Como ser cristão num mundo que já não é cristão? Dar uma
resposta para essa pergunta destes novos tempos é a proposta do livro A
espiritualidade cristã no mundo secular (Santuário, 2021, 144 p.), escrito
por Lourenço Kearns, missionário redentorista e pregador de retiros.
O referido autor destaca que, vivendo num mundo secularizado,
o maior resultado desta realidade é a tentativa de criar um mundo sem Deus, sem
moralidade e sem responsabilidade para com os outros: “Os resultados são
assustadores, especialmente no campo da moralidade, em que o individualismo
eliminou qualquer responsabilidade com o nosso próximo” (p. 137).
Se o secularismo endurece o coração diante dos compromissos
com Deus, com a história e como próximo, surge daí a necessidade de um
confronto com a prática religiosa e com a fé cristã, na busca sincera da
verdade.
Chamando a atenção para os sinais negativos do secularismo
no mundo de hoje, Kearns defende a necessidade de assumir a vida espiritual,
pois somente com ela poderemos superar as influências negativas do secularismo;
somente celebrando a presença de Deus em nossa sociedade moderna, poderemos
mudar o profundo egocentrismo e nossa visão para a solidariedade com os
necessitados a nosso redor.
Itinerário em seis capítulos
Para isso, o autor, propõe um itinerário de reflexão, em
seis capítulos: No primeiro capítulo -, Secularismo – um mundo sem Deus (p.
7-24), busca-se em primeiro lugar definir o que se entende por secularismo ou
processo de secularização (p. 7-8), em seguida, apresenta-se a parte negativa
do secularismo: racionalismo, relativismo, narcisismo, hedonismo, materialismo,
individualismo, gratificação, cultura dualista (p. 8-21), e, consequentemente a
fome e a desnutrição (p. 21-24), para esclarecer em que momento precisamos
escolher entre o Evangelho e o secularismo.
No segundo capítulo -, Espiritualidade (p. 25-62),
examina-se o conteúdo e a prática da espiritualidade. Se a espiritualidade é
“caminho para a intimidade com Deus” (p. 25), essa espiritualidade baseada na
aliança do batismo, não é teoria, mas lago que precisa de coragem e práticas
diárias, ser vivido e visto para ser profecia no meio do mundo secularizado. O
autor esclarece quais são as etapas e as maneiras de viver essa
espiritualidade, como um chamado para a intimidade com Deus. Como processo de encantamento
(p. 32-33), ela precisa ser vivida de baixo para cima e não de cima para baixo
(p. 34-37), abrindo a porta fechada do nosso eu e convidar Deus para entrar (p.
37-38), exigirá disciplina, constância e mudança de velhos métodos de
espiritualidade (p. 38-39), experimentando Deus Pai como: fiel, perdoante,
firme no amor (p. 40-41), Jesus Cristo como: Senhor e Salvador (p. 41-42), e o
Espírito Santo como aquele que cura, sara, lava, apaga, ama (p. 42-49).
Faz-se necessário formar uma disciplina para criar uma
integração de três momentos na prática da espiritualidade: a vida interior, a
vida exterior e a vida espiritual (p. 49-58). Num item final deste capítulo,
chama-se atenção para alguns princípios da espiritualidade: a) é acolher o
momento da graça; não é teoria, mas sim a vida; começa com um crer; exige
pobreza espiritual; exige combinar o velho com o novo, exige ascese cristã (p.
58-62).
No terceiro capítulo -, Três dinâmicas da espiritualidade
(p. 63-84), explicita-se as três dinâmicas da espiritualidade: evangelia: nosso
relacionamento com Deus (p. 67-73); koinonia: nosso relacionamento com o
próximo (p. 73-80); diakonia: a necessidade de sairmos de nós mesmos para
amarmos e servirmos os que precisam de nós (p. 80-83). No contexto da
espiritualidade, essas três dinâmicas “se baseiam nas grandes virtudes cristãs:
evangelia promove a fé; koinonia promove a esperança e a diakonia promove a
caridade” (p. 83), e, na sua vivência “cumprimos a aliança de amor de nosso
batismo” (p. 138), superando os “efeitos negativos do secularismo” (p. 67).
No quarto capítulo -, Contemplação (p. 85-104), chama-se a
atenção para a oração de contemplação como um dom universal de Deus, que foi
dado junto com a aliança do batismo. Distinguindo meditação de contemplação (p.
85-94), apresentam-se para isso vários sistemas úteis para chegar até a oração
de contemplação e intimidade com Deus conosco (p. 95-103).
No quinto capítulo -, Discernimento (p. 105-126), expondo a
necessidade do discernimento (p. 105-109), esclarecendo o que é discernimento
comunitário (p. 109-112), e, explicitando as suas bases teológicas (p.
113-117), entende-se que a finalidade do discernimento é “conhecer e, com amor,
executar a vontade de Deus” (p. 139). Frente a isso, o autor mostra quais são
as fontes para descobrimos essa vontade: Bíblia, carisma original do grupo, os
sinais dos tempos e o aprofundamento dos ensinamentos de Jesus (p. 118-126).
No sexto capítulo –, Lectio Divina (p. 127-135),
esclarecendo que a leitura orante “é uma prática e um método de oração,
reflexão e contemplação praticado desde os tempos antigos, particularmente nos
mosteiros de monges e monjas. Consiste na prática de oração por meio da leitura
das Escrituras e sua finalidade é promover a comunhão e intimidade com Deus e
tentar discernir sua vontade em nossa vida” (p. 127), o autor inclui todo o
conteúdo da Lectio Divina: leitura, meditação, oração e contemplação (p.
129-132), e o modo/passos para fazê-la (p. 132-135).
Força testemunhal
interpeladora
A Igreja é testemunhal por natureza. O enfoque da reflexão
de P.e Lourenço Kearns está no ser. Um modo de ser diante das influências e
valores antievangélicos do secularismo.
Poderíamos falar também de um modo de ser diante da
“inflação de religiosidades” voltadas para a satisfação imediata do indivíduo.
Diante de cenário, quando os discursos, pregações e conceitos já não satisfazem, a “base testemunhal” faz toda a diferença. Por sua vez o testemunho possui
um rosto. Na esteira da Conferência de Aparecida (2007), é o testemunho da
solidariedade no compromisso pela vida, com os crucificados sobre a terra e, de
acordo com a consciência ecológica, com a criação e a sua devastação. É presença
gratuita entre os pobres e sofredores. É também testemunho de comunhão,
concretizada em relações de convívio, partilha dos sonhos, angústias,
esperanças e sucessos. É neste rumo que somos desafiados a caminhar organizando a nossa vida a partir destes valores, sendo cristão num mundo que já não é cristão.
Nesta reflexão oferecida por Lourenço Kearns entendemos que
não devemos isentar-nos do reconhecimento do testemunho como uma das grandes
possibilidades do nosso tempo. O testemunho pessoal e comunitário precisa de ocupar os primeiros lugares das nossas agendas.
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