não se cansam da pessoa que somos
perdoam falhas e deslizes, ingenuidades e ignorâncias, limitações e fragilidades;
não se saturam dos nossos caprichos e contornam-nos as obstinações
que, mesmo achando-nos aqui e ali maçadores, sabem e conseguem pacientemente condescender
não se fatigam com as fúrias, ais e desabafos que vamos tendo
toleram defeitos e involuntárias incorreções
perdoam omissões
consentem erros, incompetências e imperfeições.
Os amigos (raros) que o são
determinam-se na amizade tão-só com a condição de não serem "decretadas" condições...
Os amigos (raros) que o são
riem e choram connosco
com os seus risos atenuam-nos a aridez dos dias, e com as suas lágrimas comprovam partilharem do ombro disponibilizado
permutam méritos e excelências, mas também lapsos e insuficiências
corrigem e ensinam-nos
alertam e protegem-nos
fazem da afetividade um lema diário, e da permanente entrega um ideal renovado
não se poupam em aceitarem desculpas, mas igualmente não se inibem na exigência
mostram e afirmam-se-nos constantemente disponíveis
tornam-se cúmplices, e não esperam pela troca de favores
optam pela frontalidade e abominam as subtilezas comportamentais
zangam-se abertamente, e ajudam-nos sem assumirem a expressão cansada e vitimada do sacrifício
não exercem a inveja, antes exultam com os êxitos que nos possam caber no calvário dos dias
adivinham-nos as necessidades, e magnânimos adiantam-se ao previsível chamamento duma hora crítica
não atendem às clivagens, sejam elas de temperamento, sociopolíticas ou de cariz económico-financeiro.
Os amigos (raros) que o são
estão por que estão, gostam por que gostam, não se distanciam nem nos abandonam
são de determinada maneira porque o são, e se nos ralham fazem-no com ternura, e são capazes de nos elogiarem com a ira de não termos conseguido ser ainda melhores
não intervalam as visitas ou os simples telefonemas, menos ainda os gestos solidários
não estabelecem interregnos no fervor do acompanhamento, nem na vivacidade de uma salutar dedicação, porém jamais invadindo o espaço de privação e liberdade
não alimentam fricções de género, crença ou de quaisquer demais convencionalismos (tantas vezes preconceituosas e artificialmente instituídas)...
Se a vida traz lições, e estas nos fornecem combustíveis de equilíbrio e lucidez, uma delas será, com toda a certeza, termos ganho o discernimento para sabermos separar os "apenas-capazes-das-curvaturas-vertebrais" perante o interesse imediato, desses outros - os indefetíveis (que "tão-poucos-poucos-são!)" -, mas que nos sorriem sem mácula, com espontaneidade e verdade.
Severino Moreira, em Facebook
(figura popular em Lisboa, onde faz de Pai-Natal)
Comentários
Enviar um comentário