Caso o cristianismo se tivesse encarnado na cultura social guarani e não naquela greco-romana, teríamos então padres pobres, bispos miseráveis e o papa um verdadeiro mendigo. Mas a sua marca registada seria a generosidade e o serviço humilde a todos. Então, sim, poderiam ser testemunhas d’Aquele que disse: «Estou entre vós como quem serve.» Os indígenas teriam captado essa mensagem como conatural à sua cultura e, quem sabe, livremente aderido à fé cristã.
Disseram indígenas da Bolívia,
por ocasião da visita do Papa São João Paulo II (em maio de 1988): «A Bíblia
que nos dão, entreguem-na aos europeus, pois eles precisam dela mais do que nós
porque foram eles que de forma desumanizadora nos colonizaram e quase nos
dizimaram.»
Nós nunca
pagamos a dívida centenária que temos para com os povos originários
brasileiros, latino-americanos e caribenhos. Eles são os hóspedes originários
destas terras que lhes estão sendo invadidas e roubadas em função da voracidade
dos madeireiros, do ouro e da mineração.
O cuidado para com tudo o que
existe e vive
Agora que estamos sob um alarme
ecológico planetário, sem saber que soluções encontrar face ao crescente
aquecimento do planeta, descobrimos, finalmente, como eles tratam a natureza
com sabedoria, o cuidado para com as florestas e a Mãe Terra. Eles são nossos
mestres e doutores no sentimento de pertença, de irmandade e de respeito por
tudo o que existe e vive. Nutrem uma profunda concórdia entre eles e com a
comunidade de vida, coisa que nós há séculos perdemos. Estamos sofrendo os
danos irremissíveis de nossa devastação. Ainda não tiramos as lições que Gaia,
a Pacha Mama e Mãe Terra nos está dando com a intrusão da Covid-19. Buscamos
voltar à ordem anterior, justamente aquela que propiciou a irrupção de inúmeros
vírus, o último, a varíola do macaco. Elenquemos alguns valores de seu modo de
estar neste mundo natural.
Integração sinfónica com a
natureza
O índio se sente parte da
natureza e não um estranho dentro dela. Por isso, nos seus mitos, seres humanos
e outros seres vivos convivem e casam entre si. Intuíram o que sabemos pela
ciência empírica que todos formamos uma cadeia única e sagrada de vida.
Eles são exímios ecologistas. A
Amazónia, por exemplo, não é terra intocável. Em milhares de anos, as dezenas
de nações indígenas que ali vivem interagiram sabiamente com ela. Quase 12 % de
toda floresta amazónica de terra firme foi manejada por eles, promovendo “ilhas
de recursos”, desenvolvendo espécies vegetais úteis ou bosques com alta
densidade de castanheiras e frutas de toda espécie. Elas foram plantadas e
cuidadas para si e para aqueles que, porventura, por ali passassem.
Os ianomamis sabem aproveitar 78 %
das espécies de árvores dos seus territórios, tendo-se em conta a imensa
biodiversidade da região, na ordem de 1200 espécies por área do tamanho de um
campo de futebol. Para eles, a Terra é Mãe do índio. Ela é viva e por isso
produz todo o tipo de seres vivos. Deve ser tratada com a reverência e respeito
que se deve às mães. Nunca se há de abater animais, peixes ou árvores por puro
gosto, mas somente para atender necessidades humanas. Mesmo assim, quando se
derrubam árvores ou se fazem caçadas e pescarias maiores, organizam-se ritos de
desculpa para não violar a aliança de amizade entre todos os seres.
Essa relação sinfónica com a
comunidade de vida é imprescindível para garantirmos o futuro comum da própria
vida e o da espécie humana.
Sabedoria ancestral
Conhecendo-se um pouco as
diversas culturas indígenas, identificamos nelas profunda capacidade de
observação da natureza com as suas forças e da vida. A sabedoria deles teceu-se
através da sintonia fina com o universo e da escuta atenta da linguagem da
Terra. Sabem melhor do que nós casar o céu com a terra, integrar vida e morte,
compatibilizar trabalho e diversão, confraternizar o ser humano com a natureza.
Nesse sentido eles são altamente civilizados, embora a sua tecnologia seja
finíssima, mas não contemporânea.
Intuitivamente, atinaram com a
vocação fundamental de nossa efémera passagem por esse mundo que é captar a
majestade do universo, saborear a beleza da Terra e tirar do anonimato aquele
Ser que faz ser todos os seres, chamando-o por mil nomes, Palop, Tupã, Ñmandu e
outros. Tudo existe para brilhar. E o ser humano existe para dançar e festejar
esse brilho.
Essa sabedoria precisa de ser
resgatada pela nossa cultura secularista e desrespeitosa das várias formas de
vida. Sem ela, dificilmente pomos limites ao poder que poderá destruir o nosso
ridente Planeta vivo.
Atitude de veneração e de
respeito
Para os povos indígenas, bem como
para alguns contemporâneos, como o recém falecido James Lovelock, o formulador
da teoria da Terra como Gaia, tudo é vivo e tudo vem carregado de mensagens que
importa decifrar. A árvore não é apenas uma árvore. Ela se comunica por seus
odores. Possui braços que são seus ramos, tem mil línguas que são suas folhas,
une o Céu com a Terra por suas raízes e pela copa. Eles conseguem, naturalmente,
captar o fio que liga e religa todas as coisas entre si e com a Divindade.
Quando dançam e tomam as beberagens rituais, fazem uma experiência de encontro
com o Divino e com o mundo dos anciãos e dos sábios que estão vivos no outro
lado da vida. Para eles, o invisível é parte do visível. Essa lição importa
aprender deles.
A liberdade, a essência da
vida indígena
Nos dias atuais, a falta de
liberdade atormenta-nos. A complexidade da vida, as sofisticações das relações
sociais geram sentimento de prisão e de angústia. Os povos indígenas dão-nos o
testemunho de uma incomensurável liberdade. Baste-nos o depoimento dos grandes
indigenistas, os irmãos Orlando e Cláudio Villas Boas: «O índio é totalmente
livre, sem precisar de dar satisfação dos seus atos a quem quer que seja… Se
uma pessoa der um grito no centro de São Paulo, uma rádio-patrulha poderá
levá-lo preso. Se um índio der um tremendo berro no meio da aldeia, ninguém
olhará para ele, nem irá perguntar por que ele gritou. O índio é um homem
livre.» Essa liberdade é tão apresentada pela extraordinária liderança Ailton
Krenak e através dos seus escritos.
A autoridade, o poder como
serviço e o despojamento
A liberdade vivida pelos
indígenas confere uma marca singular à autoridade dos seus caciques. Estes
nunca têm poder de mando sobre os demais. A sua função é de animação e de
articulação das coisas comuns, sempre respeitando o dom supremo da liberdade
individual. Especialmente entre os guaranis vives esse alto sentido da
autoridade, cujo atributo essencial é a generosidade. O cacique deve dar tudo o
que lhe pedem e não deve guardar nada para si. Em algumas tabas, pode-se
reconhecer o chefe na pessoa de quem traz ornamentos mais pobres, pois o resto
foi tudo doado. Nós ocidentais definimos o poder sob sua forma autoritária: «A
capacidade de conseguir com que o outro faça aquilo que eu quero.» Em razão
desta conceção, as sociedades são dilaceradas permanentemente por conflitos de
autoridade.
Como se depreende em tantas coisas, reafirmo, os indígenas podem ser nossos mestres e nossos doutores, como se dizia dos pobres na Igreja dos primórdios.
Leonardo Boff, O
casamento entre o Céu e a Terra, contos de indígenas brasileiros (com um suplemento
sobre dados atualizados do seu universo), Planeta 2022.

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