Nos tempos maus em que vivemos e sofremos, temos de alimentar a nossa esperança enfraquecida e assombrada pelas ameaças que
pesam sobre a Terra e a Humanidade. Se não nos agarrarmos a alguma esperança,
perdemos o horizonte de futuro e corremos o risco de nos entregarmos ao
desamparo imobilizador ou à resignação estéril.
Neste contexto, lembrei-me de um mito da antiga cultura mediterrânica
sobre o rejuvenescimento das águias. De tempos a tempos, reza a lenda, a águia,
como a Fénix egípcia, renova-se totalmente. Ela voa cada vez mais alto até
chegar perto do sol. Então, as penas incendeiam-se e toda ela começa a arder.
Quando chega a este ponto, precipita-se do céu e lança-se como uma flecha nas
águas frias do lago. E o fogo apaga-se. Mas através desta experiência de fogo e
de água, a velha águia rejuvenesce completamente: volta a ter penas novas,
garras afiadas, olhos penetrantes e o vigor da juventude.
Seguramente, este mito constitui o substrato cultural do
salmo 103 quando diz: «O Senhor faz com que minha juventude se renove como uma
águia» (Sl 103, 5), E aqui precisamos de ser um pouco psicólogos da linha de C.G. Jung, que
tanto se ocupou do sentido dos mitos. Segunda esta interpretação, fogo e água
são opostos. Mas, quando unidos, tornam-se poderosos símbolos de transformação.
O fogo simboliza o céu, a consciência e as dimensões masculinas no homem e na
mulher. A água, pelo contrário, é a terra, o inconsciente e as dimensões
femininas no homem e na mulher. Passar pelo fogo e pela água significa,
portanto, integrar em si os opostos e crescer na identidade pessoal. Ninguém,
ao passar pelo fogo ou pela água, permanece intocado. Ou sucumbe, ou se
transfigura, porque a água lava e o fogo purifica. E o fogo faz-nos imaginar o cadinho ou as fornalhas que
queimam e acrisolam tudo o que não é ganga e não é essencial. São as notórias
crises existenciais.
Ao fazermos esta travessia pela “noite escura e medonha”,
como dizem os mestres espirituais, deixamos aflorar o nosso eu profundo sem as
ilusões do ego. Então, amadurecemos para aquilo que é autenticamente humano e
verdadeiro. Quem recebe o batismo de fogo e de água rejuvenesce como a águia do
mito antigo.
Mas, abstraindo-nos das metáforas, o que significa
concretamente rejuvenescer como águia? Significa entregar à morte tudo o que
existe em nós de velho para que o novo possa irromper e fazer o seu percurso. O
velho em nós são os hábitos e as atitudes que não nos engrandecem: a vontade de
ter razão e vantagem em tudo, o descuido com o lixo, o desperdício da água e o
desrespeito para com a natureza, bem como a falta de solidariedade para com os
necessitados, próximos e distantes. Tudo isso deve ser entregue à morte para
podermos inaugurar uma forma de convivência com os outros que se mostre
generosa e cuidadosa para com a nossa Casa Comum e com o destino das pessoas.
Numa palavra, significa morrer e ressuscitar.
Rejuvenescer como águia significa também desprender-se de
coisas que um dia foram boas e de ideias que foram luminosas, mas que,
lentamente, com o passar dos anos, se tornaram ultrapassadas e incapazes de
inspirar o caminho da vida. Temos de nos renovar na mente e no coração. Rejuvenescer
como águia significa ter coragem para recomeçar e estar sempre aberto a
escutar, a aprender e a corrigir. Não é isso que nos propomos a cada novo ano?
Que cada que se inaugura seja uma oportunidade para perguntar quanto de galinha
existe em nós, que não quer outra coisa senão esgravatar no chão, e o quanto de
águia há ainda em nós, disposta a rejuvenescer ao confrontar-se valentemente
com os tropeços e as crises da vida. Só então cresceremos e a vida valerá a
pena.
E não podemos esquecer aquela Energia poderosa e amorosa que
sempre nos acompanha e que move o universo inteiro. Ela habita-nos, anima-nos e
confere permanente sentido para lutar e para viver. Que o Spiritus Creator
nunca nos falte!
Leonardo Boff, em leonardoboff.org

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