Razões porque os seminários de hoje devem mudar

Poucos sabem que o seminário, como nós o conhecemos, é uma invenção jesuíta. É por esta razão que, em muitos locais, os seminários ainda são administrados por jesuítas.

Ainda poucos sabem que quando o primeiro seminário surgiu no século xvi, eles foram saudados como uma inovação bem-vinda.

Até ao Concílio de Trento (1563), os futuros padres recebiam as “formações” pelo método de aprendizes. Um jovem homem, com desejo de ser padre, aprendia a “mecânica” de rezar a missa, um pouco de latim para isso e aconselhamento pastoral com um padre da vizinhança. O candidato permanecia um tempo com o padre mais velho, recebendo instruções. Isso não era muito, mas tampouco se esperava muito.

Os padres eram, naquele tempo, celibatários apenas no nome – eles costumavam viver em concubinagem com uma mulher local, um arranjo aceitável por todos.
 
Como a Reforma nos mudou
Mas então duas coisas aconteceram durante a Reforma que mudou a situação.
Em primeiro lugar, os pregadores luteranos e calvinistas eram vistos como obviamente melhores: eles eram mais hábeis na pregação e na escrita; eles haviam estudado as Escrituras e os primeiros Padres da Igreja em maior profundidade, e ofuscaram o clero católico.

Eles também promoveram publicamente o casamento como uma vocação para o clero, em vez do pobre sistema de ‘common law’ praticado pelos católicos.

Os jesuítas – homens como Inácio, Laínez, Canísio e Belarmino – rapidamente perceberam que o seu clero não poderia competir com os seus pares protestantes, a menos que fossem melhor formados. Assim, eles estabeleceram escolas especiais para formar candidatos à ordenação de uma forma gradual e sistemática, tanto intelectual quanto espiritualmente. O seminário [“sementeira”] nasceu.
 
Inovações jesuítas
Duas inovações jesuítas já usaram a nova tecnologia de imprensa – o catecismo e o livro didático.

O catecismo, popularizado por Canísio e Belarmino, apresentava “perguntas frequentes” combinadas com respostas simples e inteligíveis. Foi tão bem-sucedido que rapidamente se tornou um grampo católico, e foi usado desde onde quer que a fé fosse pregada.
O livro didático era o equivalente intelectual do catecismo – ‘capítulos’ especialmente preparados sobre um tópico, graduados para dar uma ideia de um novo assunto e impressos e encadernados para fácil referência. Mudou toda a forma de aprender, dando origem à Escola dos Jesuítas.
 
Uma terceira inovação, que também se espalhou como fogo nas mãos de pregadores engenhosos, foi a prática dos Exercícios Espirituais, com  sua insistência na confissão e comunhão frequentes e no exame diário. Tornou-se parte integrante da formação dos jovens como futuros padres.
 
Na Igreja pós-tridentina, essas novas escolas de formação se espalharam rapidamente em todas as dioceses, não apenas na Europa, mas também nos países de missão. Francisco Xavier fundou um em Goa, na Índia, o colégio de São Paulo, logo desembarcou na região em 1542.

Por 400 anos, portanto, o sistema de seminário proporcionou à Igreja um corpo de homens educados e dedicados, que dirigiam as suas igrejas, paróquias, escolas e instituições de bem-estar, e forneceu um modelo para o que todos os meninos católicos poderiam aspirar.
 
Porque precisamos de mudar?
Se foi um modelo tão bem-sucedido, por que tentar mudá-lo? Porque o mundo mudou, e o que é bem-sucedido numa época ou cultura pode tornar-se um obstáculo noutra época e lugar.
 
A Reforma disse à Igreja que os seus pastores deveriam ser bem educados. É por isso que a formação no seminário teve um enfoque intelectual, especialmente filosofia e teologia.
 
Os padres de ontem foram formados segundo um modelo religioso e patriarcal. Além disso, eles também tinham um forte senso de direito.
 
No mundo secularizado de hoje, entretanto, os problemas estão mais relacionados com as ciências sociais, a gestão e aa tecnologias. A nossa situação social também é mais pluralista e democrática do que antes.
 
Não é de se admirar que muitos padres se sintam perdidos no relacionamento com o público em geral. A formação era muito abstrata, unilateral.
 
Problemas de maturidade emocional
Mas ainda existem questões mais sérias. O seminário sempre foi uma instituição unissexual, homens a formar homens, homens a acompanhar homens por anos a fio.
 
Como uma reação à ênfase protestante num clero casado, a tradição católica enfatizou o celibato vitalício.
 
Infelizmente, logo essa prática se tornou hostil às mulheres e ignorante das necessidades da sexualidade humana.
 
Nos últimos anos, ficamos chocados com os predadores sexuais entre o clero e, em particular, com o ataques de pedofilia.
 
Pois, a ênfase apenas nas habilidades intelectuais, e isso também numa atmosfera segregada, contribuiu muito para a privação emocional de muitos padres. Muitos são pobres no relacionamento, agressivos no comportamento e ambiciosos nas aspirações – uma atitude que conhecemos agora como “clericalismo”. O Papa Francisco denunciou o clericalismo como um cancro entre o clero.
 
Para destruí-lo, o seminário atual deve ser encerrado.
 
Quais são as alternativas?
Nós podemos guiar-nos no modo como Jesus formou os seus discípulos, como descrito nos Evangelhos. Ele formou os seus discípulos no meio do povo, não mantendo-os à parte.
 
Uma ou duas coisas merecem nossa atenção: Quando chama alguém à missão, Jesus demanda que o discípulo desista de tudo vinculado à família e à propriedade. Quão crucial é isso numa cultura que se apega à família e à casta a cada passo, e é tão relutante em desistir das vantagens do cargo, status e benefícios?
 
Ora, como mentor, Jesus interage com os discípulos e esclarece as suas dificuldades, ao mesmo tempo que os incentiva a participar do seu ministério de ensino e cura.
 
Este ensino de um mentor é baseado em experiências compartilhadas e refletidas.
 
O que levanta um ponto importante. A Igreja dos últimos dois milénios destacou-se pela sua misoginia, o seu ódio e desconfiança com as mulheres. E, no entanto, sabemos que a maturidade psicossocial só pode ser alcançada pela harmonia intersexual. Pois é verdade que, para muitos, as mulheres podem ser excelentes mentoras.
 
Que isso possa significar ter um sacerdócio de casados no futuro, e também mulheres sacerdotes, e a renúncia do celibato obrigatório é provavelmente parte do quadro.
 
Infelizmente, a feroz oposição a essas mudanças por parte de ambos, clero e hierarquia, mostra quão pouca abertura existe para um tipo diferente de sacerdócio.
 
Para se tornar a mudança que queremos ver
 
Cada grande mudança acaba por desmantelar a sociedade da qual provém.
 
Aqui estão alguns exemplos contemporâneos: casamentos entre castas e inter-raciais, impensáveis há alguns anos, estão a aumentar; as taxas de fertilidade das mulheres estão a cair vertiginosamente em quase todos os países; a migração em massa destruiu a homogeneidade de muitas sociedades.
 
Mas o desconhecido é sempre ameaçador, e vemos isso no mundo hoje.
 
Como reagiremos se os líderes da comunidade – pastores, profetas – forem casados, ou mulheres, pobres, marginalizados ou tribais? – nós que sempre estivemos acostumados com um estrangeiro celibatário?
 
Como reagiremos ao discernimento comunitário e à cooperação inter-religiosa? – nós que sempre obedecemos impensadamente aos nossos superiores, sejam esses bispos ou um papa distante em Roma?
 
Portanto, o colapso dos seminários e o surgimento de pequenas comunidades diversas, a “sementeira” dos nossos futuros padres, mudará a Igreja como a conhecemos, pois é uma Igreja diferente num mundo diferente.
 
Mas começa com um tipo diferente de padre nas nossas paróquias.

Myron J. Pereira, jesuíta indiano, em La Croix International. Tradução: Wagner Fernandes de Azevedo.
Foto: Cathopic

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