«Vi Maria e José, festivos, numa manhã de esperanças!…» - conto do padre João Aguiar Campos

Vi hoje. Para ser franco não vi mesmo. Mas, francamente, foi mesmo como se visse!…

Vi Maria a entrar na oficina de José, a encostar-se na ombreira da porta e parar ali durante uns segundos. Tantos quantos José tardou a perguntar: 
— Mas quem vem agora tirar-me a luz?

Riram ambos. Depois José suspendeu o trabalho, foi pegar-lhe na mão, com uma recomendação:   
— Já te disse que não gosto que andes descuidada por aqui. Sabes que isto não é um primor de arrumação e, nesse estado, podes cair!

Sentou Maria num banco seguro e sentou-se também, de mão e olhos dados e coração nas palavras.
— Então, que vieste fazer?

— Precisava de estender as pernas e erguer as costas. E vim, se não embaraço.

— Embaraçar? Oh valha-te Deus… Por mim estavas aqui sempre. Sentavas-te aí e ias dando uns palpites!… Mas que estavas a fazer?…

— Uma túnica.

— Uma túnica? Então vou ter prenda!

— Querias.!… É para Jesus. Mas depois faço-te uma para estreares para o ano, na subida a Jerusalém… E tu?

— Eu estou a fazer um berço, também para o nosso filho!

Vi. Para ser franco não vi mesmo. Mas, francamente, foi mesmo como se visse!…

Vi María a sorrir, enlevada, a afastar um cabelo suado da testa de José e a dizer: 
— Gosto tanto de te ouvir dizer “nosso filho”. É que tens música na voz!…

— Nosso, Maria, nosso. Porque tu acolheste-o no teu corpo, mas eu também o gerei no meu coração, naquela noite da explicação de Deus!… Nosso, Maria, nosso!

— Sabes uma coisa, José?… Na manhã dessa noite, quando apareceste em minha casa, soube que nenhuma mulher foi ou seria amada como eu. Porque soube que estavas disposto a morrer para que eu não morresse, a ser caluniado para não me condenares, a confiar acima das evidências e da dor!… Meu querido e sofrido José!…

— E feliz José, também. Podes crer. Mesmo que dobrado ao peso da confiança de Deus!… Como foi Ele escolher-me para cuidar de ti e do Filho do Altíssimo?!…

Vi. Para ser franco não vi mesmo. Mas, francamente, foi mesmo como se visse!…

Vi Maria e José ficarem absortos, de olhos na porta da carpintaria, como se procurassem para além da luz. Depois José voltou a falar:
— Como o educaremos? Como lhe falaremos?…

— Como somos. Com os olhos e, sobretudo, com o coração. Sim, com o coração, donde hão-de brotar as palavras e os gestos que ouvirmos!…

— Com o coração!… És tão lúcida, Maria, minha querida Maria!… Tão lúcida!… Sim, o coração é o sítio certo da escuta e da contemplação!…

— Vês? Falas que nem um escriba!…

— Goza, goza!…

José estendeu a perna direita, tocou levemente o berço em construção e fê-lo balançar durante uns segundos. Maria acompanhou o movimento com uma canção de embalar .

Vi. Para ser franco não vi mesmo. Mas, francamente, foi mesmo como se visse!…

Vi José poisar a mão no ventre de Maria.
— E ele está bem?

— Nas suas sete quintas: quentinho, comidinha a horas e, quase ao ouvido, o meu coração a bater “amamos-te, amamos-te, amamos-te!…”

— Esperamos-te, esperamos-te, esperamos-te!… E, agora, Maria, vou acabar o berço. Tem de estar pronto a tempo e horas…

— José, no tempo, nas horas e nos sítios de Deus!…

— Não sei bem o que queres dizer, mas sim. Falas que nem um escriba!…

— Agora digo eu; goza, goza!

Uma gargalhada, uma franca gargalhada encheu a carpintaria.

Vi. Para ser franco não vi mesmo. Mas, francamente, foi mesmo como se visse.

Vi Maria e José, festivos, numa manhã de esperança!…

João Aguiar Campos, presbítero, em Facebook

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