A propósito do Sínodo,
tem-se ouvido esta frase: «A Igreja não é só para os bonzinhos.» Estas oito palavras
têm aparecido como uma espécie de retratamento da abertura e do acolhimento na
Igreja Católica. Por vezes, parece traduzir uma espécie de autoculpabilização e
desespero de se perderem fiéis ou de se ser apontado de «conservador» (ou melhor,
«ultraconservador!»), «hipócrita», «beato», «ser pior que os outros», «rato de
sacristia» ou «dogmático». (Mas também aparecem aqueles a quem apelidam de
«progressistas», «liberais da fé», «cristãos descomprometidos» ou «os da fé à
la carte»…) Enfim, e entre os «bonzinhos», também há os «diabinhos mal
disfarçados». O carimbo já está na testa.
O termo «bonzinhos» é
usado com menosprezo, uma forma fácil de ridicularização, desdém,
desconsideração, desprezo.
Mas quem são os «bonzinhos»?
Uns pensarão que é o
bispo ou o cardeal que apela à moral sexual – e depois tem exemplos de
colaboradores diretos pouco ou nada consistentes e íntegros na sua diocese.
Outros, a vizinha do lado que é uma linguaruda e se mete na vida de toda a
gente e, depois, ainda vai à missa bater com a mão no peito. Outros ainda, o
casal que continua casado e discute vezes sem conta e cuja relação já deixa
muito a desejar – diz-se cristão católico – e deveria viver os problemas em harmonia
e testemunhar o amor que tanto diz apregoar, mas sem o viver. E ainda haverá
quem pense que são os que se dão ao trabalho de ler e rezar a Bíblia, ou na
pior das hipóteses, de estudar o Catecismo da Igreja Católica (mas quem é que lê isso?!),
e depois ainda levamos com a maçada das «razões da Fé». Já para não falar dos
que estão sempre a pedir para fazer caridade com dinheiro alheio, quando
estamos fartos de saber de desvios aos fins propostos, acabando muitas vezes o
dinheiro sabe-se lá onde, tantas vezes em proveito de poucos e não de muitos, e
dos mais frágeis, que deviam ajudar… – agora também lhe chamam fundraising!
– Cada um terá a sua própria representação de «bonzinhos», certo?
No fundo, os
«bonzinhos» são… uma generalização, um estereótipo, um preconceito. Uma forma de
inveja…? De maledicência quase disfarçada…? De condenação (outras pedras de
fariseus) …? De cegueira…?
Fico a pensar como
deve ser desagradável e humilhante ouvir esta frase para aqueles que ainda se
vão mantendo na Igreja, procurando a coerência entre a Vida e a Fé, buscando a Verdade
e a Justiça, desejando o Bem. Como deve ser doloroso escutar, quando se dá de
si, de tantas e diversas formas – na catequese, na dedicação e serviço aos mais
pobres, na missão em países onde os cristãos são uma minoria, numa vida sexual
marcada pela dualidade, permanência, compromisso, fidelidade e abertura à vida –
tudo sem holofotes, sem palco, sem aplausos, sem tempo de antena... Como deve
ser entristecedor optar por uma vida de coerência e compromisso, em plena
liberdade, ciente de uma proposta que se aceita e abraça. Como deve ferir quem
sente as agruras da vida e ainda assim permanece, porque sabe que há algo
maior, Alguém maior que tudo, por Quem vale a pena dar a vida. Como deve ser
desconsolador ser tratado como se a retidão fosse uma impossibilidade, uma
façanha de poucos heróis. Como deve ser brutal ser maltratado só porque, um
dia, ao rezar que era preciso tornar-se indiferente a todas as coisas, para
honrar, reverenciar e servir a Deus, não compactuou com a mundanidade e a secularização
avassaladora dos novos tempos. Como deve ser desesperante – isto é, esvaziar-se
da esperança – quem, tendo consciência do afastar-se de Deus (a que se chama de
«pecado»), se decide desinstalar dos seus comodismos e egoísmos (a que se chama
de «conversão»). Como deve ser atormentador quem…
…
Quando as boas-vindas
que se dão aos «de dentro» são oferecidas com «bonzinhos», como se tem ouvido
(e, às vezes, lido), a propósito do Sínodo, realmente a única coisa que apetece
fazer é fugir. São pecadores – sabem-no bem! –, mas fazem de cada momento uma
oportunidade de mais servir e amar, de recomeço com sentido e finalidade.
Mas as portas da
Igreja são como as outras: tanto dão para entrar como para sair. Até mesmo para
os «bonzinhos» que também deixam a Igreja, quando não são acolhidos, quando são
olhados como extraterrestres e tratados como se fossem um alvo a abater, por
não se conformarem com tudo o que lentamente, sub-repticiamente vem deslizando,
instalando, entranhando como uma (nova) verdade. Ironia das ironias, não é?
Os verdadeiros
cristãos são aqueles que sabem e reconhecem a vergonha do seu «pecado»… E ter
vergonha – uma santa vergonha – é uma coisa boa… Porque se, quando nos
confessamos, não temos vergonha por ter falhado e ofendido Deus e os irmãos,
então é porque não nos consciencializamos de que nos afastamos de Deus e
relativizamos e continuamos como «bonzinhos»… «tadinhos» e «sonsinhos».
Não devemos julgar os
outros sem dar o nosso contributo para que a Igreja, não seja só dos «bonzinhos»,
mas acolha todos com igual dignidade, deixando-nos guiar verdadeiramente pelo
Espírito Santo.
A Igreja só será edificada
e o Sínodo bem concretizado se todos reconhecerem que a Igreja não é só dos
«bonzinhos» e «coitadinhos», mas dos pecadores e todos os que, verdadeiramente,
estão «sedentos» da graça de Deus e do amor entre irmãos! Até porque «Ninguém é
bom senão um só: Deus» (Mc, 10, 18).
Liliana F. Verde, em Ponto SJ

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