todo esse sofrimento?
Estava sem palavras. E então me lembrei de que havia algo que eu podia fazer.
Eu poderia evocar aquele gesto de Jesus na noite antes de morrer, quando tomou
o pão, abençoou-o e partiu-o, dizendo: “Este é o meu corpo” (Lc 22,19). Isso
expressa uma esperança para além das palavras. Essa é a esperança que os
discípulos descobrem naquela noite em Emaús, e assim eles podem voltar para
casa. Foram libertados da pequena esperança de uma vitória militar sobre os
romanos na vasta esperança de uma vitória sobre a morte.
Como podemos compartilhar a esperança eucarística com quem
se sentem desiludido? Eu fiz essa pergunta a uma amiga minha que trabalha com
os refugiados na Inglaterra. Ela respondeu: “Eles me dão esperança”. Essa foi a
minha experiência muito limitada.
Depois que o ISIS ocupou as planícies de Nínive, no norte do
Iraque, centenas de milhares de pessoas fugiram, incluindo os meus irmãos e
irmãs dominicanos. Fui ao encontro deles lhes dar esperança, mas foram eles que
me ensinaram a esperança. Talvez foi um pouco recíproco.
Se formos aos lugares da miséria, vamos nos perguntar o que
devemos para dar. Mas lá será dado a nós. Jesus diz aos discípulos: “Quando
colocarem vocês à prova e lhes enganarem, não fiquem ansiosos antecipadamente
com aquilo que deverão dizer, mas digam aquilo que lhe será dado naquele
momento, porque não serão vocês que falarão, mas o Espírito Santo” (Mc 13,11).
Se formos ao encontro dos jovens que estão desesperados pelo
futuro, ou dos doentes e moribundos, nos sentiremos como peixes fora d’água.
Vamos nos sentir pobres. Mas depois o Senhor nos dará a palavra que é
necessária. E poderemos nem saber que a recebemos e a damos. Então, duc em
altum! Saiamos das águas onde nos sentimos mais seguros!
Questão de rosto
Eles reconheceram o seu rosto!
Esses discípulos ficaram decepcionados porque Jesus não
havia resgatado Israel e não havia derrubado os romanos. Não haviam reconhecido
que ele era a esperança mais profunda deles. Durante séculos, Israel havia
cantado: “Resplandeça o teu rosto sobre nós e seremos salvos” (Sl 80,19). Em
Jesus, revela-se o rosto de Deus que sorri para eles, mas até então eles não o
tinham visto.
O nosso papel como sacerdotes não é principalmente o de
revelar e descobrir o rosto do Senhor. Devemos ser esse rosto e ver esse rosto
naqueles a quem nos dirigimos. Cada ser humano, feito à imagem e semelhança de
Deus, oferece-nos um vislumbre daquele rosto que desejamos.
Muitas vezes contei como fui convidado pelos bispos a
visitar a Argélia, para ajudar a pensar o futuro da Igreja ali. Eu não podia
voar para o Sul do país. Por causa dos combates, todos os voos haviam sido
cancelados. Então, um bispo dominicano me levou no seu carro velho. Acabamos
sendo envolvidos nas violências.
Jamais esquecerei o rosto de um jovem de pé em cima do
para-brisa do nosso carro com uma grande pedra. Tentei olhá-lo nos olhos: se
pudéssemos nos olhar um ao outro, talvez a violência tivesse parado. No começo,
eu só vi um rosto cheio de ódio. Depois, debaixo da raiva, vi o medo. Cheguei a
entrever por um instante o rosto de alguém que a sua mãe certamente amava: toda
a complexidade de um rosto humano.
Os cristãos administravam um albergue no distrito da luz
vermelha de Amsterdã. Um dia, uma prostituta chegou e disse: “Você deve ser um
cristão!”. Sim, como você sabe?” “Por que você me olha nos olhos.”
Portanto, a formação sacerdotal inclui a arte da conversa e
a habilidade de ser um rosto e de ler rostos. Se olharmos as pessoas nos olhos,
então saberemos o que dizer.
No momento em que o Senhor é visto, ele desaparece. Ele está
surgindo na onipresença de Deus, em Jerusalém, em Emaús e por toda a parte.
Nós, sacerdotes, também devemos desaparecer, porque não somos Jesus. Devemos
sair do meio do caminho para que as pessoas possam ir ao encontro dele. A
grande tentação dos sacerdotes é de se colocarem no centro e de se tornarem
indispensáveis.
“Caro Pe. Timothy, como faremos sem você?” É fácil se tornar
um guru, com os nossos fã-clubes, os nossos admiradores. Mas, se somos
mensageiros do Evangelho, nós também devemos desaparecer como João Batista:
“Ele deve crescer, mas eu devo diminuir” (cf. Jo 3,30). Se um bom músico se
apresenta, ficamos admirados com a sua habilidade. Mas, se for um grande
músico, então ele desaparece, porque somos tomados pela música.
Então, os discípulos dizem: “O nosso coração não ardia
dentro de nós quando ele nos falava pela estrada, enquanto nos abria as
Escrituras?” (Lc 24,32). O coração das pessoas arde dentro delas quando
pregamos e interpretamos as escrituras?
Enquanto eu preparava esta conferência, ministrei um retiro
para os bispos do Caribe, e eles me disseram que um dos principais motivos
pelos quais as pessoas abandonam a Igreja Católica é que as homilias são
chatas! É o meu medo constante quando eu prego: estou entediando as pessoas?
Como podemos pregar para que as pessoas fiquem cheias de alegria?
Eu falei demais e devo ser breve. A fuga dos discípulos de
Jerusalém é uma expressão de desespero. O cerne do desespero é que tudo aquilo
pelo qual se sofre não tem significado. Quando São Oscar Romero visitou o
cenário de um massacre do Exército, ele se deparou com o corpo de um menininho
caído em uma vala: “Era apenas um menininho, no fundo da vala, com o rosto para
cima. Eu podia ver os furos das balas, os hematomas deixados pelos tiros, o
sangue seco. Seus olhos estavam abertos, como se perguntasse o motivo da sua
morte e não entendesse”.
Mesmo quando nem tudo vai bem
O desespero é o colapso de todo significado. Václav Havel, o
dramaturgo que se tornou presidente da República Tcheca, disse que a nossa
esperança não é de que tudo corra bem, mas de que as nossas vidas tenham um
significado.
O mal é o desespero da insensatez. O químico judeu italiano
Primo Levi desceu àquele inferno de Auschwitz. Estava desesperado de sede e
estendeu a mão para fora do seu barracão para pegar um pedaço de gelo para
sugá-lo. “Imediatamente, um guarda grande e pesado que circulava do lado de
fora o arrancou brutalmente de mim. Warum?, por que, eu lhe perguntei no meu
pobre alemão. Hier is kein warum, não há 'por que' aqui, ele respondeu” [3].
Talvez o coração das pessoas arderá dentro delas se ousarmos
abraçar os sofrimentos das pessoas, os seus momentos de desespero. Não
saberemos explicar por que sofrem. Nenhuma teoria resolverá o problema do
sofrimento. Mas podemos abraçá-las na história daquele homem cujos sofrimentos
foram necessários para que ele pudesse entrar na sua glória. Nele encontramos a
promessa de significado a tudo aquilo que vivemos. Se as pessoas entrevirem o
rosto de Deus, elas começarão a entender.
São Paulo diz: “Agora conheço em parte; então entenderei
também como sou conhecido” (1Cor 13,12). A nossa pregação pode fazer arder o
coração das pessoas se reconhecermos o seu sofrimento, a sua dor e o abraçarmos
na história desse desconhecido que caminha connosco agora, aonde quer que
formos.
Então, grande parte do sacerdócio é a prática das
habilidades humanas comuns. Em Jesus, Deus se fez homem, e nós também somos
convidados a nos tornarmos humanos! Primeiro, existe a arte da conversa. Se
escutarmos profundamente, abrindo a nossa mente e o nosso coração para outras
pessoas que estão longe da Igreja, elas podem nos escutar.
Se aprendermos a ler os rostos, em toda a sua complexidade
humana, veremos o rosto de Deus cem vezes por dia. Se ousarmos sair das nossas
profundezas, a ponto de nos sentirmos sem palavras, o Espírito Santo nos dará o
que dizer, mesmo que nunca o saibamos. E as nossas homilias às vezes poderão
até arder o coração das pessoas.
Notas:
1. Declaração do cardeal Bergoglio à Congregação dos
Cardeais antes da sua eleição, segundo o cardeal Jaime Lucas Ortega y Alamino.
2.
Priesthood in Reality: Living the vocation of a diocesan priest in a changing
world. Bury St. Edmunds,
1998, p. 88.
3. P. Levi. Se
questo è un uomo. Turim: Einaudi, 1989, p. 25.

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