«O “Espírito solteiro” de Gn 1, que paira divinamente solitário sobre as águas, reaparece “casado” em Ap 22,17… Mais palavras para quê? Deus casou!»
Estou de acordo consigo, amigo leitor, ao pensar que, se calhar, era possível encontrar um título menos chocante. Admito que sim.
Permita-me, entretanto, insistir nesta ideia, neste tempo tão urgentemente necessitado de gente de fé, “sem religião”, dessa que mata e mancha as mãos de sangue, de todas as religiões… simplesmente, ou estupidamente, porque todos, mais ou menos, pensamos que Deus tem uma religião…
Todos, mais ou menos, pensamos que Deus tem uma religião
A ser assim, e se assim fosse, Deus não seria mais do que um “Narciso” insuportável cheio de si, adorando-se a si mesmo, exactamente ao nosso jeito, exactamente como nós, feito à “nossa imagem e semelhança”… Narcisos, pedantes, vaidosos, “peneirentos”, “talibans”… (Onde é que eu já me vi nisto?)
Ora vejamos, assim só cá para nós que ninguém nos ouve, qual é a sua opinião? Qual é a religião de Deus?
Perdoe-me a veleidade de o incomodar a este propósito… mas acho que é importante ter ideias “claras” sobre isto. Um dos dramas que aflige o nosso tempo, tal como afligiu tantos outros tempos antes do nosso, é precisamente este.
Assim de repente, e em linguagem pobrezinha, olhando “de fora” parece que
os cristãos pensam que Deus é cristão,
que os judeus imaginam que Deus é judeu,
que os muçulmanos acreditam que Deus é muçulmano… (isto só para falar nas religiões monoteístas)
e não saímos disto…
muito diálogo…
muito diálogo…
(ou então não…),
mas não deixamos de lado este mistério da pescadinha de rabo na boca… só que as mordidelas as vamos dando uns aos outros, o mais possível dentro do que consideramos politicamente correcto, que muitas vezes mais não é do que o extremar das posições de cada um:
– Deus pensa como digo eu… se te quiseres aproximar… converte-te a mim…
nesta espécie de convivência musculada… que mais não consegue fazer do que enviar anti-sinais a um mundo que cada vez mais está farto de nos aturar a nós e às nossas birras de gente “de religião” e que nós, carimbamos de “secularizados”… Brilhante!
Deus casou! Casou com toda a humanidade
Vamos à Bíblia. Vamos ver o fio condutor de toda a Escritura, como nos pode ajudar a perceber que também aqui, como sempre, a lógica de Deus vai ao arrepio e em contra-pêlo das nossas idiossincrasias bacocas…
Vamos à Bíblia. Vamos ver o fio condutor de toda a Escritura, como nos pode ajudar a perceber que também aqui, como sempre, a lógica de Deus vai ao arrepio e em contra-pêlo das nossas idiossincrasias bacocas…
Vamos a Gn 1,2 e a Ap 22,17. Não é preciso ir mais longe… vamos “simplesmente” ao Princípio (Génesis) e ao Fim (Apocalipse). O “Espírito solteiro” de Gn 1, que paira divinamente solitário sobre as águas, reaparece “casado” em Ap 22,17… Mais palavras para quê? Deus casou!
O que temos é dificuldade em identificar é a “noiva”, a “esposa”, como “virgens loucas” corremos a gritar “a legítima sou eu…”!
De novo, aqui, a nossa pescadinha a morder a cauda…
... não entendemos que Deus “casou” com a criação inteira, com a humanidade inteira, – até com os católicos… – não cabe nas fronteiras apertadas de nenhuma religião, de nenhuma filosofia, de nenhuma teologia…
Deus é poligâmico, não é “monótono”! Casou com a humanidade, “converteu-se” a nós!
Frei Fernando Ventura, franciscano capuchinho, em Facebook
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