O que querem as pessoas ouvir quando perguntam «Correu tudo bem?»

Mariana Viana Baptista fez voluntariado missionário com os Leigos para o Desenvolvimento. Escreveu no portal PontosSJ, da Companhia de Jesus:

Imaginei Jesus a regressar ao Céu
Imaginei Jesus a regressar ao Céu, depois da Sua vinda à terra, e a encontrar alguém (talvez um anjo, um profeta, ou uma qualquer personagem do Antigo Testamento). Alegre com o reencontro e empolgado para saber sobre a aventura triunfante do Messias, cumprimentava-O e perguntava-Lhe: “E então, Senhor? Correu tudo bem?” Imaginei Jesus a coçar a testa, a pensar o que poderia responder e como poderia explicar que não, não correu tudo bem, mas sim, correu tudo bem.

Nascer numa manjedoura, no meio de animais, crescer discretamente durante 30 anos e só 3 de vida pública, numa vida agitada, que incluiu traições dos amigos e uma condenação injusta que levou à morte numa cruz como um criminoso… não é bem a primeira coisa que nos salta à cabeça quando pensamos numa missão que corre bem. No entanto, ao mesmo tempo, a missão foi cumprida: Jesus amou sempre, cada dia, até ao fim. E, claro, a vida de Jesus não foi só problemas e sofrimento – também foi uma vida cheia de alegria.

Não se trata de escolher o fácil, nem tampouco o difícil. Este texto não é uma ode ao sofrimento, é antes uma dose de realismo, que tem no verso um convite a vivermos agradecidos e fiéis. Porque não é improvável que os nossos planos saiam furados, que os contextos mudem, que novas variáveis venham acrescentar complexidade ao que vamos atravessando. Mas é na fidelidade que encontro a maior Beleza. Acredito que foi (também) para isso que Jesus encarnou – para nos mostrar que “correr bem” não é que tudo flua sem ruído ou cansaço; é, antes, caminhar à luz da nossa identidade e missão. Somos filhos amados, chamados a amar. Para Jesus, correu tudo bem.

O que querem as pessoas ouvir quando perguntam «Correu tudo bem?»
“Então, correu tudo bem?”, perguntaram-me várias vezes, depois de regressar de um período de missão com os Leigos para o Desenvolvimento. É uma pergunta que todos nós (sublinho, desde já, que me incluo) vamos fazendo a outros, a propósito de muitas coisas na vida: correu bem o dia de trabalho? Correu bem a viagem com os teus amigos? Correu bem a apresentação que tinhas de fazer e a conversa que querias ter com aquela pessoa? É uma pergunta genuína, de quem quer bem ao outro e se interessa pelo que se vai passando na sua vida.

Mas uma vez, talvez pelo cansaço do regresso e de tantas conversas a propósito desse tema, a pergunta incomodou-me e soou-me ridícula. Ri-me e respondi um bruto, seco e quase mal-criado “não”. Claro que não correu tudo bem, pensava eu. Num só dia acontece tanto, quanto mais num ano inteiro e num contexto em que a imprevisibilidade é a regra diária. Não dá para correr tudo bem. A minha resposta gerou desconforto – por causa da minha atitude pouco simpática e porque o não ter corrido tudo bem parecia ser motivo de preocupação.

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