A importância de subir uma montanha, pelo menos uma vez na vida, para percebermos a importância do peso, durante toda a vida

A minha primeira foi a mais alta:

Nepal, acampamento-base dos Annapurna, 1996, 34 anos.
Seguiram-se muitas outras:
Pirenéus Aragoneses.
Circo de Gavarnie.
Picos da Europa.
Andes Chilenos.
Teide.
Monte Cook.
Um 3.º andar, em Alvalade.

Na minha primeira montanha, o Paulo alertou-me para a importância que mais 20 gramas nos bastões,
mais 100 gramas num saco-cama,
mais 150 gramas na mochila,
têm na nossa capacidade de resistência e efetivação de uma caminhada de dias,
em que subidas e descidas – tal como na vida – são uma constante e ambas igualmente difíceis.

Não dei importância ao seu conselho, mas a minha arrogância valeu-me uma outra perceção do peso na vida.
 
O peso na vida está em muita coisa e não se mede só em gramas.
 
Mede-se em quilos
que eram gramas
e se transformam em toneladas,
quando uma montanha nos desafia a carregá-los, dias e dias,
com o oxigénio a rarefazer-se
à medida que chegamos mais alto.
 
Mede-se em coisas, coisas que são só coisas
e que só percebemos o seu enorme peso
quando temos de desfazer a casa
dos nossos pais e nos pesa demais o coração.
 
Mede-se no peso leve e libertador
dos momentos e memórias felizes
e no imenso peso do lamento
por não nos termos feito mais felizes,
e a outros com tanto peso
na nossa vida.
 
Mede-se na tristeza
ao olharmos alguém que amamos
subir um 3.º andar, num prédio de Alvalade,
como se subisse os Annapurna,
numa alma cada vez mais leve
e num corpo em que
cada ano a mais
passa a pesar mais
que toda a eternidade.
 
E mede-se no desejo de voltar às montanhas para,
apesar do pesar da idade,
descobrirmos que é no cume da vida que ganhamos toda a leveza de ser.
 
Paula Calheiros Pato, comunicóloga, em Facebook

Comentários