Sacramentos da vida que tornam vivos quem já partiu para o Céu

Desfazer a casa de alguém que amamos e morreu é uma das experiências mais dolorosas da nossa existência. Julgamos que é o fim do mundo. E é.

E não há anestesia. Tudo dói e tudo nos é arrancado a sangue-frio. 

Desfazer uma casa representa o fim da vida de quem morre e o fim de um ciclo de vida de quem cá fica, sabendo que cada porta de cada quarto que vamos esvaziando será fechada para sempre, na casa e em nós, sem retorno possível.

Móveis. Quadros. Tapetes. Bibelôs. Pratos. Tachos. Toalhas. Cartas. Papéis. Roupas. Os comprimidos que já não tiveram tempo de ser tomados. Tudo tudo tudo, tudo até o que já se tinha tornado invisível, torna-se visível como nunca o vimos antes.

Tudo - desde um alfinete que ficou caído a um canto do roupeiro até à estante enorme da sala de estar -  passa a ser um ecrã gigante onde são projetados triliões de memórias de que nem já tínhamos memória.

E quanto menos gostamos de objetos e de coisas, mais as coisas se arrastam se agarram e pesam em nós, quando desfazemos a casa de alguém que amamos e morreu.

Passamos a olhar essas coisas como as últimas células de um corpo que já não existe e a encontrar nelas a alma de quem partiu.

Passamos a olhar essas coisas como a última possibilidade de agarrar aqui quem já aqui não existe.

E enquanto cortamos pedaços de nós na casa que vamos desfazendo, há um momento em que um só objeto (e é mesmo um só, acreditem) nos grita e nos diz que é nele que se concentram todas as memórias da existência partilhada com as pessoas daquela casa e com aquela casa.

Esse objeto é o "punctum" de que falava Roland Barthes (1915-1980), escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês: «Detalhe que toca emocionalmente o espectador e varia de pessoa para pessoa, é o que estimula na fotografia, o que fere o apreciador.»

Paula Calheiros Pato, comunicóloga

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