Carta de um sacerdote em atividade que se declara não crente: «Francisco está a abanar a jaula dos privilégios.»
A história da noite de Natal é maravilhosa para as crianças. Mas não parece
muito séria quando se é uma pessoa adulta com todas as necessidades satisfeitas
e uma confortável poupança no banco.
A maioria dos adolescentes já não
tem fé, ocupada como está com as descobertas tecnológicas e a magia das redes
sociais. Eles já não têm tempo a perder com as historietas das suas avós e os rituais
rotineiros em que nada de excitante ACONTECE.
Quero compartilhar um segredo convosco, não o contem a ninguém: eu sou um não crente. Eu também não acredito no deus em que tantas pessoas já não acreditam. Desde há bastante tempo:
Um deus que controla tudo... para aqueles de nós que tentamos apaziguar-nos quando passa uma tempestade ou onda de calor.
Um deus todo-poderoso, exceto
para evitar que certos padres ou treinadores desportivos abusem sexualmente das
crianças.
Uma religião que priva os
casais do direito de decidirem por si mesmos o que é apropriado na sua vida íntima,
de acordo com a sua situação concreta ou a sua orientação sexual.
Uma religião que substitui a liberdade de consciência e a responsabilidade
pessoal pelo medo da condenação é uma
invenção humana alienante.
A isto opôs-Se tenazmente Jesus, que foi
torturado e condenado à morte por isso. Como tantos defensores dos direitos
humanos e da liberdade no nosso tempo.
Um dia, um sobrinho meu, que admiro pela franqueza e experiência de vida,
desafiou-me: «Sai da Igreja, esse antro de podridão!»
Porque é que, então, ainda contínuo
a ser sacerdote e oblato?
Certamente que não é porque a Igreja esteja livre de pecado. Também não é por os Oblatos não terem cometido erros graves, que os cometeram. Detesto a busca de prestígio e a pompa que marcaram os nossos prelados desde que o imperador Constantino se tornou cristão (em 313) e a Igreja adotou os ornamentos e modos de vida do Império Romano. Com trajes sumptuosos e títulos de Reverendo, Eminência, para assinalar que estão acima do mundo vulgar e que somente eles detêm toda a verdade.
Nesse caso, porque é que ainda
continuo nesta instituição?
Pelo escândalo que um certo Jesus de Nazaré causou ao comer com pessoas malvistas e desprezadas pelos dirigentes religiosos do seu tempo. Ou ao curar os aleijados num dia em que isso não era permitido pela Lei. Aquele que denunciou as sufocantes prescrições da tradição judaica, ao proclamar: «Só existe um mandamento: Ama a Deus e ao teu próximo com todo o teu coração.» Podes imaginar o escândalo que provocou? Tanto assim é que O massacraram, para O silenciar.
Porque permaneço aqui nesta época?
Pela revolução que Francisco iniciou na fortaleza de Roma e que tenta provocar em toda a Igreja. Sabem o que ele empreendeu? Reformas que eu não estava à espera de ver antes de bater as botas. Ele está a abanar a jaula dos privilégios e do elitismo, para nos fazer voltar ao essencial do Evangelho: a simplicidade de vida, a aceitação das diferenças, a amor que perdoa, o serviço aos mais frágeis. Insiste em que saiamos da nossa bolha. Dá o exemplo da audácia de ir ao centro dos conflitos, rumando ao encontro dos excluídos de toda espécie. E os seus dois principais escritos são um chamamento a salvaguardar a nossa "casa comum", o planeta, e a transformar o nosso atual sistema socioeconómico numa solidariedade fraterna entre os povos ricos e os carenciados. O seu primeiro texto, sobre ecologia, foi saudado por David Suzuki, um especialista internacional, não crente, como um grande presente para toda a Humanidade.
A reforma de atitudes e de
estruturas empreendida por Francisco irá funcionar?
Não devemos depositar as nossas esperanças na instituição por inteiro: a resistência é forte, inclusive dentro do clube dos Cardeais. Para ter sucesso, uma revolução, mesmo a evangélica, deve ocorrer primeiro nas bases. Isso significa tu e eu. Incluir as gerações mais novas no que lhes interessa. Na história do mundo, muitas vezes foram adolescentes sem acesso a meios poderosos que trouxeram grandes mudanças.
Pensemos em David e na sua fisga para derrotar
Golias. Em Maria de Nazaré e no seu bebé numa manjedoura. Em
Joana d'Arc à frente do exército francês a cavalo. Na Malala, que aos 14 anos
luta pelo direito das meninas e mulheres paquistanesas irem à escola. Na Greta,
que pede aos líderes das nações que salvem o planeta.
Esperamos pelos jovens na igreja para embelezar a imagem das nossas
celebrações; eles esperam-nos nas ruas para caminhar e gritar com eles a nossa
indignação por tudo o que afunda os nossos irmãos da Humanidade.
Porque continuo em atividade?
Para dar a minha pequena contribuição para curar as feridas do passado e para o nascimento de um mundo verdadeiramente novo, em que aprendamos a respeitar-nos, a perdoar-nos e a perdoar os outros, a estabelecer solidariedade com grupos de base noutros países. E, acima de tudo, para que se deixe de fazer assentar o futuro e a segurança na acumulação de dinheiro para além do necessário.
Saboreia a liberdade e a felicidade profunda que só uma amizade sólida pode trazer.
Um ingénuo, este velho? Sê-lo-ia, se já não tivesse visto chegar este
mundo. Julga por ti mesmo:
- Quando os pais se mudam de uma cidade para outra para garantir melhores serviços para os seus filhos deficientes...
- Quando cuidas de um familiar ou de um vizinho debilitado pela idade ou pela doença...
- Quando partilhas o teu tempo ou o teu dinheiro para dar presentes às crianças, medicamentos ou alimentos aos refugiados ...
- Quando interrompes o horário de trabalho ou de lazer para visitar alguém que está terrivelmente sozinho ou deprimido...
- Quando realizas as tarefas domésticas e a tua presença deixa toda a gente feliz...
- Quando votas no candidato político mais preocupado com a justiça e a equidade para com as mulheres ...
- Quando os missionários abdicam do seu conforto para estar perto das comunidades indígenas, para falar e codificar as suas línguas, a fim de que não se percam...
- Quando três milhões de cidadãos do Québec fazem algum tipo de trabalho voluntário durante o ano ...
Quando estas coisas acontecem, podes dizer, se quiseres, que não acreditas
em Deus, não é relevante. O que importa
é que, ao fazeres estas coisas, estás a agir como Ele e que Ele acredita em ti.
E para mim, tu és uma das razões pelas quais continuo a sonhar com um mundo que
pareça bom e que prepare a chegada ao nosso tempo do Menino da manjedoura, Aquele
que nos ensina a abrir os braços. Talvez estejas mais perto do que pensas do
verdadeiro Deus, que ama tudo o que criou.
Podes confiar neste Homem que Se fez próximo dos marginalizados, dos
rejeitados, que chegou ao mais profundo do seu amor ao dar a vida, e que transpôs
o muro da morte para enveredar em direção ao desconhecido da eternidade.
A pandemia e todas as atuais catástrofes da natureza são um sinal de que
não podemos continuar a perpetuar o abuso maciço do planeta e as desigualdades
sociais entre nações. Ou mudamos ou morremos.
Que 2022 nos ponha a caminho. E se é com Deus que queres caminhar, certifica-te
de que é o (Deus) certo. O bom Deus. Que tenhas (tido) uma boa noite de Natal.
Um ano frutífero.
Certamente que não é porque a Igreja esteja livre de pecado. Também não é por os Oblatos não terem cometido erros graves, que os cometeram. Detesto a busca de prestígio e a pompa que marcaram os nossos prelados desde que o imperador Constantino se tornou cristão (em 313) e a Igreja adotou os ornamentos e modos de vida do Império Romano. Com trajes sumptuosos e títulos de Reverendo, Eminência, para assinalar que estão acima do mundo vulgar e que somente eles detêm toda a verdade.
Pelo escândalo que um certo Jesus de Nazaré causou ao comer com pessoas malvistas e desprezadas pelos dirigentes religiosos do seu tempo. Ou ao curar os aleijados num dia em que isso não era permitido pela Lei. Aquele que denunciou as sufocantes prescrições da tradição judaica, ao proclamar: «Só existe um mandamento: Ama a Deus e ao teu próximo com todo o teu coração.» Podes imaginar o escândalo que provocou? Tanto assim é que O massacraram, para O silenciar.
Pela revolução que Francisco iniciou na fortaleza de Roma e que tenta provocar em toda a Igreja. Sabem o que ele empreendeu? Reformas que eu não estava à espera de ver antes de bater as botas. Ele está a abanar a jaula dos privilégios e do elitismo, para nos fazer voltar ao essencial do Evangelho: a simplicidade de vida, a aceitação das diferenças, a amor que perdoa, o serviço aos mais frágeis. Insiste em que saiamos da nossa bolha. Dá o exemplo da audácia de ir ao centro dos conflitos, rumando ao encontro dos excluídos de toda espécie. E os seus dois principais escritos são um chamamento a salvaguardar a nossa "casa comum", o planeta, e a transformar o nosso atual sistema socioeconómico numa solidariedade fraterna entre os povos ricos e os carenciados. O seu primeiro texto, sobre ecologia, foi saudado por David Suzuki, um especialista internacional, não crente, como um grande presente para toda a Humanidade.
Não devemos depositar as nossas esperanças na instituição por inteiro: a resistência é forte, inclusive dentro do clube dos Cardeais. Para ter sucesso, uma revolução, mesmo a evangélica, deve ocorrer primeiro nas bases. Isso significa tu e eu. Incluir as gerações mais novas no que lhes interessa. Na história do mundo, muitas vezes foram adolescentes sem acesso a meios poderosos que trouxeram grandes mudanças.
Para dar a minha pequena contribuição para curar as feridas do passado e para o nascimento de um mundo verdadeiramente novo, em que aprendamos a respeitar-nos, a perdoar-nos e a perdoar os outros, a estabelecer solidariedade com grupos de base noutros países. E, acima de tudo, para que se deixe de fazer assentar o futuro e a segurança na acumulação de dinheiro para além do necessário.
Saboreia a liberdade e a felicidade profunda que só uma amizade sólida pode trazer.
- Quando os pais se mudam de uma cidade para outra para garantir melhores serviços para os seus filhos deficientes...
- Quando cuidas de um familiar ou de um vizinho debilitado pela idade ou pela doença...
- Quando partilhas o teu tempo ou o teu dinheiro para dar presentes às crianças, medicamentos ou alimentos aos refugiados ...
- Quando interrompes o horário de trabalho ou de lazer para visitar alguém que está terrivelmente sozinho ou deprimido...
- Quando realizas as tarefas domésticas e a tua presença deixa toda a gente feliz...
- Quando votas no candidato político mais preocupado com a justiça e a equidade para com as mulheres ...
- Quando os missionários abdicam do seu conforto para estar perto das comunidades indígenas, para falar e codificar as suas línguas, a fim de que não se percam...
- Quando três milhões de cidadãos do Québec fazem algum tipo de trabalho voluntário durante o ano ...
Bernard Ménard, OMI (Missionários Oblatos de Maria Imaculada)

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