Afinal, o Natal a 25 de dezembro não é a cristianização da festa pagã Natale Solis invicti

Este é o presépio mais antigo da História. Está nas Catacumbas de Priscila, em Roma. O estuque remonta ao século III.

É um facto assumido entre os teólogos, biblistas e liturgistas que a data exata do nascimento de Jesus é desconhecida, e que o dia 25 de dezembro, longe de assinalar a data histórica do nascimento do Salvador é, essencialmente, uma “data litúrgica”.
 
Todavia, há uma base histórica para essa data, que corrige a versão amplamente difundida de que a Igreja teria cristianizado o festival pagão Natal Solis invicti.

 
Com a descoberta dos manuscritos do Mar Morto e as investigações subsequentes, o Livro dos Jubileus comprovou uma antiga tradição da Igreja, datada do século I, que é a celebração da Anunciação do Anjo a Zacarias, a 23 de setembro, e a do nascimento de João Batista a 24 de Junho.
 
De facto, por este manuscrito ficamos a saber que a semana em que entravam de serviço, no Templo, os Sacerdotes da classe de Abias, à qual pertencia Zacarias, tinha o seu início a 23 de setembro e terminava a 30 do mesmo mês. Foi neste turno que o anjo anunciou a Zacarias que Isabel, sua esposa, estava grávida. Acrescentando nove meses, temos, então, o 24 de junho como o dia do nascimento de João, que seria conhecido como o Batista.
 
Pelo Evangelho segundo São Lucas, sabemos, que logo após a anunciação do Anjo a Maria de Nazaré, de que conceberia e daria à luz a Jesus, Filho do Altíssimo, ela foi «à pressa» auxiliar a sua prima Santa Isabel, que estava grávida de seis meses – «Já está no sexto mês aquela que é tida por estéril (Lc 1, 37), que vivia a três dias de jornada.
 
Ora, seis meses depois da última semana de setembro – data da conceção de Isabel – é a última semana de março. E a Igreja celebra a Encarnação de Jesus, Deus Filho, acontecida aquando da Anunciação do Anjo, por virtude do Espírito Santo, a 25 de março. E o 25 de dezembro é nove meses depois de 25 de Março. 
 
A datação a partir dos manuscritos de Qumran
A partir dos estudos que o especialista Shemarjahu Talmon, da Universidade Hebraica de Jerusalém, realizou sobre os célebres “Escritos dos Mar Morto” ou de Qumran, publicados já em 1958, outro estudioso, Antonio Ammassari, conseguiu determinar, em 1992, quais eram as datas do célebre “turno de Abias”, de que Zacarias, pai de João Baptista, fazia parte (Lc 1,5): os sacerdotes deste grupo encontravam-se ao serviço do Templo de Jerusalém de 8 a 14 do terceiro mês do calendário, e de 24 a 30 do oitavo mês. Ora, de acordo com o calendário solar (usado no tempo de Jesus pelos essénios de Qumran), este segundo tempo de serviço sacerdotal correspondia aos últimos dez dias do nosso mês de Setembro. Assim, é perfeitamente possível que a festa oriental do anúncio a Zacarias (23 de Setembro) não seja uma mera celebração “litúrgica” ou “teológica”, mas o fruto de uma memória que as primeiras comunidades cristãs tinham ciosamente guardado, e depois festejaram liturgicamente. Assim sendo, o Anúncio feito à Virgem Maria, que S. Lucas coloca no sexto mês posterior à conceção do Baptista (Lc 1,26) teria efetivamente ocorrido a 25 de março; o nascimento de S. João ter-se-ia dado muito plausivelmente a 24 de junho, e o de Jesus, a 25 de dezembro. Deste modo, ao contrário do que se pensa, a celebração do Natal do Senhor é a memória de uma data histórica, festejada pelos primeiros cristãos desde os primórdios do cristianismo.
 
Com efeito, de acordo com o investigador, biblista e teólogo italiano, Tommaso Federici, “devemos tomar a sério, ao contrário do que habitualmente se faz, a incrível memória das comunidades cristãs no que toca aos acontecimentos evangélicos e aos lugares onde os mesmos tiveram lugar”. Desta forma, os achados arqueológicos em Nazaré e em Belém conduzem à confirmação dos dados evangélicos e à certeza da localização dos acontecimentos.
 
O mesmo devemos, portanto, afirmar dos dados cronológicos: “as Igrejas – afirma aquele estudioso – conservaram ininterruptamente a memória dos acontecimentos, e quando os celebraram liturgicamente não fizeram mais que sancionar um uso imemorial da devoção popular”. Por isso mesmo, as grandes festas do Senhor e da Virgem Maria são praticamente todas provenientes da Palestina, tendo depois sido aceites nas comunidades espalhadas um pouco por todo o Império Romano, não sem que antes se fizessem prévias verificações sobre a sua verdade. Devemos, aliás, reconhecer, afirma Tommaso Federici, que “os nossos antepassados na fé não acreditavam logo em tudo os que se lhes dizia, mas eram, pelo contrário, justamente desconfiados, recusando várias vezes qualquer tentativa ilícita e ilegítima de culto não provado”.

O primeiro atestado do Natal está contido no calendário mais antigo da Igreja de Roma, o Cronógrafo Romano, de 354: «No dia 25 de dezembro, Cristo nasceu em Belém da Judeia.» 

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