Palavras do Papa Francisco aos que se preparam para o presbiterado

O Papa Francisco recebeu em audiência um grupo de estudantes de Teologia e dirigiu-lhes algumas palavras:

«Não cultivar nostalgias do passado e fechar-nos à novidade do Espírito, que nos convida a viver o hoje, mas encontrar sinais proféticos para o vosso ministério e para a vossa missão, em particular ao serviço da Igreja e do povo.»

«É necessário abrir-se, alargar o horizonte do ministério às dimensões do mundo, para poder alcançar cada filho, a quem Deus deseja abraçar com o seu amor.»

«Por favor, não permaneçamos barricados na sacristia e não cultivemos pequenos grupos fechados onde podemos aconchegar-nos e ficar tranquilos. Há um mundo à espera do Evangelho, e o Senhor deseja que os seus pastores sejam parecidos com Ele, carregando no coração e nos ombros as expectativas e os fardos do rebanho. Corações abertos, compassivos, misericordiosos.»

«Procurai sacerdotes que sejam misericordiosos com outros, e nós mesmos sejamos misericordiosos com os outros. Assim como queremos misericórdia quando vamos pedir perdão pelos nossos pecados e buscamos o mais misericordioso, que vocês sejam misericordiosos. Com todos.»

«Não se esqueçam que Deus nunca se cansa de perdoar. Somos nós que nos cansamos de pedir perdão, mas Ele nunca se cansa de perdoar. Essa é a grandeza do perdão: não cria problemas. Sem criar problemas: perdão. Corações abertos, compassivos, misericordiosos, e mãos operosas e generosas que se sujam e se ferem por amor, como aquelas de Jesus na cruz. Assim, o ministério torna-se uma bênção de Deus para o mundo.»

«Vocês estudam e se aprofundam, isso é um dom de Deus. Mas que o vosso conhecimento nunca se abstraia da vida e da história.

O Evangelho não precisa de uma Igreja que tem tantas coisas a dizer, mas cujas palavras são desprovidas de unção e não tocam a carne das pessoas. Para ter palavras de vida é preciso dobrar a ciência ao Espírito na oração e depois habitar as situações concretas da Igreja e do mundo. É preciso um testemunho de vida: que vocês sejam sacerdotes ardendo pelo desejo de levar o Evangelho às ruas do mundo, aos bairros e às casas, sobretudo aos lugares mais pobres e esquecidos. Testemunho e gestos.»

«“O que posso oferecer ao Senhor?” é uma boa pergunta, que vocês podem aplicar a tudo o que estão a fazer agora para se prepararem para a sua missão. “O que posso oferecer” é uma pergunta que não gira em torno de vocês, do desejo por essa cátedra, por aquela paróquia, por esse posto na cúria; não, é uma pergunta que nos pede para abrir o coração à disponibilidade e ao serviço. É uma pergunta que nos defende do carreirismo. Cuidado com o carreirismo, por favor! No final não serve, não ajuda.»

«Perguntemo-nos “o que posso oferecer?” no início de cada dia. Sem esquecer que o ponto central é ser Igreja para viver e difundir o Evangelho.»

«Não nos preocupemos com as pequenas hortas de casa, há um mundo inteiro sedento de Cristo. Sejam pastores do rebanho, e não penteadeiras das "preferidas" [melhores]. Exorto-vos a cultivar com entusiasmo nestes anos e nesta cidade, na dimensão universal de Roma, um coração aberto, um coração disponível, um coração missionário!»

«O último ponto o extraio de uma das numerosas encíclicas sociais de Pio XI. Li algumas palavras, escritas há quase um século e ainda assim muito atuais: "É coisa manifesta, como nos nossos tempos não só se amontoam riquezas, mas acumula-se um poder imenso e um verdadeiro despotismo econômico nas mãos de poucos […] Este despotismo torna-se intolerável naqueles que, tendo nas suas mãos o dinheiro, são também senhores absolutos do crédito e por isso dispõem do sangue de que vive toda a economia» (Carta Encíclica Quadragesimo anno, 105-106).

Como é verdadeiro e como é trágico tudo isso agora, quando o desnivelamento entre os poucos ricos e os muitos pobres está a ficar cada vez maior. Nesse contexto de desigualdades, que a pandemia aumentou, vocês encontrar-se-ão a viver e a trabalhar como padres do Concílio Vaticano II, como sinais e instrumentos da comunhão dos homens com Deus e uns com os outros (cf. Lumen gentium, 1).

Portanto, sejam tecelões de comunhão, que erradicam as desigualdades; sejam pastores atentos aos sinais de sofrimento do povo. Inclusive através do conhecimento que estão a adquirir, sejam competentes e corajosos em erguer palavras proféticas em nome daqueles que não têm voz.»

«Grandes tarefas esperam por vocês. Para realizá-las, convido-vos a pedir a Deus para sonhar com a beleza da Igreja. A Igreja é linda! Sonhar com a Igreja do amanhã mais fiel ao espírito do Evangelho, mais livre, mais fraterna e alegre no testemunho de Jesus, animada pelo ardor de alcançar àqueles que não conheceram o “Deus de toda consolação" (2 Cor 1,3).»

«Uma Igreja que cultive uma comunhão mais forte que qualquer distinção e é ainda mais apaixonada pelos pobres, nos quais Jesus está presente.»

Papa Francisco, em Vaticano

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