«Jesus Cristo é rei na cruz, porque se identificou tanto com as vítimas inocentes que acabou como elas»
Do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas: «Naquele tempo, os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo: "Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito." Também os soldados troçavam d’Ele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam: "Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo." Por cima d’Ele havia um letreiro: "Este é o Rei dos judeus."
Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-O, dizendo: "Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também." Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: "Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más acções. Mas Ele nada praticou de condenável." E acrescentou: "Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza." Jesus respondeu-lhe: "Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso."»
Palavra da salvação
Nós cristãos atribuímos vários nomes a Jesus Cristo Crucificado: Redentor, Salvador, Rei, Libertador.
Podemos aproximar-nos Dele agradecidos: Jesus resgatou-nos da perdição.
Podemos contemplá-Lo comovidos: ninguém nos amou assim.
Podemos abraçar-nos a Ele para encontrar forças nos nossos sofrimentos, nas nossas tristezas.
Entre os primeiros cristãos chamava-se-lhe também «mártir», isto é, «testemunha». O livro chamado Apocalipse relatado por volta do ano 95, vê no Crucificado o «fiel mártir», «fiel testemunha». Desde a cruz, Jesus apresenta-se-nos como testemunha fiel do amor de Deus e também de uma existência identificada com os últimos. Não devemos esquecê-lo.
Identificou-se tanto com as vítimas inocentes que acabou como elas. A sua palavra incomodava. Tinha ido demasiado longe ao falar de Deus e da sua justiça. Nem o Império nem o templo podiam consentir. Tinha de ser eliminado. Talvez, antes de São Paulo começar a elaborar sua teologia da cruz, entre os pobres da Galileia, já se vivesse essa convicção: «Morreu por nós», «por nos defender até o fim», «por ousar falar de Deus como defensor dos últimos».
Ao olhar para o Crucificado deveríamos recordar instintivamente, a dor e a humilhação de tantas vítimas desconhecidas que, ao longo da história, sofreram, sofrem e sofrerão esquecidas por quase todos. Seria uma zombaria beijar o Crucificado, invocá-lo ou adorá-lo enquanto vivemos indiferentes a todo sofrimento que não é nosso.
O crucifixo está a desaparecer das nossas casas e instituições, mas os crucificados continuam aí. Podemos vê-los todos os dias em qualquer noticiário de televisão. Devemos aprender a venerar o Crucificado não num pequeno crucifixo, mas nas vítimas inocentes da fome e da guerra, nas mulheres assassinadas pelos seus companheiros, nos que se afogam quando os barcos afundam.
Confessar ao Crucificado não é apenas fazer grandes profissões de fé. A melhor maneira de o aceitar como Senhor e Redentor é imitá-lo vivendo identificado com aqueles que sofrem injustamente.
José Antonio Pagola, Grupos de Jesus

Comentários
Enviar um comentário