Não garanto, mas quase que juro: o pombo vinha lançado, olhos
esbugalhados, na direção da minha sandes de carne assada.
Cruzámos olhares através do muro de Berlim transparente – transparente
como são hoje todos os muros modernos, transparentes, a fingirem que não estão
lá, de modo a fazerem-nos acreditar na possibilidade de que podemos passar
livremente para o outro lado, transparentes e muito limpos, tão limpos que
limpam até a visão da imundice daquilo que está para além deles.
Vi o barulho do embate, e o pescoço torcido pelo murro que o
muro de vidro lhe aplicou – com a hipocrisia enorme que é a dos muros
transparentes.
Atordoado para o resto da sua vida, o pombo – como todos
aqueles que esbarram contra muros de engano, muros espalhados por aí fora e
dentro de nós próprios – deixou-se escorregar até ao chão e rastejou para
debaixo do estrado da esplanada.
Espreitei…
Quando cruzámos de novo olhares, disse-lhe baixinho «que
saísse dali, que o muro não chegava ao céu, que tinha pouco mais de 1,90 metros
e que ele, sim, tinha asas para chegar até além-céu e ainda a possibilidade de
cagar de alto em cima do malvado muro de vidro!
O pombo baixou o olhar – como todos aqueles que deixam de
querer ver para além dos 1,90 metros – e ficou lá escondido, no meio do lixo
escondido debaixo do estrado da esplanada, feito rato com penas, a sonhar que
um dia tinha sido um pombo a voar.
Paula Calheiros Pato, comunicóloga
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