Papa Francisco avisa os “funcionários do sagrado” sem “coração de pastores”, que vivem “em espírito de cruzada”
Fostes o homem da partilha, visitando os doentes,
vestindo os pobres, lutando pela dignidade das populações originárias,
apoiando os missionários cansados,
sempre pronto a estender a mão a quem estava pior do que vós.
Quantas vezes os vossos projetos foram derrubados!
Uma vez e outra voltastes a pô-los de pé.
Compreendestes que a obra de Deus não é de pedra,
e que, nesta terra de desânimo,
havia necessidade dum construtor de esperança.»
O Papa Francisco aproveitou o encontro com bispos, clérigos, seminaristas e pessoas consagradas, durante a oração de Vésperas na Catedral de Notre-Dame, Canadá, para fazer uma dura advertência contra “funcionários do sagrado”, sem “coração de pastores”, que vivem “em espírito de cruzada”:
«Dos presbíteros, isto é, dos «anciãos» falou-nos a Leitura Breve que acabámos de ouvir. Assim nos exortou São Pedro: “Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, governando-o não à força, mas de boa vontade” (1 Ped 5, 2). Enquanto estamos aqui reunidos como Povo de Deus, recordemo-nos de que Jesus é o Pastor da nossa vida, que cuida de nós porque nos ama de verdade. A nós, pastores da Igreja, é pedida esta mesma generosidade no pastoreio do rebanho, para que se possa manifestar a solicitude de Jesus por todos e a sua compaixão pelas feridas de cada um.
E precisamente porque somos sinal de Cristo, o apóstolo Pedro exorta-nos: Apascentai o rebanho, guiai-o, não deixeis que se extravie enquanto vos ocupais dos próprios afazeres. Cuidai dele com dedicação e ternura. E – acrescenta – fazei-o «de boa vontade», e não à força: não como um dever, não como assalariados religiosos ou funcionários do sagrado, mas com coração de pastores, com entusiasmo. Se olharmos mais para Ele, o Bom Pastor, do que para nós mesmos, descobrimos que somos guardados com ternura, sentimos a proximidade de Deus. Daqui nasce a alegria do ministério e, ainda antes, a alegria da fé: não de ver aquilo que somos capazes de fazer, mas de saber que Deus está próximo, que nos amou primeiro e nos acompanha todos os dias.
Esta, irmãos e irmãs, é a nossa alegria: não uma alegria fácil, como aquela que o mundo às vezes nos oferece iludindo-nos com fogos de artifício; esta alegria não está ligada a riquezas nem seguranças; nem sequer está ligada à persuasão de que tudo nos correrá sempre bem na vida, sem cruzes nem problemas. Antes, a alegria cristã está unida a uma experiência de paz, que permanece no coração mesmo quando somos atingidos por dificuldades e aflições, porque sabemos que não estamos sozinhos, mas acompanhados por um Deus que não fica indiferente à nossa sorte. Como quando o mar está agitado: à superfície é tempestuoso, mas em profundidade permanece calmo e tranquilo. Assim é a alegria cristã: um dom gratuito, a certeza de saber que somos amados, sustentados e abraçados por Cristo em cada situação da vida. Porque é Ele que nos liberta do egoísmo e do pecado, da tristeza da solidão, do vazio interior e do medo, dando-nos um olhar novo sobre a vida, um olhar novo sobre a história: «Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 1).
Então podemos interrogar-nos: Como vai a nossa alegria? Como vai a minha alegria? A nossa Igreja expressa a alegria do Evangelho? Nas nossas comunidades, existe uma fé que atrai pela alegria que comunica?
Se quisermos abordar estas questões na sua raiz, não podemos deixar de refletir sobre o que, na realidade do nosso tempo, ameaça a alegria da fé com o risco de a obscurecer, pondo seriamente em crise a experiência cristã. Pensa-se imediatamente na secularização, que já há muito transformou o estilo de vida das mulheres e homens de hoje, deixando Deus quase no último lugar. Parece que Ele desapareceu do horizonte, que a sua Palavra já não se assemelha a uma bússola de orientação para a vida, para as opções fundamentais, para as relações humanas e sociais. Desde já, porém, há que fazer um esclarecimento: quando observamos a cultura em que estamos imersos, as suas linguagens e os seus símbolos, é preciso estarmos atentos para não ficar prisioneiros do pessimismo e do ressentimento, deixando-nos cair em juízos negativos ou em inúteis nostalgias. Com efeito são possíveis dois olhares a respeito do mundo em que vivemos: um, chamá-lo-ia «olhar negativo»; o outro, «olhar que discerne».
O primeiro: o olhar negativo nasce com frequência duma fé que, sentindo-se atacada, considera-se como uma espécie de «armadura» para se defender do mundo. Com amargura, acusa a realidade dizendo: «O mundo é mau, reina o pecado», e assim corre o risco de se revestir dum «espírito de cruzada». Tenhamos cuidado com isto, porque não é cristão; efetivamente não é o modo como atua Deus, o Qual – assim no-lo recorda o Evangelho – «tanto amou o mundo, que lhe entregou o seu Filho unigénito, a fim de que todo o que n’Ele crê não se perca, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16).
O Senhor, que detesta o mundanismo e tem um olhar bom sobre o mundo. Abençoa a nossa vida, bendiz-nos a nós e à nossa realidade, encarna-Se nas situações da história, não para condenar, mas para fazer germinar a semente do Reino precisamente onde parecem triunfar as trevas. Se, pelo contrário, nos detivermos num olhar negativo, acabaremos por negar a encarnação, porque fugiremos da realidade, em vez de nos encarnarmos nela. Fechar-nos-emos em nós mesmos, choraremos as nossas perdas, lamentar-nos-emos continuamente e cairemos na tristeza e no pessimismo: tristeza e pessimismo que nunca vêm de Deus. Em vez disso, somos chamados a ter um olhar semelhante ao de Deus, que sabe distinguir o bem e é obstinado a procurá-lo, vê-lo e alimentá-lo. Não é um olhar ingénuo, mas um olhar que discerne a realidade.
Para afinar o nosso discernimento sobre o mundo secularizado, deixemo-nos inspirar pelo que escreveu São Paulo VI na Evangelii nuntiandi, Exortação apostólica ainda hoje plenamente atual: para ele, a secularização é «o esforço, em si mesmo justo e legítimo e não absolutamente incompatível com a fé ou com a religião» (Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 55), por descobrir as leis da realidade e da própria vida humana estabelecidas pelo Criador. De facto, Deus não nos quer escravos, mas filhos, não quer decidir no nosso lugar, nem oprimir-nos com um poder sacro num mundo governado por leis religiosas. Não! Ele criou-nos livres e pede-nos para sermos pessoas adultas, pessoas responsáveis na vida e na sociedade. Coisa diversa – distinguia São Paulo VI – é o secularismo, uma conceção de vida que separa completamente do vínculo com o Criador, de tal modo que Deus Se torna «supérfluo e embaraçante» e se geram «novas formas de ateísmo», subdolosas e as mais variadas: «uma civilização do consumo, o hedonismo erigido em valor supremo, uma ambição de poder e predomínio, discriminações de todo o género» (Ibidem).
Compete-nos a nós, como Igreja e sobretudo como pastores do Povo de Deus, como pastores, como consagradas e consagrados, como seminaristas e como agentes pastorais, saber fazer estas distinções, discernir. Se cedermos ao olhar negativo e julgarmos de forma superficial, arriscamo-nos a fazer passar uma mensagem errada, como se, por trás da crítica da secularização, houvesse da nossa parte a nostalgia dum mundo sacralizado, duma sociedade doutros tempos onde a Igreja e os seus ministros tinham mais poder e relevância social. E esta é uma perspetiva errada.
Ao contrário, o olhar que discerne, ao mesmo tempo que nos mostra as dificuldades que temos na transmissão da alegria da fé, estimula-nos a encontrar uma nova paixão pela evangelização, procurar novas linguagens, mudar algumas prioridades pastorais, ir ao essencial.
Queridos irmãos e irmãs, permiti que vos proponha, com espírito fraterno, três desafios, que podereis desenvolver na oração e no serviço pastoral.
O primeiro desafio: fazer Jesus conhecido. Nos desertos espirituais do nosso tempo, gerados pelo secularismo e pela indiferença, é necessário voltar ao primeiro anúncio. Repito: é necessário voltar ao primeiro anúncio. Não podemos presumir de comunicar a alegria da fé apresentando aspetos secundários a quem ainda não abraçou o Senhor na vida, ou então só repetindo algumas práticas ou copiando formas pastorais do passado. É preciso encontrar novos caminhos para anunciar o coração do Evangelho a quantos ainda não encontraram Cristo.
Isto pressupõe uma criatividade pastoral para chegar até às pessoas onde elas vivem, não esperando que sejam elas a vir até nós – lá onde vivem! – encontrando ocasiões de escuta, diálogo e encontro. Precisamos de voltar ao essencial, precisamos de voltar ao entusiasmo dos Atos dos Apóstolos, à beleza de nos sentirmos instrumentos da fecundidade do Espírito hoje. Precisamos de voltar à Galileia. É o encontro com Jesus Ressuscitado: voltar à Galileia para – permiti a expressão – recomeçar depois do fracasso. Voltar à Galileia. E cada um de nós tem a sua própria “Galileia”, aquela do primeiro anúncio. Precisamos de recuperar esta memória.
Mas, para anunciar o Evangelho, é preciso também sermos credíveis. E aqui está o segundo desafio: o testemunho. Anuncia-se o Evangelho de modo eficaz quando é a vida que fala, que revela aquela liberdade que faz livres os outros, aquela compaixão que nada pede em troca, aquela misericórdia que fala de Cristo sem palavras.
E, pensando no caminho de cura e reconciliação com os irmãos e irmãs indígenas, que nunca mais a comunidade cristã se deixe contaminar pela ideia da superioridade duma cultura sobre as outras e da legitimidade de usar meios de coação em relação aos outros.
Não permitamos que nenhuma ideologia aliene e confunda os estilos e as formas de vida dos nossos povos procurando demovê-los e dominá-los. Que os novos progressos da humanidade sejam assimiláveis nas suas identidades culturais com as chaves da cultura.
Para derrotar esta cultura da exclusão, é preciso começarmos por nós: que os pastores não se sintam superiores aos irmãos e irmãs do Povo de Deus; que os consagrados vivam a fraternidade e a liberdade na obediência em comunidade; que os seminaristas estejam dispostos a ser servidores dóceis e disponíveis e que os agentes pastorais não vejam o seu serviço como poder. Começa-se daqui. Vós sois os protagonistas e os construtores duma Igreja diferente: humilde, mansa, misericordiosa, uma Igreja que acompanha os processos, que trabalha decidida e serenamente na inculturação, que valoriza cada um e cada diversidade cultural e religiosa. Demos este testemunho!
Finalmente, o terceiro desafio: a fraternidade. A Igreja será testemunha tanto mais credível do Evangelho quanto mais os seus membros viverem a comunhão, criando ocasiões e espaços para que toda a pessoa que se aproxima da fé encontre uma comunidade acolhedora, que saiba ouvir, que saiba entrar em diálogo, que promova uma boa qualidade nas relações. Assim dizia o vosso santo Bispo aos missionários: «Muitas vezes uma palavra amarga, uma impaciência, um rosto que repele destruirão num momento aquilo que foi construído durante muito tempo» (Instruções aos Missionários, 1668).
Trata-se de viver numa comunidade
cristã que se torne escola de humanidade, onde se aprende a querer-se bem como
irmãos e irmãs, dispostos a trabalhar, juntos, pelo bem comum. De facto, no
coração do anúncio evangélico, está o amor de Deus, que transforma e torna
capaz de comunhão com todos e de serviço a todos. Um teólogo desta terra
escreveu: «O amor que Deus nos dá transborda em amor (...). É um amor que
impele o bom samaritano a parar e cuidar do viajante assaltado pelos ladrões. É
um amor que não tem fronteiras, que busca o reino de Deus (...) e este reino é
universal» (B. Lonergan, «The Future of Christianity»: A Second Collection:
Papers by Bernard F. J. Lonergan SJ, London 1974, 154). A Igreja é chamada a
encarnar este amor sem fronteiras, para construir o sonho que Deus tem para a
humanidade: serem todos irmãos.
Interroguemo-nos: Como está a fraternidade
entre nós? Os Bispos entre si e com os padres, os padres entre si e com o Povo
de Deus: somos irmãos ou concorrentes divididos em fações? E como são as nossas
relações com quem não é «dos nossos», com quem não crê, com quem possui
tradições e usos diferentes? Este é o caminho: promover relações de
fraternidade com todos, com os irmãos e irmãs indígenas, com cada irmã e irmão
que encontramos, porque, no rosto de cada um, reflete-se a presença de Deus.»

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