«Para onde levas os que abraças, Senhor Jesus, senão para o teu Coração?

Por causa das minhas mãos, Senhor, que fizeram o que não deviam, as tuas mãos foram trespassadas por cravos e os teus pés, pelos meus pés. 

Pelo desregramento da minha vista, os teus olhos adormeceram na morte, e os teus ouvidos pelo meu ouvido. 

A lança do soldado abriu o teu lado (cf Jo 19, 34) para que por essa tua chaga escorressem todas as impurezas do meu coração há tanto tempo inflamado e corroído pela doença. 

Finalmente,
Tu morreste para que eu vivesse;
foste enterrado para eu poder ressuscitar.

Tal é o doce abraço que dás à tua esposa; tal é o abraço do teu amor.

[...] Esse abraço, recebeu-o o ladrão na cruz, depois da sua confissão (cf Lc 23,42); 

recebeu-o Pedro, quando o seu Senhor olhou para ele enquanto ele O negava, e saiu a chorar (cf Lc 22, 61-62).

Muitos dos que Te crucificaram, convertidos a Ti depois da tua Paixão, fizeram aliança contigo (cf At 2, 41) nesse abraço [...];

quando abraçaste os publicanos e os pecadores, tornaste-Te seu amigo e conviveste com eles (cf Mt 9,10). [...]

Para onde levas os que abraças, Senhor, senão para o teu Coração?

O teu Coração, Jesus, é esse doce manancial da tua divindade que está no teu íntimo, o vaso de ouro da alma, que ultrapassa todo o conhecimento (cf Heb 9,4). 

Bem-aventurados todos aqueles a quem o teu abraço atrai!

Bem-aventurados aqueles que, fugindo para as profundezas, foram escondidos por Ti no segredo do teu coração, aqueles que levas aos ombros, ao abrigo dos males desta vida (cf Sl 31,21).

Bem-aventurados aqueles que não têm outra esperança se não o calor e a proteção das tuas asas (cf Sl 90,4).

A força dos teus ombros protege aqueles que escondes no fundo do teu coração (Lc 13, 34), onde podem dormir tranquilamente. 

Uma doce espera os aguarda nesse abrigo de uma consciência santa, e da expectativa da recompensa que prometeste. A sua fraqueza não os faz desfalecer, nem nenhuma inquietude os faz murmurar (Sl 68, 13).

Guilherme de Saint-Thierry (c. 1085-1148),
monge beneditino, depois cisterciense,
Orações meditativas, n.º 8, 6; SC 324

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