Três prioridades...

Nos tempos atuais, o serviço eclesial mais doloroso é caminhar com as pessoas quando elas se afastam da Igreja. Mas há modos de o fazer.

Uma imagem frequente nas igrejas é ver os fiéis a preferir ocupar os bancos do fundo. Todavia, estão perto da porta, não para ir rapidamente anunciar e testemunhar a fé celebrada, mas para escapar assim que termina a celebração. Este testemunho de cristãos acomodados é um dos desafios do nosso tempo, que se vive no interior da própria Igreja, porque ela nasceu missionária, para ir ao encontro dos outros, levando-lhes Jesus Cristo.

Outro desafio dos nossos tempos é a ausência da prática religiosa pela maioria das pessoas, facto que tenderá a acentuar-se no futuro. De acordo com dados de 2018, em Portugal, 42 em cada 100 jovens, entre os 16 e os 29 anos, não se identifica com nenhuma religião, nem se sentem tocados pelo desejo de estar com Deus. E dos restantes 58 por cento, mesmo se a maioria professa o Cristianismo na Igreja Católica, mais de metade destes admite que não frequenta regularmente a missa nem tem por hábito rezar.

O tempo presente é desafiante. Na sociedade do nosso tempo, a maioria vive como se Deus não existisse, e não sente nenhum incómodo com isso. E o que é identificado com a Igreja – o clero, os religiosos, os catequistas, os movimentos, os grupos – tende a ser visto como irrelevante. Este é, então, um tempo em que são necessários cristãos corajosos, criativos e alegres no seu testemunho da fé.

Até os católicos mais fervorosos e empenhados percebem que, por mais que gastem energias, inteligência e tempo ao serviço do Evangelho, o serviço eclesial mais doloroso é caminhar com as pessoas quando elas se afastam da Igreja e rejeitam os seus ensinamentos.

Neste novo contexto, há três prioridades que o católico poderá seguir.

A primeira será a capacidade de ser próximo, mostrar interesse fraterno pela situação em que se encontram as pessoas à sua volta, partilhando as suas alegrias e as suas fadigas quotidianas. As roupas dos católicos devem cheirar a povo e não a velas ou incenso.

A segunda prioridade poderá ser a arte do diálogo. O católico deverá ser alguém que gosta de falar com as outras pessoas, especialmente se elas discordam dele. Precisam de confiança para falar e de humildade para escutar. Isso é particularmente difícil na nossa sociedade, em que se está a perder a arte de interagir com pessoas que pensam de forma diferente.
A conversa é um modo privilegiado de anunciar Jesus. Ele próprio é o diálogo de Deus com a humanidade. Jesus era um homem da conversa, principalmente com as pessoas difíceis. A primeira pergunta que podemos fazer-nos é: com quem falar enquanto caminhamos pela estrada da vida? Quem são as pessoas que fogem da Igreja com as quais podemos caminhar?

A terceira prioridade, enfim, é a recuperação de uma espiritualidade autêntica, não formal ou devocional, mas caracterizada por cooperar com Deus em prol de um bem que é comum.
 
Fernando Félix

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