1. Existe um Deus que é o conjunto de tudo quanto apercebemos no Universo. Tudo o que existe contém Deus, Deus contém tudo o que existe. Pode-se, sem blasfémia, considerar o aspecto imanente ou o aspecto transcendente de Deus; pode-se, sem blasfémia, falar não de Deus mas apenas do Universo, com Espírito e Matéria, formando um todo indissolúvel.
A doutrina de Deus, tal como a pôs
Cristo, permite considerar todas as religiões como boas embora em graus
diferentes, todos os homens como religiosos. Não poderá, portanto, fazer-se em nome
de Deus qualquer perseguição: todo o homem é livre para examinar e escolher; a
maior ou menor capacidade de exame e o resultado da escolha serão, em qualquer
caso, a expressão do que ele é e do máximo a que pode chegar segundo as suas
capacidades.
2. A visão mais alta que podemos ter de
Deus, nós que somos apenas uma parte do Universo, é uma visão de Inteligência e
de Amor; os pecados fundamentais que o homem poderá cometer são as limitações
da Inteligência ou do Amor: toda a doutrina estreita, sem tolerância e sem
compreensão da variedade do mundo, toda a ignorância voluntária, todo o
impedimento posto ao progresso intelectual da humanidade, toda a violência,
todo o ódio, limitam o nosso espírito e o dos outros, impedem que sintamos a
grandeza, a universalidade de Deus.
3. Deus não exige de nós nenhum culto;
prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo,
quando desenvolvemos a nossa Inteligência e o nosso Amor:
um laboratório, uma
biblioteca são templos de Deus;
uma escola é um templo de Deus;
uma oficina é
um templo de Deus;
um homem é um templo de Deus, e o mais belo de todos.
Todos
podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de
Amor; e praticamos o mais elevado dos cultos a Deus quando propagamos a
cultura, o que significa o derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao
Espírito.
Estão ainda longe de Deus, de uma visão ampla de Deus, os que fazem
consistir o seu culto em palavras e ritos; mas dos que subirem mais alto não
pode haver outra atitude senão a de os ajudar a transpor o longo caminho que
ainda têm diante.
Ninguém reprovará o seu irmão por ele ser o que é; mas com
paciência e persistência, com inteligência e com amor, procurará levá-lo ao
nível mais alto.
4. Para que possa compreender Deus, para
que possa, melhorando-se, melhorar também os outros, o homem precisa de ser
livre; as liberdades essenciais são três:
liberdade de cultura,
liberdade de
organização social,
liberdade económica.
Pela liberdade de cultura, o homem
poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe
fechará nenhum domínio, ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver
aprendido ou pensado.
Pela liberdade de organização social, o homem intervém no
arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez
mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para o bom
governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma
escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos
regimes possíveis.
Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para
que o seu espírito se liberte de preocupações materiais e possa dedicar-se ao
que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro
homem; ninguém deve, pela posse dos meios de produção e de transporte, que
permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito ou a liberdade de
Espírito dos outros.
No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não
haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma coacção de governo, nenhuma
propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno
de todos.
(“Doutrina Cristã”, Lisboa: Edição do
autor, 1943; in “Textos e Ensaios Filosóficos I”, org. Paulo A.E. Borges, Lisboa:
Âncora Editora, 1999 – págs. 81-82)
Ilustração: Caricatura do escritor português Agostinho da Silva na estação do Aeroporto do metro de Lisboa, Portugal
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