«Nós que conhecemos a guerra, imploramos: Por favor: não façam isso!» - apelo de 60 meninas de Bukavu, RD Congo, à Rússia e Ucrânia
Sessenta meninas de Bukavu, capital do Kivu do Sul, República
Democrática do Congo, lançam um apelo para que não irrompa uma guerra na
Ucrânia.
«Nós, os jovens de Bukavu, República Democrática do Congo, geração da guerra, sofremos muitas desgraças e traumas por causa disso. É por isso que pedimos que não comecem a guerra. Alguém escreveu: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra», mas nós dizemos com o Papa Francisco: “Quem quer paz, prepare a paz.”
Os Estados que fazem a guerra, as multinacionais que produzem armas e buscam a todo o custo a riqueza de outro país não sofrerão, ficarão ricos, mas são os pobres que sofrem; somos nós, os jovens, que sofremos. Quem quiser a guerra, pergunte-nos o que nós congoleses estamos a passar hoje, nós que conhecemos a guerra.
Não há um tesouro escondido na guerra. Com a guerra perdemos os nossos pais, irmãos e irmãs, propriedades e vida. Durante a guerra, perdemos muitos dos nossos avós que talvez hoje pudessem contar-nos sobre sua vida passada e ensinar-nos como comportar-nos na vida.
Na guerra, mais de dez pessoas são enterradas na mesma cova, como se fossem fertilizantes. As mulheres ficam viúvas, os homens viúvos; as crianças ficam órfãs; pais perdem os seus filhos. Muitas crianças nunca conheceram a sua família; desabrigados, moram na rua e nunca foram à escola.
A guerra desestabiliza a sociedade, traz fome e miséria, humilha as pessoas, atropela a dignidade humana, não permite que as pessoas trabalhem e descansem nem de dia nem de noite, impede o progresso, danifica num instante recursos vitais duramente conquistados, traz o retrocesso em todas as áreas: espiritual, intelectual, moral, material...
A guerra traz desordem e destrói o meio ambiente: as bombas poluem o ar e trazem-nos doenças. As escolas fecham, as viagens são impedidas, os centros de saúde são destruídos, o país torna-se inabitável. As pessoas fogem aos milhares para viver miseravelmente num país vizinho, e, às vezes, rebelam-se contra quem as acolheu e a guerra espalha-se.
A guerra traumatiza as pessoas desde o útero. Aqueles que sobrevivem têm grandes feridas internas e muitas vezes são mentalmente, fisicamente ou mentalmente deficientes. A violência contra as mulheres à frente dos seus filhos e maridos é uma ferida que nunca cicatriza. As gravidezes indesejadas estão a aumentar, assim como a multidão de crianças abandonadas na rua.
A guerra divide-nos, fere o coração das pessoas e traz calúnias, ciúmes, negligência, vingança e discórdia. E a pessoa vai sentir-se culpada pelo resto da vida, chegando mesmo a enlouquecer. A guerra extermina os jovens, o mundo de amanhã. Na guerra, os soldados procuram jovens para levá-los para a floresta e transformá-los em rebeldes. A guerra deixa desemprego e hábitos de violência: assassinato, violações, roubo... A vida parece inútil para muitos. As crianças nascem, crescem e envelhecem na guerra e é por isso que a guerra se tornou um legado de geração em geração.
A guerra distancia-nos de Deus, porque não respeitamos a obra da sua criação nem o seu projeto de amor e fraternidade entre os seres humanos. Somos todos filhos do mesmo Pai: se soubéssemos o valor da nossa existência, não ousávamos derramar o sangue de outro ser humano. Que espírito é esse que leva o homem a guerrear contra outro homem? Aqueles que um dia fizerem a guerra pagarão pelo sangue dos povos derramados e pelos bens dos povos que roubaram. Seremos julgados por qualquer provocação de guerra. Até o animal hoje se tornou mais sábio que o homem.
A guerra não é uma solução para os problemas, mas problemas dentro de problemas. Depois da guerra há sofrimento, arrependimento. Na guerra, nada se ganha, pelo contrário, há sempre perdas irrecuperáveis. Amor, escuta e diálogo, esta é a verdadeira forma de resolver conflitos!
Nós vos imploramos, pelo amor de Deus, nosso Criador, que sabe o número dos nossos cabelos, tentem reconciliar-se, esqueçam o que os divide, deponham as armas. Existem várias maneiras de se comprometer sem ir à guerra. Somos irmãos: porque magoar-nos por causa deste mundo que passará? Esta terra não nos pertence: mais tarde ou mais cedo vamos deixá-la. Tomemos consciência do dom precioso que Deus nos deu: a vida!
Devemos ser “todos irmãos”, como diz o Papa Francisco. Para combater todos os desafios da humanidade, como a pandemia, os desastres naturais, devemos caminhar juntos. Vivamos na justiça, aquela que nos fará ver o outro como um irmão, uma irmã para amar, para caminhar e conviver. Queremos conhecer a alegria, a paz, a justiça, a fraternidade. Queremos construir um novo mundo! Que a paz reine neste ano de 2022 em Bukavu e em todo o mundo. Que a Virgem Maria interceda por nós”.
Carta enviada à Agência Fides
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