«A nossa vida, Senhor, corresponda à oferta das nossas mãos: jejum, oração, amizade social, com que damos início à celebração do tempo santo da Quaresma»
Nesta Quaresma não vou fazer oração e jejum por nenhuma nação que queira paz só para si e para os seus. Sim: levantarei as minhas mãos pecadoras e o meu coração contrito pelas vítimas de todos os conflitos do mundo. Principalmente por aqueles que não aparecem na comunicação social, que não produzem dividendos nas bolsas de valores, que não têm a cor da minha pele e que não professam minha religião.
Nesta Quaresma vou pedir também pelos “maus”, os “diabólicos”, que o mundo fez nossos inimigos à força. Elevarei as minhas súplicas por aqueles que nos silenciam, nos atacam e nos perseguem. Pelos que resistem a ser dos “nossos”, ainda que no fim somos irmãos.
Nesta Quaresma vou jejuar de lágrimas piedosas, derramadas diante de vídeos virais e imagens retocadas e alteradas. Vou fazer abstinência (mordendo a língua e calando os meus preconceitos) de condenações apressadas, de consciências acorrentadas e de vozes amordaçadas.
Nesta Quarta-Feira de Cinzas eu queimei-me de raiva, dor e medo quando me impuseram as cinzas - das palmas africanas, de negros rejeitados na estação de refúgio e nas fronteiras, as das culturas arrasadas; as dos incêndios na Amazónia; as dos desaparecidos no México; as dos falecidos nas pandemias; as das aldeias bombardeadas; as dos trabalhadores explorados; as dos migrantes esquecidos; as dos pobres ignorados; as das igrejas caladas; as das cruzes prolongadas. Imponha-me, Senhor, por favor, as cinzas dos crucificados do mundo, esperando o Ressuscitado.
Nesta Quaresma, com esta pandemia e diante de todas as guerras, eu vou abrir o ouvido e o coração a profetas pagãos que me lembrem daquele que costumava gritar: «Acaso o jejum que prefiro não é outro: quebrar as cadeias injustas, desligar as amarras do jugo, tornar livres os que estão detidos, enfim, romper todo tipo de sujeição? Não é repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres e peregrinos? Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne» (Isaías 58,6-7).
«Diante do Senhor teu Deus, dirás as seguintes palavras: ‘Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egipto com poucas pessoas, e aí viveu como estrangeiro até se tornar uma nação grande, forte e numerosa. Mas os egípcios maltrataram-nos, oprimiram-nos e sujeitaram-nos a dura escravidão. Então invocámos o Senhor Deus dos nossos pais e o Senhor ouviu a nossa voz, viu a nossa miséria, o nosso sofrimento e a opressão que nos dominava. O Senhor fez-nos sair do Egipto com mão poderosa e braço estendido, espalhando um grande terror e realizando sinais e prodígios. Conduziu-nos a este lugar e deu-nos esta terra, uma terra onde corre leite e mel. E agora venho trazer-Vos as primícias dos frutos da terra que me destes, Senhor’.» (Leitura do Livro do Deuteronómio 26, 4-10).
As três leituras bíblicas aqui: I Domingo do Advento
P.e Gustavo Covarrubias Rodríguez, missionário comboniano, Facebook
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