A doutrina da Imaculada Conceição é um dogma proclamado por
Pio IX em 1854. Pode ser interessante recordar o processo histórico que levou a
esta formulação. Nem os Evangelhos nem os Padres da Igreja falam de Maria
Imaculada. A razão é muito simples: a ideia que temos hoje do pecado original ainda
não havia sido desenvolvida. Só quando se acreditou que todos as pessoas nascem
com uma mancha ou pecado (“macula”, segundo Santo Agostinho) é que começaram a
pensar numa Maria imaculada. Esse pensamento pegou de imediato no povo simples,
sempre aberto a tudo que estimule a sua sensibilidade.
Nos evangelhos não há vestígio de uma Maria mitológica. Há os
relatos da infância de Jesus de Mateus e Lucas. Em que se apoiaram os mitos
sobre Maria, se não existem dados reais que nos permitam concluir tamanha
grandeza? Foi a capacidade de simbologia da nossa espécie, que é o que nos
torna humanos, que permitiu fazer de Maria uma personagem simbólica, utópica,
mítica. Essa capacidade está além da racionalidade e só se desenvolve nas
profundezas da mente. Só a intuição, a experiência pessoal mais profunda
permite essas descobertas abissais.
Mas quem descobre essas verdades irracionais não tem escolha
senão expressá-las numa linguagem que é fruto da racionalidade. Os mitos
permitiram aos seres humanos mais inteligentes uma incrível capacidade de
manipulação. Quando um ser humano que não teve essa experiência recebe essa
linguagem, ele interpreta-a como literalmente racional, distorce-a no seu
significado e transforma-a numa linguagem completamente irracional. Existe algo
mais irracional do que uma mãe de Deus, uma conceção virginal, uma imaculada ou
uma subida ao céu em corpo e alma, entendida em sentido literal? Esta é a
explicação da miscelânea em que nos encontramos.
Embora o pecado original seja um dogma, os exegetas hoje dão-nos
uma explicação do relato do Génesis que não é compatível com a ideia de Santo Agostinho
sobre o pecado original: «Um defeito quase físico, que se transmite de geração
a todos.» Ainda menos defensável é que Adão e Eva são os culpados. Hoje,
sabemos que não houve Adão, criado diretamente por Deus. Hoje, aceitamos como
normal a passagem progressiva dos símios ao "homo sapiens", embora
esta evolução tenha sido muito mais lenta do que pensávamos. Essa evolução não
admite um ser humano completo que seria a origem de todos nós.
O pecado, incluindo o original, não é um vírus que pode ser transmitido
ou removido. A primeira "falha" (pecado?) no homem é consequência da
sua capacidade de conhecer. Assim que teve a capacidade de saber e, portanto,
de escolher, falhou. O fracasso não se deve ao conhecimento, mas a um
conhecimento limitado, que o faz tomar por bom o que lhe faz mal. A vontade
humana sempre escolhe o bem, mas não é capaz de discernir o bem do mal, tem de
aceitar o que o entendimento propõe como tal.
O conceito de pecado, como ofensa a Deus, necessita de uma
revisão urgente. Acreditar que os erros do ser humano podem ofender a Deus e
causar uma reação dele é ridicularizá-lo. Deus é impassível, ele nunca pode
mudar. É amor-unidade e sempre o será, e para todos. Ao falhar, prejudico-me a
mim mesmo e aos outros, nunca a Deus. O que quer que eu seja, a oferta de amor
de Deus sempre será imutável. Mas essa oferta não pode ser feita por Deus de
fora de mim. Para Ele não existe fora. O divino é o fundamento e a base do meu
ser. Lá eu posso voltar a qualquer momento para descobrir.
O dogma diz «Por um privilégio singular de Deus». Para nós,
hoje, essa frase é desproporcional e inaceitável. Em sentido estrito, Deus não
pode ter privilégios com ninguém. Deus não pode dar a um ser o que nega a
outro. O amor em Deus é a sua essência. Deus não tem nada para dar, ou se dá ou
não dá nada. Não pode haver nada fora de Deus que ele possa dispor. Também não
tem peças. Se for dado, é dado totalmente, infinitamente. O que Jesus nos diz é
que Deus se entregou a todos. O extraordinário de Maria e Jesus não foi colocado
por Deus, mas por eles mesmos. É aí que reside a sua grandeza e singularidade.
Maria foi o que foi porque descobriu e viveu nela aquela
realidade de Deus. Tudo o que é exemplar para nós devemos a ela, não ao facto
de que Deus a cobriu de privilégios. Pode ser um exemplo porque podemos
acompanhar a sua trajetória e podemos descobrir e viver o que ela descobriu e
viveu. Se continuarmos a considerar Maria uma privilegiada, continuaremos a
pensar que ela foi o que foi graças a algo que não temos, portanto, qualquer
tentativa de imitá-la seria em vão.
Falar sobre Maria como Imaculada tem um significado muito
mais profundo do que a possibilidade de que um pecado foi tirado dela antes que
ela o tivesse. Falar da Imaculada é tomar consciência de que num ser humano
(Maria) descobrimos algo no mais profundo do seu ser, que sempre foi limpo,
puro, sem mancha, imaculado. O que é verdadeiramente importante é que, se este
núcleo imaculado ocorre num único ser humano, podemos ter certeza de que ocorre
em todos eles. Essa parte do meu ser, que nada nem ninguém pode manchar (nem
mesmo eu), é a nossa verdadeira identidade. É o tesouro escondido, a pérola
preciosa.
A informação que nos pode chegar de fora não é suficiente
para nos darmos conta desta realidade. Para descobrir essa realidade é preciso
descer às profundezas do ser. Primeiro, descobriremos os horrores do nosso falso
eu. Será como entrar num sótão escuro cheio de móveis quebrados, roupas velhas,
teias de aranha, sujeira. Ao deparar com essa realidade, a tentação é fugir,
porque tendemos a pensar que não somos nada mais do que isso. Mas, se tivermos
coragem de continuar a descer, se descobrirmos que o que pensamos que somos é
falso, encontraremos o nosso verdadeiro ser luminoso e limpo, porque é o que há
de divino em nós.
A festa de Maria Imaculada manifesta a proximidade do divino
nela e em nós. Nela descobrimos a presença de Deus.
E o que há de único em Maria é que ela torna Deus presente
como mulher, ou seja, podemos descobrir nela o feminino de Deus.
Fray Marcos, em Religión Digital

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