O cardeal Carlo Maria Martini (Turim, Itália, 1927-2012) fazia muitas perguntas
provocantes, entre as quais: «Porquê a Igreja não se sacode? Temos medo? Medo
em vez de coragem?»
O medo esconde uma forma introvertida da Igreja, que
lentamente a leva a prestar serviços religiosos sem propor a opção messiânica
de Cristo.
O medo que denunciava o cardeal Martini pode ser sintoma de
uma Igreja sem Evangelho, de «um cristianismo sem Páscoa» (Papa Francisco,
Homilia na Noite de Páscoa de 2022).
A Igreja do futuro é chamada a reencontrar a coragem na
força do Evangelho: o único critério de discernimento capaz de traçar os
caminhos de um cristianismo que sai do regime da cristandade para habitar de
modo novo diferentes culturas e contextos sociais.
Discernimento eclesial
Um dos objetivos mais preciosos do Concílio Vaticano II foi
a recuperação da dimensão vocacional de todo o povo de Deus através da
explicitação dos carismas e dos ministérios (LG 7.12.30).
Uma Igreja totalmente ministerial requer um exercício
contínuo de discernimento pessoal e comunitário, para que se deixe surpreender «por
essas presenças 'carismáticas' tão ricas em potencial criativo» de «cada
pessoa, crente ou não crente» (Christoph Theobald, Vous avez dit vocation?,
pág. 94).
De facto, não basta esperar e legitimar novas formas de
ministerialidade se não se proceder à reforma na comunidade eclesial, «a
educação e a formação daqueles que ela escolhe e prepara para o ministério» (Tomáš
Halík, Dio oltre i confini visibili, Il Regno / Attualità, 12,
15.06.22). Uma estrutura separada (muitas vezes com uma faculdade teológica
anexa), uma espiritualidade quase monástica e uma vida relacional delimitada
poderiam talvez favorecer a desclericalização esperada pela conversão pastoral
proposta pelo Papa Francisco?
À luz dessas considerações, compreende-se o valor
fundamental que deve ser atribuído ao discernimento vocacional no povo de Deus
através do cuidado do acompanhamento humano e espiritual: «É minha firme
convicção que o ministério do acompanhamento espiritual pessoal será o papel
pastoral crucial da Igreja no iminente ‘entardecer’ da história cristã, e
aquele mais necessário» (T. Halik, idem).
A intuição de Halík parece-nos profética num tempo em que se
fala do fim da cristandade, pois a Igreja poderá aproveitar a oportunidade para
exercer a diaconia da caridade na forma inédita de companheira sábia no
discernimento e terna de coração.
Dinâmicas relacionais
O segundo pressuposto na perspetiva da receção pós-conciliar
diz respeito à consideração das dinâmicas relacionais do poliedro eclesial. São
indispensáveis em relação aos processos participativos do futuro eclesial e ao
acompanhamento das experiências humanas, conflitos e escândalos.
De facto, o caráter simbólico da sexualidade humana exige
uma abordagem integral não só no itinerário dos esposos e dos ministros
ordenados, mas em toda a pastoral eclesial à luz das suas dinâmicas
relacionais, participativas e de governo.
A falta de integração da dimensão afetiva no itinerário que
leva o candidato a viver o ministério provoca a tendência de preencher com o
poder outros vazios emocionais e psicológicos, distorcendo o dinamismo
relacional típico dos batizados e das batizadas. A sexualidade líquida de nosso
tempo provoca ainda mais a Igreja a valorizar e propor a preciosidade dos laços
afetivos e sexuais como um autêntico percurso de humanização responsável e
consciente.
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