O que pode cada um de nós fazer para curar um pouco a coexistência social tão danificada?

A advertência de Jesus é fácil de entender: «Não há árvore boa que dê mau fruto, nem árvore má que dê bom fruto. Cada árvore conhece-se pelo seu fruto: não se colhem figos dos espinheiros, nem se apanham uvas das silvas. O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, da sua maldade tira o mal; pois a boca fala do que transborda do coração» (Evangelho segundo São Lucas 6, 39-45).
 
Numa sociedade danificada por tantas injustiças e abusos, onde crescem as "silvas" de interesses e rivalidades mútuas, e onde brotam tantos "espinhos" de ódio, discórdia e agressividade, precisamos de pessoas saudáveis que deem outros tipos de frutos. O que pode cada um de nós fazer para curar um pouco da coexistência social tão danificada entre nós?
 
Suavizar
Talvez devêssemos começar por não tornar a vida mais difícil para ninguém do que ela é. Devemos esforçar-nos por tornar a vida, pelo menos uns com os outros, mais humana e suportável. Não envenenar o ambiente com a nossa amargura. Criar diferentes relações no nosso ambiente feitas de confiança, bondade e cordialidade.
 
Acolher
São necessárias pessoas que saibam acolher. Quando acolhemos alguém, estamos a libertar essa(s) pessoa(s) da solidão e a infundir-lhe(s) novas forças para viver. Por mais difícil que seja a situação em que alguém se encontra, se descobrir que não está sozinho e tiver alguém a quem recorrer, a sua esperança será reavivada. Como é importante oferecer refúgio, acolhimento e um ouvido atento a tantas pessoas que foram maltratadas pela vida.
 
Compreender
Devemos também desenvolver muito mais a compreensão. Dizer às pessoas que, por mais graves que sejam os seus erros, encontrarão sempre em nós alguém que os compreenderá. Devemos começar por não desprezar ninguém, mesmo interiormente: não condenar ou julgar precipitadamente. A maioria dos nossos julgamentos e condenações apenas mostram as nossas baixas qualidades humanas.
 
Encorajar
É também importante dar encorajamento àqueles que estão a sofrer. O nosso problema não é que tenhamos problemas, mas que não tenhamos força para os enfrentar. Ao nosso lado há pessoas que sofrem de insegurança, solidão, insucesso, doença, mal-entendidos, incompreensão.... Eles não precisam de receitas para resolver a sua crise. Precisam de alguém que compartilhe o seu sofrimento e ajude a exercitar a força interior que as sustentará.
 
Perdoar
O perdão pode ser outra fonte de esperança na nossa sociedade. As pessoas que não guardam rancores nem alimentam ressentimentos, e sabem perdoar verdadeiramente, semeiam esperança à sua volta. A vida cresce sempre com elas.
 
Não fazer juízos
Não se trata de fechar os nossos olhos ao mal e à injustiça. É simplesmente uma questão de ouvir o lema de Paulo de Tarso: «Não pagueis a ninguém o mal com o mal; interessai-vos pelo que é bom diante de todos» (Carta aos Romanos 12, 17) A forma mais saudável de combater o mal numa sociedade tão danificada como a nossa é fazer o bem «sem pagar a ninguém o mal pelo mal» e «tanto quanto for possível e de nós dependa, «viver em paz com todos» (Carta aos Romanos 12, 18).

José Antonio Pagola, teólogo, em Fé Adulta

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