O Evangelho segundo São João ( Jo 2, 1-11): as Bodas de Caná, dá-nos um texto extremamente
simbólico, muito típico de João.
O casamento foi,
desde Oseias, o sinal mais usado pelos profetas para designar a aliança de Deus
com o seu povo. A ideia de Deus como noivo e o povo como noiva é repetida
várias vezes no Antigo Testamento (AT). O casamento está inseparavelmente ligado à ideia de um
banquete, que é símbolo dos tempos messiânicos.
E o vinho era um elemento inseparável do banquete. No AT
era um sinal do amor de Deus ao seu povo. A abundância de vinho era o melhor
sinal das graças de Deus.
A mulher é um
mistério nesta história. Maria não trata Jesus por filho, nem Jesus lhe chama Mãe.
Maria representa o povo fiel que espera o Messias.
O vinho é um símbolo de amor entre marido e mulher.
No casamento, símbolo
da Antiga Aliança, perdeu-se a relação de amor entre Deus e o povo: falta o
vinho. A Mãe, ao pertencer ao casamento, percebe a falta. Dirige-se ao Messias,
que cumprirá as promessas. O primeiro passo é mostrar-lhe a falta: «Eles não
têm vinho.» O reparo não é endereçado ao presidente da festa, nem ao noivo. Ela
dirige-se a Jesus, que é o único que pode trazer a salvação que Israel precisa
e espera.
A hora. Jesus
convida a mulher/mãe a concentrar-se na hora para a qual Ele veio. O
evangelista João refere-se à "hora da cruz”. O vinho novo depende dessa
hora.
"Façam o que Ele lhes disser"
Somente no contexto da Aliança se entende o peso, o significado da frase. O
povo no Sinai havia dito a Deus, por meio de Moisés, a mesma frase: «Faremos
tudo o que o Senhor disser.» Ou seja, o segredo dos relacionamentos com Deus é
descobrir a sua vontade e cumpri-la.
Os potes estavam
lá, imóveis. O número 6 é um sinal de incompletude. O número da perfeição é o
7. É o número das festas que este Evangelho narra. A sétima será a Páscoa.
A água transforma-se em vinho
nos jarros que os empregados levam. «Eles tiraram a água», lemos. Deus atua
connosco em caminho, pondo em prática o que Ele solicita.
O vinho novo e bom transforma o interior do homem. Só depois de
beber é que o mordomo percebe como é bom. Esta é a presença de Deus dentro de cada
um de nós.
O mestre-de-sala reconhece que o vinho novo é superior ao anterior.
Mas parece-lhe irracional que o novo seja melhor que o antigo; o v velho deve
ser sempre o melhor. Essa atitude foi o que impediu os líderes religiosos de
aceitar a mensagem de Jesus. Para eles, a situação passada já era definitiva.
O último versículo é a chave para a interpretação de toda a
história. Ele fala do "primeiro sinal"
de uma série que se desdobrará ao longo do Evangelho. Além disso, como sinal,
servirá de protótipo e guia de interpretação para quem o seguir. O objetivo de
todos os sinais é sempre o mesmo: manifestar "a sua glória". Já
sabemos que a única glória que Jesus admite é o amor de Deus manifestado Nele.
A glória de Deus consiste na nova relação com o homem, tornando-o filho, capaz
de amar como Ele ama.
Deus manifesta-Se em todos os eventos da vida. Deus não quer
que desistamos de nada que seja verdadeiramente humano. Deus quer que vivamos o
divino no que é quotidiano e normal. Quando descobrirmos Deus dentro de nós,
poderemos experimentar imensa alegria.
Fray Marcos, Fé Adulta
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