Mataram os seus pais e irmãos, e ele perdoou: «Fui salvo pela Palavra de Deus.»

O padre Laurent Rutinduka perdeu quase toda a sua família – o pai, a mãe e sete irmãos – durante a primeira semana do genocídio no Ruanda, em 1994.
 
Ele, que é missionário no Instituto dos Sagrados Corações (fundado em França, pelo padre Júlio Chevalier, em 1854), recorda que em três meses, entre abril e julho de 1994, «guerrilheiros radicais da tribo hutu mataram quase todos os tutsis do país». Mas o padre Laurent insiste que eram «extremistas», e que «muitos hutus não têm qualquer problema connosco, os tutsis».
 
Massacre «família por família»
«As milícias hutu radicais começaram a massacrar os tutsis sistematicamente, família por família e área por área», recorda. No dia 7 de abril de 1994, mataram o seu pai. Ele estava no seu último ano de seminário no sul do Ruanda. Só lhe faltava um ano para ser ordenado padre.
 
A sua mãe e oito dos seus nove irmãos refugiaram-se no seminário. O nono irmão tinha deixado o país algum tempo antes. No dia 11 de abril, porque os missionários tinham partido do país, os radicais hutus atacaram o complexo paroquial. Mataram a sua mãe e sete dos seus irmãos. Só um conseguiu escapar.
 
Assim que a violência eclodiu, bispos, padres e freiras também foram mortos.
 
E ele foi para Espanha e, depois, Santo Domingo, para completar a sua formação em Teologia.
 
«Paralisado pela dor»
O padre Laurent Rutinduka admite que durante algum tempo esteve «paralisado pelo luto». Não só tinha perdido quase toda a sua família, mas também «os amigos de infância, os professores».
 
Após regressar ao Ruanda e ser ordenado padre, começou a trabalhar com crianças pobres, órfãos e viúvas que foram vítimas de violência. «Dei por mim como médico ferido, que tem de cuidar dos doentes quando ele próprio ainda tem uma ferida aberta.»
 
Para ultrapassar o dilema do mal e da maldade, a primeira coisa que o ajudou foi olhar para História da humanidade: «A escravatura, o que tinha acontecido aos judeus, o racismo na América, Martin Luther King...» Isso ajudou-o a aceitar uma dor tão forte.
 
Mas «o que me salvou foi a Palavra de Deus, rezando e escrevendo», diz. Seguindo o modo de pensar, sentir e viver da sua congregação, concentrou-se nos corações de Jesus e Maria: «Assim como Maria perdoou aqueles que mataram o seu filho Jesus e assim como Ele próprio foi morto quando veio com a missão de nos salvar, do mesmo modo, pouco a pouco, recebi a força do Espírito Santo para perdoar.»
 
Perdoar os que mataram a sua família
O padre Laurent Rutinduka sabe quem foram os carrascos dos seus pais e irmãos. Acontecia, porém, que as famílias deles estavam com ele na igreja. As mães e os filhos deles eram inocentes. Alguns deles pediram-me perdão em nome do marido ou dos filhos. «Sabemos o que o meu pai fez», disseram-lhe as crianças, chorando. Então, para promover a reconciliação, o padre Laurent decidiu visitar os milicianos radicais na prisão.
 
Desta forma, começou também a pregar e a promover o perdão. Nas paróquias que visitou no seu país, constituiu grupos de sobreviventes. «É difícil, é um processo lento e progressivo», adverte ele. Mas tece elogios à Igreja, que «tem trabalhado muito no campo da reconciliação», e aos governantes: «Temos um governo forte e o Ruanda é um país emergente.»
 
Ele está consciente: «Não é que tenhamos chegado à reconciliação, estamos a caminho.» E lamenta: «Há quem não escute o nosso discurso e viva no seu extremismo.» Mas assegura: «Estamos a trabalhar.»
 
«Na sociedade, precisamos sempre de perdão.»
Não é só no seu país natal que o padre Laurent promove o perdão e a reconciliação. Em Espanha, onde também faz missão, acompanha casais que vivem em conflito, fala com eles sobre o perdão. «Na sociedade, precisamos sempre de perdão», preconiza.

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