Megacorporações de quatro setores
– farmacêutico, petroleiro, agronegócio e Big Tech (nota do tradutor: as cinco
maiores e mais dominantes empresas da indústria de tecnologia da informação dos
Estados Unidos: Alphabet, Amazon, Apple, Meta e Microsoft) – dobraram fortunas
na pandemia. Os seus lucros são o que mais pesa no disparar dos preços.
Freá-las requer tributos e quebra de patentes e monopólios.
Todos os anos, a Oxfam (nota do
tradutor: confederação de 19 organizações e mais de 3000 parceiros, que atua em
mais de 90 países na busca de soluções para o problema da pobreza, desigualdade
e da injustiça, por meio de campanhas, programas de desenvolvimento e ações
emergenciais) publica um relatório sobre a desigualdade global expõe o
enorme e crescente abismo económico no mundo, tornando as nossas sociedades
distópicas e nossas políticas inviáveis. Nos últimos anos, os dados tornaram-se
ainda mais gritantes, pois primeiro a pandemia e, depois, a inflação de
alimentos e combustíveis desencadeada pela guerra na Ucrânia destruíram os
meios de subsistência e os rendimentos salariais e, portanto, o poder de compra
da maioria da população mundial.
Jayati Ghosh*,
em Europa Social e IPS-Jornal
Mas mesmo para sociedades cada vez mais acostumadas à extrema desigualdade, o último relatório da Oxfam Inequality Kills («Desigualdade Mata») é capaz de chocar. Pode não ser surpresa que pelo menos mais 240 milhões de pessoas provavelmente cairão na pobreza extrema e enfrentarão uma fome terrível devido às tendências económicas dos últimos dois anos. Mas, no mesmo período, a riqueza dos bilionários aumentou 42 % – mais do que nos 23 anos anteriores.
Como resultado, os dez homens mais ricos do mundo possuem mais do que 40 % de toda a humanidade. As 20 pessoas mais ricas têm mais riqueza do que todo o produto interno bruto de todos os países da África Subsaariana juntos. O homem mais rico do mundo – Elon Musk – aumentou a sua riqueza quase sete vezes desde 2019. Mesmo se ele desperdiçasse 99 % dela, ele ainda estaria no top das pessoas mais ricas do planeta, o que ele e os seus semelhantes estão ocupados em destruir através das emissões de carbono decorrentes de seu consumo ostensivo.
No entanto, ainda mais do que esses números assustadores, o que é particularmente importante neste relatório é o que ele revela sobre as fortunas crescentes de algumas grandes empresas multinacionais, durante este período de infortúnio global. Há uma ligação direta com a inflação que causa tanto estrago em todo o mundo, especialmente entre as populações já pobres – acentuada muito mais em razão do lucro das grandes empresas e da especulação financeira do que pela escassez de oferta.
Um estudo do Economic Policy Institute indica que somente nos Estados Unidos os lucros corporativos representaram 54 % da inflação entre abril-junho de 2020 e outubro-dezembro de 2021. Os custos de mão de obra contribuíram com apenas 8 % e outros custos de insumos (nota do tradutor: encargos sociais) com 38 %. (Em contraste, nas três décadas anteriores, os custos com os trabalhadores representaram 62 % da inflação, os aumentos de preços de insumos 7 % e os lucros aumentados 11%). Mais de metade da inflação recente pode, portanto, ser atribuída à lucratividade aberta e descontrolada auferida por grandes empresas.
O relatório da Oxfam observa que isso se refletiu em aumentos maciços nos lucros corporativos, particularmente em alimentos, combustíveis e produtos farmacêuticos. Por exemplo, as dinastias bilionárias que controlam os agronegócios que dominam grande parte do nosso sistema alimentar global estão cada vez mais fortes. A sua riqueza coletiva aumentou em US$ 382 mil milhões (45 %) nos últimos dois anos, com a criação de 62 novos bilionários.
A família proprietária da maior parte da Cargill – uma das quatro agroindústrias que controlam mais de 70 % do mercado global de matérias-primas agrícolas não industrializadas – viu a sua riqueza aumentar 65 % desde 2020, ou cerca de US$ 20 milhões por dia, em plena pandemia. A família Walton, que possui cerca de metade do capital social do Walmart, viu a sua riqueza aumentar em 500 milhões de dólares a cada hora. No ano passado, a empresa gastou US$ 16 mil milhões apenas em dividendos e recompras de ações, e mesmo assim continuou a suprimir salários e pagamentos a agricultores e produtores diretos em todo o mundo.
As grandes petrolíferas também estão a arrecadar: os preços do petróleo devem aumentar cerca de 50 % este ano, mas já durante a pandemia as margens de lucro das empresas petrolíferas duplicaram. As cinco maiores empresas de energia – BP, Shell, TotalEnergies, Exxon e Chevron – tiveram um lucro combinado de US$ 82 mil milhões em 2021 e pagaram US$ 51 mil milhões em dividendos, 90 % dos quais foram para os 10% mais ricos das famílias americanas.
Os lucros obscenos obtidos pelas grandes farmacêuticas, especialmente com as vacinas de Covid-19 que elas estão a recursar-se a fornecer para as pessoas mais pobres do mundo, cresceram ainda mais no segundo ano da pandemia. A Moderna, que se beneficiou totalmente de subsídios públicos para produzir o seu único produto no mercado, uma vacina de Covid-19 baseada em RNA mensageiro, atualmente tem neste item uma margem de lucro de 70 %, antes da tributação.
Não é à toa que a Moderna está a processar produtores na África do Sul para impedi-los de produzir vacinas substitutas, ao mesmo tempo que procura esconder parte dos seus lucros em paraísos fiscais. A Pfizer vendeu o maior número de vacinas de Covid-19 comparado a qualquer empresa, mas forneceu proporcionalmente o menor número para países de baixa renda. Ambas as empresas também investem pesadamente em lobbies contra a renúncia de direitos de propriedade intelectual associados ao comércio (o acordo TRIPS), que poderia reduzir o seu controle sobre o conhecimento que lhes confere um enorme poder de mercado.
Cinco grandes empresas de tecnologia – Apple, Microsoft, Tesla, Amazon e Alphabet – tiveram lucros de US$ 271 mil milhões em 2021, um aumento de quase 40 % em 2019. E, é claro, junto com tamanha riqueza vem um imenso poder político: a Amazon e o Google sozinhas gastaram US$ 7,5 milhões em lobby escancarado junto a políticos dos EUA nos primeiros três meses de 2022, e provavelmente muito mais indiretamente.
O poder associado a toda essa riqueza – de influenciar os governos a desenharem políticas regulatórias e fiscais em favor dos ricos e das grandes corporações – é uma das razões pelas quais essas desigualdades não param de aumentar. É também provavelmente por isso que soluções óbvias – como tributar os lucros excedentes, reduzir os monopólios revisando o sistema opressivo de direitos de propriedade intelectual e democratizar o acesso ao conhecimento, eliminando os subsídios explícitos e implícitos que os contribuintes estão fornecendo a essas grandes empresas, evitando recompras de ações e outras estratégias como estas – não estão sendo aplicadas.
Diante de tal poder corporativo, precisamos de uma ação cidadã muito mais concertada se quisermos ter alguma esperança de superar essa distopia.
*Jayati Ghosh é uma das mais importantes economistas mundiais. É professora de Economia na Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Délhi, Secretaria Executiva da International Development Economics Associates (Ideas) e membro da Comissão Independente pela Reforma Tributária de Corporações Internacionais

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