Homenagem ao padre Bastos, pároco de Ovar, grande exemplo de fraternidade com o povo

O P.e Manuel Pires Bastos, natural de Loureiro, falecido a 9 de novembro de 2020, com 85 anos, vitima de covid-19. Era pároco de Ovar. Foi um grande exemplo de fraternidade com o povo. Quero associar-me à homenagem que Ovar lhe presta.

Ele era um judeu rico!... Pertencia à classe dominante.... Eu vi-o....

Tinha sido assaltado, ferido, e abandonado pelos ladrões na valeta do caminho onde gemia moribundo... Passavam desumanamente indiferentes os poderosos judeus: os políticos do tempo e os orgulhosos e coquetes ricos de todos os tempos!...Passavam sem se deterem a olhar aquele judeu agonizante, insensíveis a quem ali gemia num intraduzível tormento!....

Ajoelhado, junto do judeu, vi também, debruçado no lodo da valeta, um samaritano a levantá-lo para lhe curar as feridas. Os judeus eram inimigos dos samaritanos... Mas tu, querido Padre BASTOS, descobriste «o Nazareno» nesse judeu! E partilhaste com Ele as mesmas dores! Esse Nazareno também foi espancado, cuspido, morto e crucificado!.... Ninguém O sentiu como tu! E foi Ele que te ensinou a perdoar a todos, mesmo aos inimigos, e a seres a presença afetiva junto dos sozinhos!... Foi diante d`Ele que te ajoelhaste para lhe curar as feridas!....

Eu reconheci quem estava ali a curar o Nazareno... ajoelhado, a ajudar quem gemia: eras tu, querido Padre Bastos! Eras tu mesmo. Eu vi-te... e ouvi contigo os lamentos desse judeu agredido!... Tu foste a verdadeira Igreja, a que vai aos sujos quelhos à procura dos extraviados, dos perseguidos, dos marginalizados, dos próprios inimigos, dos sem pão nem afetos, dos que choram, dos que vão morrendo debaixo das pontes, sem ninguém ao lado!... Se a Igreja apenas esperar que a procurem, não é Igreja... Pode até ser uma cruz; mas sem Cristo e sem uns braços abertos...Mas Igreja não é!...
 
Eras tu, Padre Bastos,
ali de joelhos, tu que sempre abraçaste quem nunca soube amar nem ser amado, ou quem tinha vergonha da sua própria miséria e a escondia. Eras tu que estavas ali... Eu bem te vi debruçado diante do judeu ferido... A tua missão foi sempre assim: deixares de seres tu para seres os «outros» e repartir com eles pedaços do teu coração e da tua vida... Fica na tua história essa presença amiga, carinhosa, desinteressada: Choraste com os que choravam, mas cantaste com os que cantavam; tu eras «eles»... E eras deles, como eles eram teus!...Obstáculos pelo caminho? Sempre os haverá, mas tu fizeste como as águas do rio quando um pedregulho se atravessa na sua frente: passaste ao lado e continuaste a viagem da tua doação aos rejeitados da sociedade...

Eu continuo agora a ver-te nas ruas a cruzar teus olhares com quem já nem sabe olhar um futuro com esperança. És o Nazareno a caminhar ao lado dos homens, e com eles...Tu não morreste, Padre Bastos; tu continuas vivo a dar Vida a quem dela precisa. Tu abriste o caminho, desde o humano até ao Divino, para nos mostrares os pouco trilhados caminhos do Amor! Sentiste o apelo do Nazareno que, incarnando, já tinha aberto o caminho desde o Divino até ao humano para nos conduzir até Ele, com o olhar sempre em frente...

Foi Saint-Exupéry que escreveu que «Amar não consiste em olhar um para o outro, mas em caminhar unidos na mesma direção.» Eu quero caminhar nessa direção, porque aprendi contigo a viver o AMOR!...

Grande Mestre, Padre Bastos!...Obrigado por mim e por todos estes teus amigos!
 
Obrigado, Padre Bastos!...

Texto: Manuel Paiva
Foto: Paróquia de São Cristóvão de Ovar 

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